{"id":710,"date":"2023-06-20T11:36:53","date_gmt":"2023-06-20T11:36:53","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/joaquim-arena\/"},"modified":"2026-05-05T11:52:24","modified_gmt":"2026-05-05T11:52:24","slug":"joaquim-arena","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/en\/glossary\/joaquim-arena\/","title":{"rendered":"Joaquim Arena"},"content":{"rendered":"<p>Joaquim Arena nasceu na ilha de S\u00e3o Vicente, em Cabo Verde e mudou-se com a fam\u00edlia para Lisboa aos cinco anos de idade. Filho de pai portugu\u00eas e m\u00e3e cabo-verdiana, a sua experi\u00eancia pessoal de emigra\u00e7\u00e3o (uma d\u00e9cada antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril) e a sua condi\u00e7\u00e3o de estar entre culturas s\u00e3o elementos integrantes da sua escrita. Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, Arena formou-se em Direito e dedicou-se \u00e0 m\u00fasica e ao jornalismo, tendo tamb\u00e9m durante esse per\u00edodo viajado pela Europa. No final dos anos 90, decide regressar a Cabo Verde como advogado, m\u00fasico e jornalista. A\u00ed fundou o jornal O Cidad\u00e3o e colaborou com a revista \u00c1frica Hoje. Foi assessor cultural da Alliance Fran\u00e7aise em S\u00e3o Vicente e, entre 2017 e 2021, foi conselheiro cultural e de comunica\u00e7\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca. Entre fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o conta j\u00e1 com cinco t\u00edtulos publicados: Um Farol no Deserto (2000), A Verdade de Chindo Luz (2006), Para Onde Voam as Tartarugas (2010), Debaixo da Nossa Pele. Uma Viagem (2017) e Sir\u00edaco e Mister Charles (2022). Em 2021, com o conto \u201cA melancolia dos el\u00e9ctricos\u201d participou no projeto ReMapping Memories, uma iniciativa do Goethe-Institut com o objetivo de ligar duas cidades com um passado colonial, Lisboa e Hamburgo.<br \/>\nArena faz parte das novas gera\u00e7\u00f5es de criadores, herdeiros e testemunhas do passado imperial portugu\u00eas, que almejam quebrar os sil\u00eancios, perscrutar as aus\u00eancias e ativar um ponto de vista transterritorial e transgeracional, com um ineg\u00e1vel sentido de confronta\u00e7\u00e3o, negocia\u00e7\u00e3o e de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Encontramos na obra de Arena um exemplo daquilo que Sabrina Brancato e outros investigadores t\u00eam vindo a chamar, desde o in\u00edcio dos anos 2000, de afroeuropa, isto \u00e9, um exemplo de, nas palavras de Mar\u00eda Jes\u00fas Fern\u00e1ndez, \u201cperten\u00e7a a uma comunidade afroeuropeia\u201d (2013, p. 138). A mesma opini\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada por Margarida Calafate Ribeiro ao observar que Arena pertence a uma \u201clinha liter\u00e1ria de abrang\u00eancia europeia \u2013 afropean, numa vers\u00e3o mais anglo-sax\u00f3nica desta heran\u00e7a \u2013 ou afropolitana \u2013 afropolitan numa vers\u00e3o mais francesa \u2013 de identidades herdeiras dos processos coloniais, que procuram as suas continuidades na Europa de hoje, ao mesmo tempo que se inscrevem numa genealogia liter\u00e1ria portuguesa de imagina\u00e7\u00e3o e de demanda de Portugal e da Europa\u201d (2020a, p. 82)<br \/>\nDesde a publica\u00e7\u00e3o de A Verdade de Chindo Luz (2006), passando por Debaixo da Minha Pele. Uma Viagem (2017) at\u00e9 ao mais recente romance Sir\u00edaco e Mister Charles (2022) que a quest\u00e3o da di\u00e1spora e as suas ramifica\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas \u2013 migra\u00e7\u00e3o, deslocamento, identidade \u2013 t\u00eam norteado de forma muito evidente o seu projeto liter\u00e1rio, facto que deriva naturalmente do seu percurso biogr\u00e1fico e da sua autoidentifica\u00e7\u00e3o, vale lembrar que \u201cJoaquim Arena \u00e9 um escritor que se descreve como \u2018100% cabo-verdiano e 100% portugu\u00eas\u2019 (&#8230;.) e foi um precursor em Portugal de uma literatura que trazia para a cena do texto os espa\u00e7os, os tempos e as personagens africanas, habitantes de Lisboa ou dos bairros perif\u00e9ricos, que com os seus sonhos e as suas lutas iam crescendo numa casa cabo-verdiana no meio de Portugal\u201d (Ribeiro, 2020a, p. 84).<br \/>\nUma das primeiras explora\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica da di\u00e1spora e da identidade diasp\u00f3rica feita por Arena encontra-se em A Verdade de Chindo Luz, romance publicado em 2006, uma narrativa centrada no processo de descoberta da identidade cultural dos filhos de emigrantes que habitam na orla de Lisboa, primeiramente \u201cnuma comunidade \u2018acampada\u2019 que tinha em comum o \u2018regresso de \u00c1frica\u2019 na sequ\u00eancia da descoloniza\u00e7\u00e3o \u2014 que contemplava brancos retornados, negros e mesti\u00e7os \u2014 para depois se concentrar nas comunidades negras\u201d (Ribeiro, 2020b, p. 293). Este livro conta, pois, a hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia composta pelos pais Jo\u00e3o e Nitinha, imigrados de Cabo Verde antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, e pelos seus quatro filhos \u2013 Chindo, Baldo, Neuza e Lili \u2013 j\u00e1 nascidos em Portugal e criados num bairro que alberga uma grande diversidade de pessoas. Descoberta a verdade sobre a morte de Chindo, a decis\u00e3o de Baldo deixar Portugal definitivamente, no final do romance, revela qui\u00e7\u00e1 o profundo desejo da segunda gera\u00e7\u00e3o de procurar uma comunidade que a receba e que lhe d\u00ea um sentido de orienta\u00e7\u00e3o coletiva que contemple espa\u00e7o para a diferen\u00e7a. N\u00e3o se tratar\u00e1 aqui de um desejo pela terra natal \u2013 desire for homeland \u2013 mas de um desejo de sentir-se em casa \u2013 homing desire (cf. Cohen, 2008, p. 9). Em suma, o conceito de di\u00e1spora que atravessa este romance diz respeito especificamente ao movimento de migra\u00e7\u00e3o provocado por raz\u00f5es econ\u00f3micas dentro do espa\u00e7o-tempo colonial (antes do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o iniciado em 1974 e nas duas d\u00e9cadas seguintes, devido \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia das guerras civis que deflagram em Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9-Bissau), mas tamb\u00e9m ao movimento de migra\u00e7\u00e3o da segunda gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 no espa\u00e7o-tempo p\u00f3s-colonial, a qual questiona o sucesso de integra\u00e7\u00e3o social no pa\u00eds de acolhimento, ex-pot\u00eancia colonial. N\u00e3o encontrando um ambiente de reconhecimento social isento de viol\u00eancia, preconceito e sofrimento, a segunda gera\u00e7\u00e3o (crescida ou mesmo j\u00e1 nascida em Portugal) desloca-se para a terra natal dos pais, em busca de um espa\u00e7o acolhedor da sua complexa identidade diasp\u00f3rica. O que fica por saber, no final das contas, \u00e9 at\u00e9 que ponto esses sujeitos com identidades m\u00faltiplas conseguem de facto encontrar esse espa\u00e7o transformador na terra dos pais<br \/>\nEm Debaixo da Nossa Pele. Uma viagem, publicado em 2017, encontramos o signo diasp\u00f3rico na hist\u00f3ria familiar do narrador (possivelmente alter ego de Arena) assim como uma no\u00e7\u00e3o mais alargada de di\u00e1spora. Este \u00e9 um livro de g\u00e9nero h\u00edbrido \u2013 livro de viagens, de reportagem jornal\u00edstica, de ensaio, de mem\u00f3rias, de fic\u00e7\u00e3o \u2013 e constitui-se como uma arqueologia, privada e p\u00fablica, da presen\u00e7a africana na Europa. A quest\u00e3o da di\u00e1spora manifesta-se neste livro de variad\u00edssimas maneiras. Quando o narrador reconstr\u00f3i o percurso de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de escravos e descendentes de escravos do Vale do Sado que trabalham nos campos de arroz, quando apresenta e comenta a exist\u00eancia de figuras hist\u00f3ricas africanas que adquiriram relev\u00e2ncia social e intelectual no espa\u00e7o europeu, ao longo dos s\u00e9culos, quando relata as hist\u00f3rias da di\u00e1spora cabo-verdiana, particularmente a dos cabo-verdianos embarcados ao servi\u00e7o de companhias europeias e das suas fam\u00edlias a viver em Portugal, a dos cabo-verdianos que se encontram em Lisboa \u00e0 espera de tratamento m\u00e9dico e que residem em pens\u00f5es da capital portuguesa numa esp\u00e9cie de limbo, de um ex\u00edlio inevit\u00e1vel, ou a dos cabo-verdianos emigrados nos EUA e suas hist\u00f3rias de desgra\u00e7a e\/ou de ascens\u00e3o. E todo este mapeamento da experi\u00eancia migrat\u00f3ria cabo-verdiana reflete-se na pr\u00f3pria experi\u00eancia diasp\u00f3rica do narrador. Na verdade, entre tantas hist\u00f3rias de deslocamentos, vemos o narrador deambular pela Lisboa contempor\u00e2nea e ouvimo-lo contar a sua primeira chegada a Lisboa enquanto crian\u00e7a emigrante acompanhando a fam\u00edlia no in\u00edcio dos anos 70, mas tamb\u00e9m a decis\u00e3o de j\u00e1 adulto voltar a Cabo Verde, sua terra natal, e o regresso a Lisboa motivado pela morte do pai adotivo. Por fim, animado por um sentimento de autodescoberta, \u00e9 durante esse tempo de regresso que o narrador enceta a viagem f\u00edsica at\u00e9 Lagos, no Algarve, com o intuito de mapear os sinais da presen\u00e7a africana no territ\u00f3rio portugu\u00eas. Em tra\u00e7os gerais, esta livro exemplifica as tipologias diasp\u00f3ricas comummente estudadas: \u201cvictim, labour, imperial, trade and deterritorialized\u201d (Cohen, 2008, p. 18).<br \/>\nAo entrela\u00e7ar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria diasp\u00f3rica, a di\u00e1spora cabo-verdiana, a genealogia ficcional de Leopoldina (uma portuguesa descendente de escravos do Vale do Sado chegados no s\u00e9culo XVIII, que o narrador diz conhecer quase por acaso, numa confer\u00eancia internacional sobre Lisboa Africana, epis\u00f3dio com que se inicia o livro), as vidas de diversas \u201cpersonagens negras nas cortes, nas artes, nas guerras, na vida pol\u00edtica\u201d europeias (Ribeiro, 2020a, p. 83) e a experi\u00eancia dos ex-colonos retornados, Arena constr\u00f3i uma cadeira de causas e efeitos que confere, nas suas palavras, um sentido ao \u201cseu fr\u00e1gil edif\u00edcio identit\u00e1rio\u201d (Arenas, 2017, p. 157). Atrav\u00e9s da viagem tanto ao arquivo da mem\u00f3ria coletiva esquecido quanto \u00e0 experi\u00eancia da viagem f\u00edsica, o narrador procura dar sentido \u00e0 sua pr\u00f3pria experi\u00eancia diasp\u00f3rica no momento em que se v\u00ea confortado com a morte do pai e se questiona sobre o que \u00e9 sentir-se ou n\u00e3o em casa. E, neste contexto, talvez a rela\u00e7\u00e3o com a figura paterna adotiva seja uma meton\u00edmia da rela\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds de acolhimento, na medida em que essas rela\u00e7\u00f5es espelham ao mesmo tempo familiaridade e estranheza, proximidade e dist\u00e2ncia. Debaixo da Nossa Pele. Uma viagem imp\u00f5e-se, enfim, como um exemplo de escrita reparativa, uma vez que procura unir fragmentos da hist\u00f3ria, preencher lacunas deixadas por uma ideologia desvalorizadora dos africanos no espa\u00e7o europeu e, assim, mobilizar uma cidadania ativa e inclusiva.<br \/>\nSir\u00edaco e Mister Charles, publicado em 2022, retoma, alargando, algumas das linhas diasp\u00f3ricas do livro anterior. Expandindo o jogo de hist\u00f3ria e fic\u00e7\u00e3o, este romance relata a vida de Sir\u00edaco, um menino escravo afro-brasileiro com vitiligo levado para a corte de Dona Maria I onde \u00e9 educado. J\u00e1 adulto, na viagem da fam\u00edlia real portuguesa com destino ao Brasil em 1807, fugindo da invas\u00e3o de Napole\u00e3o, Sir\u00edaco decide ficar em Cabo Verde (onde a frota faz uma breve paragem) e n\u00e3o prosseguir viagem at\u00e9 \u00e0 sua terra natal. Passados 22 anos, j\u00e1 velho, trava amizade com o naturalista ingl\u00eas Charles Darwin que, na sua viagem \u00e0s ilhas Gal\u00e1pagos em 1832, faz uma paragem de 17 dias em Cabo Verde, registando-a no seu di\u00e1rio Cape de Verts. P\u00e1gina a p\u00e1gina, entre cap\u00edtulos que entrela\u00e7am factualidade e imagina\u00e7\u00e3o (lembre-se, por exemplo, que Sir\u00edaco morre em Lisboa aos 15 anos), ficamos a saber da vida do jovem Charles Darwin, da sua viagem \u00e0s ilhas Gal\u00e1pagos viagem e do seu fasc\u00ednio pela geografia, geologia, fauna e flora do arquip\u00e9lago, mas sobretudo ficamos a conhecer a experi\u00eancia diasp\u00f3rica de Sir\u00edaco, partilhada igualmente por outras figuras ex\u00f3ticas da corte de D. Maria \u2013 an\u00f5es negros e \u00edndios levados (\u00e0 for\u00e7a?) do Brasil, de Angola, Mo\u00e7ambique para animarem os pal\u00e1cios e os jardins da realeza europeia. Figuras essas imortalizadas no famoso quadro de Jos\u00e9 Conrado Roza, o pintor da corte, La Mascarade Nuptiale (1788), e que serviu de inspira\u00e7\u00e3o a Arena.<br \/>\nTecendo hist\u00f3ria e fic\u00e7\u00e3o com desenvoltura, o escritor tece uma narrativa que se estende por \u201cquase um s\u00e9culo, desde 1786 (a chegada do escravo, ainda crian\u00e7a, a Lisboa, vindo de uma fazenda de cana-de-a\u00e7\u00facar no Brasil), at\u00e9 1871, ano em que J\u00falio, neto de Sir\u00edaco, vai a Londres visitar Darwin\u201d (Direitinho, 2022, p. 19). Os temas da viagem e da di\u00e1spora que sustentam as linhas tem\u00e1ticas deste livro permitem cruzar vis\u00f5es de mundo diferentes e estabelecer nexos inusitados, apresentando uma ampla reflex\u00e3o sobre as consequ\u00eancias do colonialismo, desde o mapeamento da geografia e da diversidade do mundo natural no Atl\u00e2ntico Sul \u00e0 viol\u00eancia da escravatura e \u00e0 viol\u00eancia da convers\u00e3o for\u00e7ada ao cristianismo que se traduziu em apagamento das culturas e l\u00ednguas ind\u00edgenas e em desenraizamento e aliena\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, permite tamb\u00e9m inserir a experi\u00eancia colonial portuguesa no contexto imperial europeu.<br \/>\nAs tr\u00eas obras de Arena discutidas aqui revelam, cada uma a seu modo, um profundo desejo de refletir sobre v\u00e1rios percursos diasp\u00f3ricos e as suas repercuss\u00f5es f\u00edsicas, mentais e emocionais, pondo em dialogo as perspetivas individual e coletiva, mas sobretudo um profundo desejo de compreender os desafios de se viver num espa\u00e7o-tempo p\u00f3s-colonial, marcado por fortes, ainda que algumas vezes subtis, res\u00edduos de imp\u00e9rios aparentemente esquecidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>\u201cO que significa ser neta de quatro imigrantes, fazer parte de uma fam\u00edlia que ao longo dos s\u00e9culos teve de deixar sua terra natal in\u00fameras vezes e procurar em terra estranha algum acolhimento poss\u00edvel? Ou ainda: o que significa crescer entre lembran\u00e7as de viagens e n\u00e3o conseguir sair do lugar?\u201d (\u201cDo di\u00e1rio \u00e0 fic\u00e7\u00e3o: um projeto de tese\/romance\u201d qtd. <em>in<\/em> Meneses n. pag.).<\/p>\n<p>\u201cNasci no ex\u00edlio: e por isso sou assim: sem p\u00e1tria, sem nome. Por isso sou s\u00f3lida, \u00e1spera, bruta. Nasci longe de mim, fora da minha terra \u2013 mas, afinal, quem sou eu? Que terra \u00e9 a minha?\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 25).<\/p>\n<p>\u201cPara escrever essa hist\u00f3ria, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que n\u00e3o conhe\u00e7o, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu n\u00e3o tenha sa\u00eddo de lugar algum. [. . .] N\u00e3o tenho a mais \u00ednfima ideia do que me aguarda nesse caminho que escolhi. Da mesma forma, n\u00e3o sei se fa\u00e7o a coisa certa. Muito menos se existe alguma l\u00f3gica, alguma explica\u00e7\u00e3o admiss\u00edvel para essa empreitada. Mas ando em busca de um sentido, de um nome, de um corpo. E por isso farei essa viagem de volta, para ver se n\u00e3o os esqueci perdidos por a\u00ed, em algum lugar ignoto. Sem me levantar, pego a caixinha na mesa de cabeceira. Dentro dela, em meio a p\u00f3, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu av\u00f4. Tome, ele disse, essa \u00e9 a chave da casa onde morei na Turquia. Olhei-o com express\u00e3o de desentendimento. Agora, deitada na cama com a chave nas m\u00e3os, sozinha, continuo sem entender. E o que vou fazer com ela? Voc\u00ea \u00e9 quem sabe, ele respondeu, como se n\u00e3o tivesse nada a ver com isso. As pessoas v\u00e3o ficando velhas e, com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas, por motivos diversos, n\u00e3o fizeram. E agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se n\u00e3o quiser pass\u00e1-la adiante\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 12-13).<\/p>\n<p>\u201cCheguei hoje a Istambul. Carregava nas m\u00e3os o passaporte portugu\u00eas, acreditando que me daria menos chatea\u00e7\u00f5es. Uma longa fila at\u00e9 al\u00e7ancar a pol\u00edcia federal: de um lado, os turcos, do outro, os estrangeiros. Na minha vez: you need a visa. Como assim? \u00c9 a lei, portugueses precisam de visto. Mas n\u00e3o sou portuguesa, sou brasileira. N\u00e3o, n\u00e3o sou brasileira, sou turca. Meus av\u00f3s vieram daqui, s\u00e3o todos turcos. Eu tamb\u00e9m. Veja, n\u00e3o pare\u00e7o turca? Olhe o meu nariz comprido, a minha boca pequena, os meus olhos de azeitona. Sou turca. O policial torceu o nariz: you need a visa. N\u00e3o discuti, meus argumentos nunca o convenceriam. Dei meia-volta e fui \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. Enfezada, indignada, decepcionada. Preciso de um visto para entrar no pa\u00eds dos meus av\u00f3s? Que eles tenham nascido aqui, crescido aqui, nada disso conta? [. . .] Posso fazer turismo durante tr\u00eas meses, mas n\u00e3o posso trabalhar. Definitavamente, n\u00e3o sou turca\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 37).<\/p>\n<p>\u201cE assim pude partir em paz, voltar para o Brasil com a certeza de que a minha rela\u00e7\u00e3o com Portugal n\u00e3o era mais uma rela\u00e7\u00e3o com o passado, nem do passado\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 205).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Levy, Tatiana Salem (2010), <em>A chave de casa<\/em>. Editora Record: S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Carmo, F.J. (1991). Uma Conversa com Maria Ondina Braga- Entrevista. O Escritor, Revista de Cultura da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Escritores.<br \/>\nGago, D. N. (2016a). Ao espelho da mem\u00f3ria: Macau, lugar m\u00edtico de (re)constru\u00e7\u00e3o da identidade na obra de Maria Ondina Braga. Acta Scientiarum, Langage and Culture, v. 38(1), 1-9.<br \/>\nGago, D. N. (2020). Uma Cartografia do Olhar, Ex\u00edlios, imagens do estrangeiro e intertextualidades na Literatura Portuguesa, VN. Famalic\u00e3o, Edi\u00e7\u00f5es H\u00famus.<br \/>\nMartins, J.C.O (2022). Ed e Pref\u00e1cio. Obras Completas de Maria Ondina Braga, autobiografias ficcionais (Est\u00e1tua de Sal, Passagem do Cabo, Vidas Vencidas), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.<br \/>\nSilva, M. A. (2013). A experi\u00eancia da viagem na obra de Maria Ondina Braga: objectos de busca, cruzamentos e desencontros. Navega\u00e7\u00f5es (6) 2: 188-195.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joaquim Arena nasceu na ilha de S\u00e3o Vicente, em Cabo Verde e mudou-se com a fam\u00edlia para Lisboa aos cinco anos de idade. 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