{"id":870,"date":"2023-10-05T14:06:00","date_gmt":"2023-10-05T14:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/luisa-semedo\/"},"modified":"2023-12-20T12:06:54","modified_gmt":"2023-12-20T12:06:54","slug":"luisa-semedo","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/glossary\/luisa-semedo\/","title":{"rendered":"Lu\u00edsa Semedo"},"content":{"rendered":"<p>Lu\u00edsa Semedo nasceu em Lisboa, em 1977. Filha de pai cabo-verdiano e de m\u00e3e portuguesa, viveu no Bairro da Serafina antes de emigrar para Fran\u00e7a. Doutorou-se em Filosofia, com uma tese sobre a faculdade da empatia, pela Universidade Paris-Sorbonne. \u00c9 conselheira das Comunidades Portuguesas e professora no ensino secund\u00e1rio nos arredores de Paris. Assina regularmente uma coluna de opini\u00e3o no jornal P\u00fablico. Em 2017, o seu conto \u201cC\u00e9u de Carv\u00e3o, Mar de A\u00e7o\u201d venceu o Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio e de Ilustra\u00e7\u00e3o E\u00e7a de Queiroz, tendo sido publicado posteriormente na colet\u00e2nea Desafios da Europa, pela editora Livros de Ontem. \u201cO Arroz \u00e9 Proibido\u201d foi selecionado para a terceira antologia de contos do Centro M\u00e1rio Cla\u00fadio (2022). Escreveu \u201cViagens Anteriores\u201d, pref\u00e1cio ao segundo volume Poetas Lus\u00f3fonos da Di\u00e1spora (2018, Oxal\u00e1 Editora) e participou igualmente nos Mapas de Confinamento, iniciativa lan\u00e7ada, em 2021, por Gabriela Ruivo Trindade e Nuno Gomes Garcia. Em 2019, lan\u00e7ou o seu primeiro romance, O canto da moreia, com a chancela Coolbooks da Porto Editora. O conto \u201cEu empresto-te a Mari\u00e1\u201d foi inclu\u00eddo na antologia Correr Mundo: Dez Mulheres, Dez Hist\u00f3rias de Emigra\u00e7\u00e3o (2020, Oxal\u00e1 Editora) e \u201cJ\u00falia no pa\u00eds das estrelas\u201d, um conto infantil, foi publicado pela CapMag J\u00fanior, em 2020.<br \/>\nA no\u00e7\u00e3o de di\u00e1spora que atravessa v\u00e1rios textos de Semedo serve de pretexto para a constru\u00e7\u00e3o narrativa de uma reflex\u00e3o sobre a experi\u00eancia da alteridade, aliada \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o, racismo e aus\u00eancia de solidariedade em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, quer este seja membro de comunidades minorit\u00e1rias quer seja refugiado. \u00c9 o caso do conto \u201cC\u00e9u de carv\u00e3o, mar de a\u00e7o\u201d, um conto baseado em \u201cfactos reais\u201d (Semedo 2017, 15), que tem como protagonista Kimia Benda-Nzuji, refugiada da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (RDC). Fugindo de um massacre que dizimou a fam\u00edlia e do qual sobreviveram apenas Kimia e a filha Amba, uma beb\u00e9 de tr\u00eas meses, paga o \u201cbilhete mais caro\u201d para atravessar o Mediterr\u00e2neo no que julga ser uma \u201cembarca\u00e7\u00e3o de n\u00edvel superior\u201d (Semedo 2017, 21). A viagem rapidamente se transforma num inferno, Amba morre no mar e Kimia \u00e9 uma das pessoas resgatadas. Sendo hospitalizada como doente politraumatizada, consegue, por fim, reunir-se com L\u00e9onie, irm\u00e3 mais velha, que deixara a RDC dez anos antes e imigrara para Fran\u00e7a. O conto alterna entre sec\u00e7\u00f5es narradas por um narrador de terceira pessoa que exploram o di\u00e1logo entre Kimia e a funcion\u00e1ria francesa que atende o seu requerimento de asilo em Fran\u00e7a, e sec\u00e7\u00f5es narradas na primeira pessoa, nas quais a protagonista rememora o seu percurso individual at\u00e9 ao momento em que \u00e9 hospitalizada.<br \/>\nA chamada de aten\u00e7\u00e3o no primeiro par\u00e1grafo para o facto de esta narrativa se basear em factos reais \u00e9 tamb\u00e9m ela, desde logo, enquadrada no lastro da hist\u00f3ria colonial e do tr\u00e1fico de escravizados oriundos de territ\u00f3rios da \u00c1frica subsariana que sustentou o colonialismo europeu, base do capitalismo contempor\u00e2neo, atrav\u00e9s da ep\u00edgrafe que antecede a narrativa. O excerto do poema \u201cNavio negreiro\u201d (1869), que integra o poema \u00e9pico Os Escravos, de Castro Alves, que comp\u00f5e a ep\u00edgrafe ressalva o facto de aos escravizados serem retiradas todas as condi\u00e7\u00f5es de dignidade do ser humano na travessia a que s\u00e3o sujeitos. Na contemporaneidade, se, numa primeira fase, \u00e9 a capacidade financeira que diferencia a promessa de uma travessia mais ou menos confort\u00e1vel (\u201cNo conv\u00e9s superior custava dois mil d\u00f3lares, logo abaixo mil e quinhentos e no por\u00e3o mil. Tivemos direito a dois coletes salva-vidas cor de laranja\u201d (Semedo 2017, 21)), percebe-se que, nesta mat\u00e9ria, \u00e9 a avidez desenfreada dos \u201cpassadores de esperan\u00e7as e desesperos\u201d (Semedo 2017, 20) pelo lucro que se sobrep\u00f5e ao respeito pela dignidade humana de quem desespera para chegar \u00e0 Europa .As embarca\u00e7\u00f5es s\u00e3o colocadas no mar sobrelotadas e os capit\u00e3es, \u201clecionados pelos passadores\u201d (Semedo 2017, 22) abandonam os passageiros \u00e0 sua sorte em pleno mar alto. A desumaniza\u00e7\u00e3o do refugiado n\u00e3o se restringe apenas \u00e0 experi\u00eancia da viagem; renova-se na insensibilidade dos funcion\u00e1rios que atendem os pedidos de asilo e que se preocupam essencialmente com a coer\u00eancia da hist\u00f3ria do Outro \u201cque vai ser lida, vai ser analisada, comentada, julgada. Quanto mais sentido ela fizer, mais hip\u00f3tese tem de conseguir o estatuto\u201d requerido (Semedo 2017, 19). \u00c9 um servi\u00e7o que \u201cn\u00e3o se devia chamar organismo para a prote\u00e7\u00e3o, mas para a investiga\u00e7\u00e3o dos refugiados\u201d (Semedo 2017, 21), ao qual n\u00e3o falta a interven\u00e7\u00e3o de um \u201cperito em geopol\u00edtica da \u00c1frica Central para a entrevista contradit\u00f3ria\u201d (Semedo 2017, 16). A obsess\u00e3o de quem se senta \u00e0 secret\u00e1ria pela coer\u00eancia, pormenor descritivo e l\u00f3gica de factos que frequentemente ultrapassam a racionalidade contrasta com a experi\u00eancia do sofrimento humano contada na primeira pessoa e que apenas se atenua com o toque e o afeto de irm\u00e3s que n\u00e3o se viam h\u00e1 uma d\u00e9cada.<br \/>\nA figura do deslocado em \u201cC\u00e9u de carv\u00e3o, mar de a\u00e7o\u201d contraria um qualquer estere\u00f3tipo do Outro como sujeito pobre e ignorante. Se a travessia no Mediterr\u00e2neo apenas se faz se se dispuser de milhares de euros, \u00e9 o desespero e n\u00e3o a ignor\u00e2ncia que impele o refugiado a correr riscos. Kimba \u00e9 doutoranda na Universidade de Kinshasa e encontrava-se a fazer uma tese sobre Diogo C\u00e3o. Os planos para tentar chegar a Portugal e reunir mais material de pesquisa que lhe permitisse avan\u00e7ar na investiga\u00e7\u00e3o esbarram em explica\u00e7\u00f5es zelosas que mais facilmente fecham as portas do que acolhem: \u201ctoda uma papelada a tratar e demora tempo e tem de fundamentar o pedido. Mais valia ter ido diretamente para l\u00e1. Mas sei que \u00e9 complicado\u201d (Semedo 2017, 21).<br \/>\nMari\u00e1 \u00e9 o nome de despersonaliza\u00e7\u00e3o da mulher imigrante que \u00e9 vista em fun\u00e7\u00e3o do valor do seu trabalho como empregada dom\u00e9stica interna. \u201cEu empresto-te a Mari\u00e1\u201d \u00e9 um pequeno conto sobre uma jovem portuguesa, m\u00e3e solteira, que, movida pelo amor a um franc\u00eas e pela falta de oportunidades em Ermesinde, de onde \u00e9 natural, decide emigrar para Paris, com a filha pequena. Abandonada pelo homem por quem se apaixonara, torna-se empregada dom\u00e9stica interna na casa de uma fam\u00edlia parisiense de classe m\u00e9dia alta. Apesar de preferir ser chamada pelo seu nome, Concei\u00e7\u00e3o, a patroa insiste em chamar-lhe \u201cMari\u00e1\u201d porque Concei\u00e7\u00e3o ou S\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o \u201cnome de gente\u201d (Semedo 2020, 44). Resta-lhe o nome imposto por quem det\u00e9m o poder sobre ela, lhe d\u00e1 casa, lhe paga o sal\u00e1rio e o col\u00e9gio \u00e0 filha e lhe recorda constantemente que, sem patr\u00f5es, Maria \u201cdormiria na rua\u201d com a filha (Semedo 2020, 44). Esta recorda\u00e7\u00e3o insistente \u00e9 feita pela patroa e pelo patr\u00e3o que a procura regularmente no seu quarto \u00e0 noite, a troco de promessas de uma uni\u00e3o oficializada no futuro. Tal como Kima, em \u201cC\u00e9u de carv\u00e3o, mar de a\u00e7o\u201d, tamb\u00e9m \u201cMari\u00e1\u201d \u00e9 uma jovem educada, com uma licenciatura em psicologia que n\u00e3o lhe abriu quaisquer portas: \u201cOs meus anos na universidade pareciam nunca ter existido. Freud, Piaget, Milgram, Hare, DSM, evaporaram-se-me n\u00e3o me foram de qualquer socorro. Passei de sujeito a objeto. Ningu\u00e9m pode saber a viol\u00eancia desta ru\u00edna\u201d (Semedo 2020, 51).<br \/>\nPoucas vezes se t\u00eam lido hist\u00f3rias sobre a experi\u00eancia da mulher portuguesa que decide emigrar sozinha ou com crian\u00e7as pequenas. Em \u201cEu empresto-te a Mari\u00e1\u201d, esta \u00e9 uma experi\u00eancia de vulnerabilidade extrema e viol\u00eancia contra o seu pr\u00f3prio corpo e a devassid\u00e3o do seu pr\u00f3prio espa\u00e7o pessoal: o quarto de empregada que \u00e9 invadido; a hist\u00f3rias pessoal que \u00e9 motivo de chacota na sala principal; a amea\u00e7a constante de perder o teto se n\u00e3o se mostrar obedi\u00eancia; e a redu\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o pessoal prec\u00e1rio a \u201cquartos sem janela\u201d (Semedo 2020, 49). Das tentativas da Mari\u00e1 para melhorar a sua vida &#8211; da emigra\u00e7\u00e3o, a aceita\u00e7\u00e3o da vida submissa como empregada dom\u00e9stica para que a filha possa estudar e ter a vida que ela n\u00e3o conseguiu ter at\u00e9 ao ato extremo de tentar envenenar os patr\u00f5es para se conseguir libertar, a \u00fanica alternativa que consegue \u00e9 que, no final, a filha ocupe o lugar da m\u00e3e enquanto ela est\u00e1 na pris\u00e3o para que tamb\u00e9m ela perpetue a experi\u00eancia de subalternidade, como o mostra a frase final do conto: \u201c- Olha, estive a pensar, para a tua festan\u00e7a&#8230; eu empresto-te a Bi\u00e1!\u201d (Semedo 2020, 53).<br \/>\nA representa\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora cabo-verdiana \u00e9 central em \u201cPequenas Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Dona Belinha Terra\u201d e O Canto da Moreia e o recurso \u00e0 narra\u00e7\u00e3o de primeira pessoa em ambos os textos introduz centralidade \u00e0s experi\u00eancias de reflex\u00f5es das personagens negras e mesti\u00e7as, humanizando-as de uma forma que esteve durante bastante tempo ausente na literatura portuguesa. Com claras refer\u00eancias \u00e0s Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, de Machado de Assis, Dona Belinha \u00e9 uma mulher de avan\u00e7ada idade e not\u00e1vel sentido de ironia. Filha de uma portuguesa e de um cabo-verdiano e nascida em Lisboa, rememora a sua hist\u00f3ria de vida enquanto se realiza o seu funeral, depois de morrido durante a pandemia da Covid. Conto escrito durante a pandemia, \u201cPequenas Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Dona Belinha Terra\u201d humaniza o sujeito morto para al\u00e9m da frieza das estat\u00edsticas durante a pandemia. Narrado na primeira pessoa, \u00e9 uma carta aberta dirigida \u00e0 filha que rejeitou \u00e0 nascen\u00e7a, na esperan\u00e7a de que esta a possa entender e perdoar.<br \/>\nEm O Canto da Moreia, Eug\u00e9nio, cabo-verdiano nascido na Praia, chega, jovem, de barco a Lisboa, na d\u00e9cada de 1970, trazido pela m\u00e3o de um padre e com a ambi\u00e7\u00e3o de estudar na universidade. No entanto, condicionado pelas oportunidades da vida e orienta\u00e7\u00f5es deste padre, Eug\u00e9nio estuda numa escola industrial, trabalha numa f\u00e1brica metal\u00fargica, constr\u00f3i uma vida familiar conturbada com uma colega branca no bairro da Serafina, com epis\u00f3dios de viol\u00eancia dom\u00e9stica motivados pelo seu alcoolismo, vive como sem-abrigo nas ruas de Lisboa e acaba por falecer no hospital sozinho, v\u00edtima de cirrose hep\u00e1tica, com pouco mais de 50 anos. A frase \u201cEu sou o Eug\u00e9nio\u201d, que repete constantemente em p\u00fablico, \u00e9 a express\u00e3o de uma ilus\u00f3ria excecionalidade individual que se esvazia em Lisboa, com o Tejo como cen\u00e1rio. Eug\u00e9nio \u00e9 um assimilado \u00e0 semelhan\u00e7a de outros que, na fic\u00e7\u00e3o portuguesa, ganharam pela primeira vez protagonismo em Luanda, Lisboa Para\u00edso (2018) de Djaimilia Pereira de Almeida, com Cartola, reunindo igualmente caracter\u00edsticas que encontramos em outras personagens racializadas nas narrativas de Almeida, tais como Aquiles, filho de Cartola, ou Vit\u00f3ria, protagonista de Essa dama bate bu\u00e9 (2018) de Yara Nakahanda Monteiro, em que figuram quest\u00f5es que envolvem sentimentos de desenraizamento.<br \/>\nA derrota marca Eug\u00e9nio desde o in\u00edcio da narrativa, sendo esta um exerc\u00edcio de mem\u00f3ria sobre algu\u00e9m que est\u00e1 hospitalizado em estado terminal e impotente perante um sistema maior do que as suas for\u00e7as: \u201cConcluo que n\u00e3o serei eu a mudar o mundo. Este mundo que de mim desertou\u201d (Semedo 2019: 12). A constru\u00e7\u00e3o ficcional do protagonista assenta no sentimento de orfandade que, mais do que um mero tra\u00e7o ficcional, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que conjuga explora\u00e7\u00e3o e desenraizamento, malgrado as d\u00e9cadas de viv\u00eancia no pa\u00eds. Neste aspeto, Eug\u00e9nio junta&#8211;se ao conjunto de outras personagens de outras autoras, tais Aquiles, de Luanda, Lisboa, Para\u00edso, de Djaimilia Pereira de Almeida, ou Vit\u00f3ria, em Essa Dama bate bu\u00e9, de Yara Monteiro, como personagens que, \u00f3rf\u00e3os da hist\u00f3ria, experienciam a perda e o desenraizamento: o crioulo que esquece ao longo dos anos, a mem\u00f3ria de Cabo Verde que se resume \u00e0 cachupa saboreada ocasionalmente, a aus\u00eancia de not\u00edcias dos familiares espalhados pelo mundo e a impossibilidade de partilha de la\u00e7os num sil\u00eancio autoimposto criam no protagonista uma solid\u00e3o interior que se extrema na progressiva deteriora\u00e7\u00e3o do corpo, mostrada na magreza acentuada, nas m\u00e3os magras e manchadas e no corpo debilitado pela bebida.<\/p>\n<p>CITA\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p>[1]<br \/>\nE fazendo da urg\u00eancia um plano de futuro, fugi.<br \/>\nConhec\u00edamos os caminhos para a Europa, sab\u00edamos que, porventura um dia, ter\u00edamos de fazer a viagem. Pelo menos aqueles que possu\u00edam um m\u00ednimo de haveres para poder pagar uma expedi\u00e7\u00e3o desta esp\u00e9cie. Quem diz pagar a viagem, diz pagar as pessoas que organizam a viagem, os passadores de esperan\u00e7as e desesperos. Havia anos que sonhava viajar, n\u00e3o para fugir, mas para ir buscar a minha irm\u00e3. Sonhava chegar a Paris, ela cair-me nos bra\u00e7os, pedir-me perd\u00e3o de viva voz, fazer as malas e voltar comigo. Depois o sonho mudou, sonhava com Portugal. Queria, enfim, conhecer a na\u00e7\u00e3o que tinha gerado o homem que falaria ao mundo do nosso pa\u00eds. Como poderia um territ\u00f3rio insignificante, e fiz as contas, vinte cinco vezes mais pequeno que a RDC ter sido um dos maiores colonizadores da Hist\u00f3ria?<br \/>\nSabe que n\u00e3o poder\u00e1 passar facilmente para Portugal. H\u00e1 toda uma papelada a tratar e demora tempo e tem de fundamentar o pedido. Mais valia ter ido diretamente para l\u00e1. Mas sei que \u00e9 complicado. A associa\u00e7\u00e3o poderia t\u00ea-la esclarecido sobre isto.<br \/>\n\u2013 Se calhar at\u00e9 esclareceu, mas h\u00e1 tantas informa\u00e7\u00f5es, selecionei as urg\u00eancias.<br \/>\n\u2013 E j\u00e1 recebemos aqui o resultado da Eurodac e realmente n\u00e3o h\u00e1 registo de impress\u00f5es digitais suas em mais nenhum pa\u00eds.<br \/>\n\u2013 Eu j\u00e1 lhe tinha dito. Funcion\u00e1rios menos zelosos olharam para o lado no momento oportuno para voc\u00ea poder agora ter trabalho.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o acho gra\u00e7a Madame Benda-Nzuji!<br \/>\n\u2013 Desculpe, mas isto n\u00e3o se devia chamar organismo para a prote\u00e7\u00e3o, mas para a investiga\u00e7\u00e3o dos refugiados.<br \/>\n\u2013 J\u00e1 mo tinham dito. (\u201cC\u00e9u de carv\u00e3o, mar de a\u00e7o,\u201d pp. 20-21)<\/p>\n<p>[2]<br \/>\n&#8211; Eu empresto-te a Mari\u00e1! &#8211; E tu? N\u00e3o precisas? &#8211; Bien s\u00fbr, mas fico contente por a experimentares. &#8211; N\u00e3o sei. _ N\u00e3o sejas idiota. S\u00f3 uma semaninha e vais ver a diferen\u00e7a. Depois n\u00e3o vais querer outra coisa. &#8211; E como vais fazer? &#8211; Arranjo outra, Mari\u00e1s h\u00e1 muitas! E esta at\u00e9 \u00e9 capaz de ter uma irm\u00e3 ou uma prima que me fa\u00e7a o jeitinho. Mas n\u00e3o ma roubes. \u00c9 s\u00f3 para experimentares. Parece que n\u00e3o, mas eu at\u00e9 gosto da minha Mari\u00e1. (\u201cEu empresto-te a Mari\u00e1!\u201d, p.41)<\/p>\n<p>[3]<br \/>\nO primeiro fantasma do confinamento foi o da minha m\u00e3e, a Dona Julieta Terra. Uma m\u00e3e maravilha, como eu nunca poderia sonhar um dia. Bravou preconceitos, mandou todos \u00e0 fava e casou com um \u201cpreto\u201d. Ensinou-me a detestar racistas, machistas e fascistas. N\u00e3o chegou a viver o 25 de abril. Um desgosto. Teria sido um dos dias mais felizes da sua vida e acalmaria a dor da perda do meu pai \u00e0s m\u00e3os da Besta. Mas se tivesse vivido at\u00e9 hoje, a felicidade sofreria um golpe amargo ao ver fascistas no Parlamento. A minha m\u00e3e morreu-me quando celebrou os quarenta e tr\u00eas anos de idade. Eu tinha vinte. Esse marco dos quarenta e tr\u00eas perseguiu-me. Apesar de ser mais parecida com o meu pai, sentia ser feita da mesma mat\u00e9ria que a Dona Julieta. Era um prolongamento n\u00e3o f\u00edsico, mas espiritual. (\u201cPequenas Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Dona Belinha Terra\u201d, p.57)<\/p>\n<p>[4]<br \/>\n&#8211; lembravam-lhe, por vezes, de maneira menos fraterna \u201cVai pr\u00e1 tua terra\u201d, por\u00e9m tinha a sorte de ter a tez clara, bonita e ex\u00f3tica, j\u00e1 que o seu patr\u00edcio Alcino tinha tido a m\u00e1 sorte, gra\u00e7as aos acasos das nascen\u00e7as, de carregar consigo superior concentra\u00e7\u00e3o melan\u00edmica, de ostentar superior achatamento nasal e superior pulposura labial, minud\u00eancias herdadas que faziam toda a diferen\u00e7a na escala das intoler\u00e2ncias.<br \/>\nEstava longe da fam\u00edlia de Cabo Verde, sentia falta de tudo. E de todos, disto. E de mais aquilo, mas assumia-se homem portugu\u00eas coerente e assimilado. (O canto da moreia, p. 48)<\/p>\n<p>[5]<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o o Senhor Eug\u00e9nio tem o quinto ano do curso industrial e est\u00e1 disposto a fazer este trabalho sujo e duro com as m\u00e1quinas?<br \/>\n&#8211; Sim, eu preciso de trabalhar.<br \/>\n&#8211; Mas porque \u00e9 que n\u00e3o volta para a sua terra, se calhar tinha mais hip\u00f3teses por l\u00e1, o quinto ano portugu\u00eas deve valer o qu\u00ea? Um d\u00e9cimo segundo? Um diploma universit\u00e1rio em Cabo Verde?<br \/>\nEug\u00e9nio pensou duas vezes naquilo que poderia dizer ao futuro patr\u00e3o, todo ele curvas, sem cabelo nem pesco\u00e7o e com olhos de toupeira.<br \/>\n&#8211; A minha terra \u00e9 aqui, eu sou portugu\u00eas. &#8211; Atirou a segunda resposta que lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a.<br \/>\n&#8211; Sim, mas \u00e9 naturalizado. O Eug\u00e9nio \u00e9 cabo-verdiano.<br \/>\n&#8211; Eu sou portugu\u00eas! E quero viver aqui, \u00e9 o meu pa\u00eds.<br \/>\n&#8211; Sim, n\u00e3o vou insistir. Em todo o caso, para o trabalho que vai efetuar n\u00e3o precisa sequer de saber ler e as suas qualidades f\u00edsicas evidentes ser\u00e3o de grande utilidade. Dava-nos jeito ter mais africanos fortes como o Eug\u00e9nio, se tiver familiares ou amigos da sua terra n\u00e3o hesite em recomendar-nos. (O canto da moreia, p.79)<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA ATIVA SELECIONADA<\/p>\n<p>\u2022 \u201cC\u00e9u de Carv\u00e3o, Mar de A\u00e7o\u201d. Desafios da Europa. Livros de Ontem, 2017, pp.15-27.<br \/>\n\u2022 \u201cO Canto da Moreia. Coolbooks\/Porto Editora, 2019.<br \/>\n\u2022 Eu empresto-te a Mari\u00e1!\u201d. Correr Mundo: Doze Mulheres, Dozes Hist\u00f3rias de Emigra\u00e7\u00e3o. 40-53. Oxal\u00e1 Editora, 2020, pp. 40-53.<br \/>\n\u2022 \u201cPequenas Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Dona Belinha Terra\u201d. Mapas do Confinamento: Artes &amp; Literatura, no. 9, setembro 2021, pp.54-61. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.mapasdoconfinamento.com\/post\/lu\u00edsa-semedo<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA CR\u00cdTICA SELECIONADA<\/p>\n<p>\u2022 Rendeiro, Margarida. (2023). N\u00e3o Mais Marias Invis\u00edveis: Uma Leitura Decolonial de \u201cEu empresto-te a Mari\u00e1\u201d (2020) de Lu\u00edsa Semedo e Um Fado Atl\u00e2ntico (2022) de Manuella Bezerra de Melo. In: Ex-Aequo: Dossier: P\u00f3s-Mem\u00f3rias no Feminino. Vozes e Experi\u00eancias na Gram\u00e1tica do Mundo. Khan, Sheila, Pimenta, Susana e &amp; Sousa, Sandra (Eds.) Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (APEM), pp.35-50, ISSN (vers\u00e3o imprensa) 0874-5560; ISSN (vers\u00e3o eletr\u00f3nica) 2184-0385. https:\/\/exaequo.apem-estudos.org\/artigo\/nao-mais-marias-invisiveis<\/p>\n<p>\u2022 Rendeiro, Margarida. (2022). Literatura-Mundial, P\u00f3s-Mem\u00f3ria e Resist\u00eancias P\u00f3s-Coloniais em O Canto da Moreia (2019) de Lu\u00edsa Semedo e de As Novas Identidades Portuguesas (2020) de Patr\u00edcia Moreira. In: Revista de Letras, Dossier Especial &#8211; Da P\u00f3s-Mem\u00f3ria \u00e0 Escrita e Voz Reparativas, Sheila Khan e Orqu\u00eddia Moreira Ribeiro (Orgs), 4, S\u00e9rie III, dezembro, 2022, pp.23-44. ISSN 0874-7962. https:\/\/revistadeletras.utad.pt\/index.php\/revistadeletras\/article\/view\/300<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00edsa Semedo nasceu em Lisboa, em 1977. Filha de pai cabo-verdiano e de m\u00e3e portuguesa, viveu no Bairro da Serafina antes de emigrar para Fran\u00e7a. Doutorou-se em Filosofia, com uma tese sobre a faculdade da empatia, pela Universidade Paris-Sorbonne. \u00c9 conselheira das Comunidades Portuguesas e professora no ensino secund\u00e1rio nos arredores de Paris. Assina regularmente&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/glossary\/luisa-semedo\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">En savoir plus<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":869,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/870"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=870"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media\/869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}