{"id":713,"date":"2023-06-19T22:00:17","date_gmt":"2023-06-19T22:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/tatiana-salem-levy\/"},"modified":"2023-12-20T12:09:22","modified_gmt":"2023-12-20T12:09:22","slug":"tatiana-salem-levy","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/glossary\/tatiana-salem-levy\/","title":{"rendered":"Tatiana Salem Levy"},"content":{"rendered":"<p>Tatiana Salem Levy (1979-) figura como uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contempor\u00e2nea. Com uma obra em plena expans\u00e3o, seus livros englobam cr\u00edtica liter\u00e1ria, literatura infantil, conto, cr\u00f4nica e romance. A escritora \u00e9 tamb\u00e9m colunista do jornal brasileiro Valor Econ\u00f4mico, desde 2014, para o qual escreve textos de teor liter\u00e1rio. S\u00e3o quatro os seus romances publicados at\u00e9 a presente data, sendo A chave de casa (2007) seu livro de estreia. Contendo elementos autobiogr\u00e1ficos, o romance foi ganhador do Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo em 2008 na categoria de melhor livro de autor estreante, al\u00e9m de ter sido finalista do Pr\u00eamio Jabuti. Desde sua estreia, Levy n\u00e3o s\u00f3 participou de v\u00e1rias antologias de conto em diversos pa\u00edses como Su\u00e9cia, M\u00e9xico, Fin\u00e2ndia, Alemanha, dentre outros, mas tamb\u00e9m foi selecionada pela revista brit\u00e2nica Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros de 2012. Seu mais recente romance, Vista Chinesa (2021), foi tamb\u00e9m finalista do Pr\u00eamio Jabuti na categoria de romance liter\u00e1rio em 2022.<\/p>\n<p>Ao se lan\u00e7ar um olhar hol\u00edstico \u00e0 obra de Levy, observa-se uma preocupa\u00e7\u00e3o em trazer \u00e0 tona tem\u00e1ticas referentes \u00e0 contemporaneidade, a saber, o questionamento dos discursos dominantes, a viol\u00eancia contra a mulher, a rela\u00e7\u00e3o com o mundo natural, os deslocamentos transnacionais e a di\u00e1spora. Em todos os seus romances, os personagens se deparam com a \u00e1rdua tarefa de vivenciar suas subjetividades diante das vicissitudes do contempor\u00e2neo. No seu segundo romance, Dois rios (2011), Levy narra a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os g\u00eameos cariocas, Ant\u00f4nio e Joana, cujas vidas s\u00e3o fundamentalmente impactadas pela morte prematura do pai e, posteriomente, pela paix\u00e3o que compartilham pela mesma pessoa, uma jovem francesa. O livro, permeado de deslocamentos transnacionais, oferece n\u00e3o s\u00f3 uma oportuna medita\u00e7\u00e3o acerca do luto, mas tamb\u00e9m acerca da heterossexualidade compuls\u00f3ria. Para\u00edso (2014), por sua vez, aborda quest\u00f5es referentes \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica contra a mulher, al\u00e9m de lan\u00e7ar um olhar desierarquizante sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ser humano e mundo natural. Em seu mais recente trabalho, Vista Chinesa (2021), Levy relata um caso real de estupro ocorrido com uma amiga pessoal no Rio de Janeiro, revelando uma mordaz cr\u00edtica social \u00e0 viol\u00eancia hist\u00f3rica contra a mulher.<\/p>\n<p>Uma das chaves de leitura para os romances da autora reside nos deslocamentos transnacionais, uma vez que seus personanges constroem e reconstroem suas subjetividades a partir de jornadas em diferentes pa\u00edses, tais como Brasil, Portugal, Fran\u00e7a e Turquia. Esta caracter\u00edstica alude \u00e0 pr\u00f3pria biografia da autora que, descendente de judeus turcos que imigraram para o Brasil, nasceu em Portugal de pais brasileiros. Exilados devido \u00e0 ditadura militar brasileira (1964-1985), seus pais foram, posteriormente, beneficiados pela Lei de Anistia (1979) e puderam regressar ao Brasil quando Levy tinha nove meses. J\u00e1 adulta, Levy faz o percurso inverso, pois atuamente reside em Portugal. Com efeito, o percurso diasp\u00f3rico vivenciado por diferentes gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia da escritora \u00e9 explicitado no seu primeiro romance.<\/p>\n<p>A chave de casa originou-se da proposta da tese de doutorado da escritora intitulada \u201cDo di\u00e1rio \u00e0 fic\u00e7\u00e3o: um projeto de tese\/romance,\u201d no qual indaga \u201cO que significa ser neta de quatro imigrantes, fazer parte de uma fam\u00edlia que ao longo dos s\u00e9culos teve de deixar sua terra natal in\u00fameras vezes e procurar em terra estranha algum acolhimento poss\u00edvel? Ou ainda: o que significa crescer entre lembran\u00e7as de viagens e n\u00e3o conseguir sair do lugar?\u201d (qtd. in Meneses n. pag.). Tal qual a protagonista n\u00e3o nomeada do romance, os antepassados de Levy eram judeus portugueses que imigraram para a Turquia devido \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o e, s\u00e9culos depois, seus av\u00f3s imigraram para o Brasil em busca da promessa de uma vida melhor na Am\u00e9rica. A indaga\u00e7\u00e3o da escritora revela n\u00e3o s\u00f3 um percurso diasp\u00f3rico, mas tamb\u00e9m a experi\u00eancia diasp\u00f3rica fundacional, a do povo judeu distante da terra b\u00edblica de Israel e disperso pelas na\u00e7\u00f5es gentias a partir do s\u00e9culo VI a.C.<\/p>\n<p>De acordo com Kevin Kenny (2013), o conceito de di\u00e1spora evoluiu e transformou-se ao longo dos s\u00e9culos. Relacionada \u00e0 dispers\u00e3o dos judeus, a defini\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de di\u00e1spora deriva da explica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica de que a puni\u00e7\u00e3o do povo judaico, por desobedecer \u00e0s leis de Deus, seria a dor e o ex\u00edlio. Neste contexto fundacional, h\u00e1 duas maneiras de enfatizar a experi\u00eancia diasp\u00f3rica: enquanto o termo hebraico galut denota o ex\u00edlio geogr\u00e1fico, diaspeirein n\u00e3o se relaciona a um evento concreto, mas, sim, alude \u00e0 dimens\u00e3o espiritual do deslocamento (5). Ainda segundo o estudioso, mil\u00eanios e s\u00e9culos depois, v\u00e1rios povos dispersos involutariamente pelo mundo adaptam o modelo judeu aos seus prop\u00f3sitos. De fato, desde os anos 1980, o termo \u2018di\u00e1spora\u2019 tem sido utilizado para abarcar processos migrat\u00f3rios de todos os tipos, desde deslocamentos volunt\u00e1rios a involunt\u00e1rios passando pela \u00eanfase na travessia geogr\u00e1fica em si ou nas trocas multiculturais estabelecidas no novo destino. Este contexto sem\u00e2ntico abrangente do fen\u00f4meno diasp\u00f3rico na contemporaneidade dialoga com A chave de casa, uma vez que o romance tanto remete a processos volunt\u00e1rios e involunt\u00e1rios de deslocamento como alude a trocas multiculturais e a sua manifesta\u00e7\u00e3o espiritual e subjetiva.<\/p>\n<p>Apesar de Levy criar mundos ficcionais ao utilizar aspectos autobiogr\u00e1ficos, caracterizar A chave de casa como autobiografia seria limitar a no\u00e7\u00e3o, desenvolvida ao longo do enredo, de equival\u00eancia entre \u201ccontar\u201d e \u201ccriar\u201d (Rodrigues 4). Trata-se, portanto, de uma transfigura\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, ou, para usar as palavras da escritora, o texto transmuta-se do di\u00e1rio \u00e0 fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desprovida do teor religioso original, a di\u00e1spora no romance \u00e9 concebida a partir da experi\u00eancia de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es da mesma fam\u00edlia, a do av\u00f4 turco, a da m\u00e3e brasileira e a da protagonista do romance, a filha luso-brasileira. Raphael, o av\u00f4 da personagem principal, imigrou para o Brasil na juventude tanto em busca de oportunidades como para esquecer a mulher amada, j\u00e1 prometida pelo pai a outro homem. Sua vida \u00e9 perpassada de tr\u00e1gicas perdas. Tempos depois da mudan\u00e7a ao Brasil, descobre que sua amada se suicidara em protesto contra a decis\u00e3o paterna. Posteriormente, j\u00e1 com uma vida e fam\u00edlia estabelecidas no novo pa\u00eds, Raphael perde um filho. Ambas as mortes s\u00e3o experimentadas pelo homem por meio do sil\u00eancio. Segundo a narradora, as hist\u00f3rias das perdas familiares s\u00e3o interditadas, como se falar fosse um desrespeito \u00e0 dor (Levy 112), ou, ainda, como se o medo tivesse impedido a palavra (132). Apesar do sil\u00eancio e da dor ao longo da vida, Raphael confia \u00e0 neta a chave da casa onde morou na Turquia. De fato, h\u00e1 lendas de judeus sefarditas que, diante da sua expuls\u00e3o da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica em 1492, carregaram a chave de suas casas na esperan\u00e7a de um dia retornar. No romance, ao falar \u00e0 neta que ela tem poder de decis\u00e3o sobre o destino da chave, o av\u00f4 reinfor\u00e7a um elo geracional diasp\u00f3rico simbolizado pela possibilidade do retorno. Segundo Kenny, uma das conex\u00f5es diasp\u00f3ricas estabelecidas entre migrantes e o lugar de origem seria precisamente a ideia de retorno \u00e0 terra natal (13). No caso da protagonista, a heran\u00e7a familiar, simbolizada pela chave, passa a ser uma escolha, j\u00e1 que ela det\u00e9m o poder de decis\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao destino do objeto quando afirma \u201cagora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se n\u00e3o quiser pass\u00e1-la adiante\u201d (13). A chave, por sua vez, \u00e9 prenhe de significados, podendo abrir a porta para tradi\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias de outras gera\u00e7\u00f5es, possibilitando, assim, o estreitamento dos elos familiares ancestrais.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 m\u00e3e da protagonista, sua inser\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria diasp\u00f3rica familiar adv\u00e9m da sua ida a Portugal devido \u00e0 ditadura militar brasileira. Diferentemente do marido, que consegue escapar do Brasil, a m\u00e3e \u00e9 capturada e torturada pelo regime, juntando-se, na sequ\u00eancia, ao marido em Portugal. O ex\u00edlio no local de onde seus antepassados foram expulsos posiciona Portugal como espa\u00e7o central na hist\u00f3ria diasp\u00f3rica da fam\u00edlia, al\u00e9m de fazer convergirem as experi\u00eancias pessoais da m\u00e3e e do av\u00f4. O sofrimento descrito relativo \u00e0s cenas de tortura pelas quais a m\u00e3e passa aliam-se, ainda, \u00e0 dor experimentada pela pr\u00f3pria m\u00e3e quando morre em decorr\u00eancia de um c\u00e2ncer d\u00e9cadas depois, j\u00e1 de volta ao Brasil. H\u00e1, na narrativa, um di\u00e1logo p\u00f3stumo entre m\u00e3e e filha no qual a voz daquela, por vezes, se contrap\u00f5e aos posicionamentos desta. Por exemplo, quando a filha discorre acerca do seu sofrimento ao ver a m\u00e3e lutando contra a doen\u00e7a, a m\u00e3e admite que tamb\u00e9m h\u00e1 aspectos positivos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estadia no hospital, devido ao contato \u00edntimo entre as duas.<\/p>\n<p>Adicionalmente, a voz da m\u00e3e se une \u00e0 do av\u00f4 quando alude ao papel central da filha em lidar com a heran\u00e7a diasp\u00f3rica da fam\u00edlia: \u201ccabe a voc\u00ea, cabe aos que ficaram, contar a hist\u00f3ria, recont\u00e1-la. Cabe a voc\u00ea n\u00e3o repetir os mesmos erros, cabe a voc\u00ea falar em nome daqueles que se calaram\u201d (132). Em outras palavras, a voz da m\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 agrega um n\u00edvel de complexidade \u00e0 narrativa por oferecer um contraponto \u00e0 postura da filha, mas tamb\u00e9m impele a protagonista a confrontar os interditos, as dores e os sil\u00eancios da hist\u00f3ria familiar.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do enredo, a protagonista se encontra paralisada em cima de uma cama devido a tr\u00eas fatores principais: o fardo da heran\u00e7a familiar, a morte da m\u00e3e e um relacionamento amoroso violento. Todas essas experi\u00eancias a levam a uma impossibilidade de locomo\u00e7\u00e3o. Em virtude da par\u00e1lise, seu corpo est\u00e1 dilacerado e aberto por feridas em carne viva (41). O estado abjeto do seu corpo revela tamb\u00e9m a fragmenta\u00e7\u00e3o da sua subjetividade e o questionamento da sua identidade e origem (Rodrigues 14). Ap\u00f3s receber a chave, a protagonista aceita a empreitada de romper tanto com sua hist\u00f3ria pessoal de dor como com o peso do passado diasp\u00f3rico familiar: \u201cQueria voltar a andar, encontrar o meu caminho. E me parecia l\u00f3gico que se refizesse, no sentido inverso, o trajeto dos meus antepassados ficaria livre para encontrar o meu\u201d (Levy 27). A partir deste momento da narrativa, a protagonista empreende uma viagem \u00e0 Turquia e a Portugal, recuperando a hist\u00f3ria da fam\u00edlia e o seu senso de si. Na Turquia, apesar da constata\u00e7\u00e3o de que a casa do av\u00f4 havia sido demolida, a chave se imbui de uma dimens\u00e3o metaf\u00f3rica, sendo o objeto que confere movimento a sua vida. A partir da intera\u00e7\u00e3o com mulheres num banho turco, da comunica\u00e7\u00e3o com familiares distantes e do chamado para a ora\u00e7\u00e3o mul\u00e7umana nas ruas, a protagonista gradualmente estabelece um n\u00edvel de identifica\u00e7\u00e3o aprofundado com a cultura dos seus antepassados. Em Portugal, por sua vez, a protagnista vive uma hist\u00f3ria de amor com um homem portugu\u00eas, experi\u00eancia que, aliada \u00e0s outras vividas na Turquia, sugere a reconstru\u00e7\u00e3o da coer\u00eancia interna que ela procura (Rodrigues 18). Neste contexto, Lisboa ret\u00e9m um significado \u00fanico para a protagonista por ser n\u00e3o s\u00f3 a cidade do seu nascimento, mas tamb\u00e9m do seu renascimento como mulher agente do seu processo de subjetiva\u00e7\u00e3o que busca \u201calguns sentidos para o [seu] corpo, a [sua] hist\u00f3ria\u201d (Levy 171). O caminho diasp\u00f3rico inverso que a protagonista tra\u00e7a a leva da par\u00e1lise ao movimento, da fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e0 cura: \u201cE assim pude partir em paz, voltar para o Brasil com a certeza de que a minha rela\u00e7\u00e3o com Portugal n\u00e3o era mais uma rela\u00e7\u00e3o com o passado, nem do passado\u201d (205). Enquanto a jornada \u00e0 Turquia indica a aceita\u00e7\u00e3o da sua heran\u00e7a multigeracional, a viagem a Portugal revela seu percurso identit\u00e1rio pessoal. No final da narrativa, a chave volta \u00e0 cena, mas desta vez o estranhamento com rela\u00e7\u00e3o ao objeto se desfaz: \u201cesticando o bra\u00e7o, alcan\u00e7o a m\u00e3e do meu av\u00f4. Seguro-a com for\u00e7a, e permanecemos com as m\u00e3os coladas, a chave entre nosso suor, selando e separando nossas hist\u00f3rias\u201d (206). As m\u00e3os dadas segurando juntas a chave remete \u00e0 uni\u00e3o de diversos pa\u00edses, culturas e gera\u00e7\u00f5es da mesma fam\u00edlia. A protagonista, portanto, finaliza o processo de aceita\u00e7\u00e3o da sua heran\u00e7a diasp\u00f3rica.<\/p>\n<p>A di\u00e1spora na narrativa se constr\u00f3i a partir de facetas variadas. Se para o av\u00f4 Raphael o fen\u00f4meno se d\u00e1 de maneira volunt\u00e1ria com sua ida ao Brasil, para a m\u00e3e o deslocamento \u00e9 for\u00e7ado devido \u00e0 ditadura militar. Apesar de n\u00e3o ser uma experi\u00eancia diasp\u00f3rica em si, o ex\u00edlio da m\u00e3e se reveste de complexidade devido ao fato de ela regressar simbolicamente \u00e0 terra natal dos seus antepassados, inscrevendo, assim, entrelinhas diasp\u00f3ricas a sua hist\u00f3ria pessoal. A protagonista, por sua vez, une sua hist\u00f3ria \u00e0 hist\u00f3ria do av\u00f4, da m\u00e3e e dos seus antepassados num movimento de aceita\u00e7\u00e3o e resgate da hera\u00e7a familiar. Para ela, a experi\u00eancia diasp\u00f3rica ganha contornos m\u00faltiplos: como deseja o av\u00f4 e como faz a m\u00e3e, a protagonista empreende o ato de regressar; como algu\u00e9m que busca a si e a sua heran\u00e7a familiar, ela vivencia n\u00e3o s\u00f3 a manifesta\u00e7\u00e3o subjetiva da di\u00e1spora, mas tamb\u00e9m sua trocas multiculturais. Complemetarmente, ao mencionar a defini\u00e7\u00e3o do adjetivo diasp\u00f3rico, Kenny afirma que seu significado tem grande alcance podendo significar diferentes atividades e condi\u00e7\u00f5es (13). No caso do romance, observa-se a transmuta\u00e7\u00e3o do trauma diasp\u00f3rico em atividade criativa, uma vez que deslocamento geogr\u00e1fico e escrita s\u00e3o fen\u00f4menos interligados no enredo. Por vezes, a narradora alude \u00e0 urg\u00eancia do ato de escrever: \u201cSe n\u00e3o sangra, a minha escrita n\u00e3o existe. Se n\u00e3o rasga o corpo, tampouco existe\u201d (69). Deste modo, Tatiana Salem Levy inscreve, em A chave de casa, o signo diasp\u00f3rico a partir da sua reconstru\u00e7\u00e3o criativa onde contar e criar se sobrep\u00f5em. Al\u00e9m disso, o enredo deste seu primeiro romance, com tons autobiogr\u00e1ficos, firma sua voz no rol de escritores lus\u00f3fonos que abordam quest\u00f5es diasp\u00f3ricas sob prismas multifacetados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>\u201cO que significa ser neta de quatro imigrantes, fazer parte de uma fam\u00edlia que ao longo dos s\u00e9culos teve de deixar sua terra natal in\u00fameras vezes e procurar em terra estranha algum acolhimento poss\u00edvel? Ou ainda: o que significa crescer entre lembran\u00e7as de viagens e n\u00e3o conseguir sair do lugar?\u201d (\u201cDo di\u00e1rio \u00e0 fic\u00e7\u00e3o: um projeto de tese\/romance\u201d qtd. <em>in<\/em> Meneses n. pag.).<\/p>\n<p>\u201cNasci no ex\u00edlio: e por isso sou assim: sem p\u00e1tria, sem nome. Por isso sou s\u00f3lida, \u00e1spera, bruta. Nasci longe de mim, fora da minha terra \u2013 mas, afinal, quem sou eu? Que terra \u00e9 a minha?\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 25).<\/p>\n<p>\u201cPara escrever essa hist\u00f3ria, tenho de sair de onde estou, fazer uma longa viagem por lugares que n\u00e3o conhe\u00e7o, terras onde nunca pisei. Uma viagem de volta, ainda que eu n\u00e3o tenha sa\u00eddo de lugar algum. [. . .] N\u00e3o tenho a mais \u00ednfima ideia do que me aguarda nesse caminho que escolhi. Da mesma forma, n\u00e3o sei se fa\u00e7o a coisa certa. Muito menos se existe alguma l\u00f3gica, alguma explica\u00e7\u00e3o admiss\u00edvel para essa empreitada. Mas ando em busca de um sentido, de um nome, de um corpo. E por isso farei essa viagem de volta, para ver se n\u00e3o os esqueci perdidos por a\u00ed, em algum lugar ignoto. Sem me levantar, pego a caixinha na mesa de cabeceira. Dentro dela, em meio a p\u00f3, bilhetes velhos, moedas e brincos, descansa a chave que ganhei do meu av\u00f4. Tome, ele disse, essa \u00e9 a chave da casa onde morei na Turquia. Olhei-o com express\u00e3o de desentendimento. Agora, deitada na cama com a chave nas m\u00e3os, sozinha, continuo sem entender. E o que vou fazer com ela? Voc\u00ea \u00e9 quem sabe, ele respondeu, como se n\u00e3o tivesse nada a ver com isso. As pessoas v\u00e3o ficando velhas e, com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas, por motivos diversos, n\u00e3o fizeram. E agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se n\u00e3o quiser pass\u00e1-la adiante\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 12-13).<\/p>\n<p>\u201cCheguei hoje a Istambul. Carregava nas m\u00e3os o passaporte portugu\u00eas, acreditando que me daria menos chatea\u00e7\u00f5es. Uma longa fila at\u00e9 al\u00e7ancar a pol\u00edcia federal: de um lado, os turcos, do outro, os estrangeiros. Na minha vez: you need a visa. Como assim? \u00c9 a lei, portugueses precisam de visto. Mas n\u00e3o sou portuguesa, sou brasileira. N\u00e3o, n\u00e3o sou brasileira, sou turca. Meus av\u00f3s vieram daqui, s\u00e3o todos turcos. Eu tamb\u00e9m. Veja, n\u00e3o pare\u00e7o turca? Olhe o meu nariz comprido, a minha boca pequena, os meus olhos de azeitona. Sou turca. O policial torceu o nariz: you need a visa. N\u00e3o discuti, meus argumentos nunca o convenceriam. Dei meia-volta e fui \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. Enfezada, indignada, decepcionada. Preciso de um visto para entrar no pa\u00eds dos meus av\u00f3s? Que eles tenham nascido aqui, crescido aqui, nada disso conta? [. . .] Posso fazer turismo durante tr\u00eas meses, mas n\u00e3o posso trabalhar. Definitavamente, n\u00e3o sou turca\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 37).<\/p>\n<p>\u201cE assim pude partir em paz, voltar para o Brasil com a certeza de que a minha rela\u00e7\u00e3o com Portugal n\u00e3o era mais uma rela\u00e7\u00e3o com o passado, nem do passado\u201d (<em>A chave de casa<\/em>: 205).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Levy, Tatiana Salem (2010), <em>A chave de casa<\/em>. Editora Record: S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Kenny, Kevin (2013), <em>Diaspora: A Very Short Introduction<\/em>. Oxford: Oxford UP.<br \/>\nMeneses, Jessica Sabrina de Oliveira (2012), \u201cMem\u00f3ria e escrita: A dupla marca do povo judeu, em <em>A chave de casa<\/em>, de Tatiana Salem Levy.\u201d Revista <em>V\u00e9rtices<\/em>. 12 (2012). n.pag. Web. https:\/\/projetophronesis.wordpress.com\/2012\/10\/01\/revista-vertices-12-estudos-judaicos\/<br \/>\nRodrigues, Cec\u00edlia (2017), \u201cIdentity, Body, and Displacement: Reconstructing Subjectivity in Tatiana Salem Levy\u2019s <em>A chave de casa<\/em>.\u201d <em>Luso-Brazilian Review<\/em> 54.2 (2017): 152-168.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tatiana Salem Levy (1979-) figura como uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contempor\u00e2nea. Com uma obra em plena expans\u00e3o, seus livros englobam cr\u00edtica liter\u00e1ria, literatura infantil, conto, cr\u00f4nica e romance. A escritora \u00e9 tamb\u00e9m colunista do jornal brasileiro Valor Econ\u00f4mico, desde 2014, para o qual escreve textos de teor liter\u00e1rio. S\u00e3o quatro os&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/glossary\/tatiana-salem-levy\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">En savoir plus<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":678,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/713"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=713"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media\/678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}