[{"id":1117,"date":"2026-02-28T19:08:03","date_gmt":"2026-02-28T19:08:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1117"},"modified":"2026-02-28T19:33:47","modified_gmt":"2026-02-28T19:33:47","slug":"chico-buarque","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/chico-buarque\/","title":{"rendered":"Chico Buarque"},"content":{"rendered":"<p>Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de junho de 1944, no seio de uma fam\u00edlia profundamente ligada ao universo intelectual e art\u00edstico. Filho do historiador S\u00e9rgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Am\u00e9lia Ces\u00e1rio Alvim, cresceu em um ambiente permeado por livros, m\u00fasica, debates acad\u00eamicos e interlocu\u00e7\u00f5es cosmopolitas. A inf\u00e2ncia dividida entre Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo foi atravessada por uma experi\u00eancia fundamental: a mudan\u00e7a da fam\u00edlia, em 1953, para Roma, onde seu pai lecionaria na Universidade de Roma. Essa viv\u00eancia europeia, em plena forma\u00e7\u00e3o, abriu-lhe os horizontes culturais, lingu\u00edsticos e musicais, iniciando-o na posi\u00e7\u00e3o do sujeito que se desloca \u2014 e observa o mundo desde esse deslocamento.<\/p>\n<p>Seu retorno ao Brasil o reconduziu \u00e0 paisagem cultural brasileira que fervilhava entre o samba urbano, o refinamento da bossa nova e a ebuli\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos anos 1960. Jo\u00e3o Gilberto, Noel Rosa e Ataufo Alves foram nomes decisivos em sua forma\u00e7\u00e3o. Em 1966, Chico Buarque alcan\u00e7a proje\u00e7\u00e3o nacional ao vencer o Festival de M\u00fasica Popular Brasileira com <em>A Banda<\/em> (1966). A consagra\u00e7\u00e3o de p\u00fablico e cr\u00edtica, entretanto, n\u00e3o anulou a densidade social que marcava seu trabalho desde <em>Pedro Pedreiro<\/em> (1966), cuja atmosfera cotidiana e lidimamente pol\u00edtica revelava j\u00e1 a sensibilidade que o acompanharia ao longo das d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A vida art\u00edstica do autor se imbrica inevitavelmente com a hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil. Engajado nas mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis, participante da <em>Passeata dos Cem Mil<\/em>, seguiu compondo m\u00fasicas que desafiaram o regime militar at\u00e9 chegar \u00e0 censura sistem\u00e1tica e \u00e0 necessidade do autoex\u00edlio. Entre 1969 e 1970, viveu em Roma, onde sua produ\u00e7\u00e3o se mesclou aos sentimentos de aus\u00eancia, pertencimento suspenso e constante negocia\u00e7\u00e3o entre a identidade pessoal e as conting\u00eancias do ex\u00edlio. Esse per\u00edodo seria decisivo para que a di\u00e1spora se transformasse n\u00e3o apenas em um marco biogr\u00e1fico, mas em uma puls\u00e3o est\u00e9tica que reorganizaria seu modo de ver o mundo, o Brasil e a si mesmo.<\/p>\n<p>A partir do final da d\u00e9cada de 1960, sua obra se diversifica: escreve pe\u00e7as teatrais como <em>Roda Viva<\/em> (1968) e <em>Gota d\u2019\u00c1gua<\/em> (1975), e, j\u00e1 nos anos 1990, inicia carreira liter\u00e1ria, estreando com <em>Estorvo<\/em> (1991), seguido de <em>Benjamim<\/em> (1995), <em>Budapeste<\/em> (2003), <em>Leite Derramado<\/em> (2009), <em>O Irm\u00e3o Alem\u00e3o<\/em> (2014) e <em>Bambino a Roma<\/em> (2024). Em 2019, recebe o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, consolidando sua presen\u00e7a como uma das vozes liter\u00e1rias mais influentes da l\u00edngua portuguesa. A partir desse panorama biogr\u00e1fico, delineia-se um artista cuja vida oscila entre o Brasil, Roma, Berlim, Budapeste e Paris \u2014 uma tessitura geogr\u00e1fica que sustenta e alimenta o modo como sua obra se oferece ao leitor e ao ouvinte.<\/p>\n<p>A di\u00e1spora pessoal de Chico Buarque persiste com a necessidade de fugir da repress\u00e3o militar brasileira. N\u00e3o foi um ex\u00edlio planejado, tampouco idealizado. Antes, uma retirada for\u00e7ada, marcada pela saudade intensa do pa\u00eds que abandonava e pela experi\u00eancia do estrangeiro que nunca se sente plenamente em casa. Stuart Hall (2003) descreve essa condi\u00e7\u00e3o como a de quem \u00e9 \u201cdispersado para sempre de sua terra natal, mas mantendo v\u00ednculos fortes com as tradi\u00e7\u00f5es de origem\u201d (91). Essa posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-pertencimento total \u00e9 expressa em <em>Samba de Orly<\/em> (1971):<\/p>\n<h5>Vai, meu irm\u00e3o\/ Pega esse avi\u00e3o\/ Voc\u00ea tem raz\u00e3o de correr assim\/ Desse frio, mas beija\/ O meu Rio de Janeiro\/ Antes que um aventureiro\/ Lance m\u00e3o. (Buarque 1971: 0:34)<\/h5>\n<p>A can\u00e7\u00e3o traduz uma tens\u00e3o entre o desejo de retorno e o reconhecimento de que o ex\u00edlio o alteraria irrevogavelmente. \u00c9 o momento em que a identidade deixa de ser amarrada ao solo e passa a se constituir como negocia\u00e7\u00e3o constante com o outro, com o tempo do outro.<\/p>\n<p>Essa mesma tens\u00e3o atravessa seu romance <em>Budapeste<\/em> (2003), cuja narrativa acompanha um <em>ghost-writer<\/em> brasileiro fascinado pela l\u00edngua h\u00fangara. Na Hungria, o deslocamento deixa de ser apenas pol\u00edtico: torna-se ontol\u00f3gico. Ao se apaixonar pelo idioma, o narrador deixa que a l\u00edngua estrangeira o reconstrua. Ele se torna, nas palavras de Salman Rushdie (via Hall 2003), um \u201chomem traduzido\u201d (92) \u2014 algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o pode regressar ao estado anterior sem perder algo fundamental.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia do estrangeiro, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 marcada somente pela dor ou pela nostalgia. Ela possui, na po\u00e9tica buarquiana, uma dimens\u00e3o de abertura. O sujeito exilado v\u00ea o mundo por meio de fraturas; mas justamente nessa fragmenta\u00e7\u00e3o encontra novas possibilidades identit\u00e1rias. O ex\u00edlio pol\u00edtico transforma-se, assim, em ex\u00edlio est\u00e9tico \u2014 n\u00e3o como fuga, mas como reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos 1980, Chico Buarque amplia seu olhar sobre a di\u00e1spora, ultrapassando a perspectiva estritamente pessoal. As lutas pela independ\u00eancia no continente africano, as tens\u00f5es p\u00f3s-coloniais e a atualiza\u00e7\u00e3o das identidades negras no Brasil tocaram de modo profundo sua produ\u00e7\u00e3o. Nesse per\u00edodo surge <em>Morena de Angola<\/em> (1980), composta para Clara Nunes. N\u00e3o se trata de uma can\u00e7\u00e3o folclorista ou meramente celebrat\u00f3ria da cultura africana: \u00e9, como afirma a cr\u00edtica, uma pe\u00e7a que inscreve a \u201ccriouliza\u00e7\u00e3o\u201d no cerne do Atl\u00e2ntico sul. Na can\u00e7\u00e3o, a protagonista se movimenta pela cidade como figura de for\u00e7a disruptiva, sensual, trabalhadora, ancestral:<\/p>\n<h5>Ser\u00e1 que a morena cochila escutando<br \/>\no cochicho do chocalho?<br \/>\nSer\u00e1 que desperta gingando<br \/>\ne j\u00e1 sai chocalhando pro trabalho? (Buarque 1980: 0:27)<\/h5>\n<p>A \u201cMorena de Angola\u201d \u00e9 uma figura da di\u00e1spora atl\u00e2ntica: mistura, travessia, resist\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o. A personagem atrai, desloca, perturba \u2014 e assim opera o que Glissant (2021) chama de err\u00e2ncia: uma deriva criadora que se recusa ao absolutismo da origem e assume a multiplicidade como for\u00e7a vital.<\/p>\n<p>A di\u00e1spora, na obra de Chico Buarque, n\u00e3o se reduz ao deslocamento do indiv\u00edduo, mas envolve tamb\u00e9m um olhar atento para a movimenta\u00e7\u00e3o coletiva de corpos, l\u00ednguas e pr\u00e1ticas culturais. Essa sensibilidade reaparece nas can\u00e7\u00f5es <em>Di\u00e1spora<\/em> (2017) e <em>As Caravanas<\/em> (2017), em que a figura do migrante contempor\u00e2neo se torna elo de tens\u00e3o entre os espa\u00e7os da elite e da periferia, entre o litoral e o interior, entre o pertencimento e a rejei\u00e7\u00e3o. Ali, o artista diagnostica a persist\u00eancia do conflito: a tentativa de expulsar o outro, o diferente, o \u201cinvasor\u201d \u2014 tentativa que Stuart Hall (2003) identifica como uma das marcas da modernidade tardia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da obra musical, os romances de Chico Buarque intensificam sua reflex\u00e3o sobre a di\u00e1spora. <em>Budapeste<\/em> (2003) \u00e9 um mergulho na subjetividade do sujeito traduzido. O narrador vive entre duas l\u00ednguas, duas cidades, dois modos de nomear a realidade. Seu fasc\u00ednio pela l\u00edngua h\u00fangara, simb\u00f3lica e literalmente, o reconstr\u00f3i. No romance, a l\u00edngua estrangeira n\u00e3o \u00e9 obst\u00e1culo, mas moldura de renascimento: \u201cA l\u00edngua da minha amada \u00e9 dif\u00edcil, mas \u00e9 minha segunda pele\u201d (Buarque 2003: 103). Essa frase revela a dimens\u00e3o \u00edntima da di\u00e1spora: um corpo que encontra no outro idioma uma nova forma de existir.<\/p>\n<p>Outro exemplo liter\u00e1rio \u00e9 <em>O Irm\u00e3o Alem\u00e3o<\/em> (2014). Nesse livro, Chico Buarque revisita uma hist\u00f3ria familiar \u2014 a descoberta, por seu pai, de um filho nascido de um relacionamento anterior na Alemanha. A narrativa acompanha a busca desse irm\u00e3o desconhecido, revelando como a di\u00e1spora tamb\u00e9m se inscreve nos la\u00e7os familiares: la\u00e7os interrompidos, reconstru\u00eddos, imaginados. O passado que se perdeu na guerra reaparece como fantasma, e a busca do narrador constitui uma viagem interior que questiona a pr\u00f3pria ideia de pertencimento.<\/p>\n<p>J\u00e1 durante os anos de ditadura, a di\u00e1spora adquire outra face, afinal a m\u00fasica de Chico Buarque foi marcada pelo jogo de met\u00e1foras, ironias finas e ambiguidades \u2014 uma escrita cifrada. Em outras palavras, a di\u00e1spora das palavras, que precisam fugir da censura e reencontrar seu sentido por caminhos desviados. Em <em>Apesar de Voc\u00ea<\/em> (1978), por exemplo, a resist\u00eancia se coloca sob camadas de aparente leveza: \u201cVoc\u00ea que inventou esse estado \/ E inventou de inventar \/ Toda a escurid\u00e3o\u201d (Buarque 1970: 0:33).<\/p>\n<p>Essa cita\u00e7\u00e3o \u00e9 emblem\u00e1tica de uma estrat\u00e9gia que, embora n\u00e3o se refira diretamente ao deslocamento geogr\u00e1fico, traduz a di\u00e1spora como tens\u00e3o pol\u00edtica: o sujeito expulso de sua pr\u00f3pria p\u00e1tria simb\u00f3lica por um Estado que o impede de expressar-se.<br \/>\nAs personagens de Chico Buarque \u2014 seja nas can\u00e7\u00f5es, seja nos romances \u2014 s\u00e3o seres fraturados, reconstitu\u00eddos, movidos por trajet\u00f3rias n\u00e3o lineares. Stuart Hall (2003) diria que s\u00e3o sujeitos \u201cposicionados\u201d, e n\u00e3o \u201cessencializados\u201d. Em sua po\u00e9tica, a identidade nunca \u00e9 um ponto fixo, mas sempre um campo de for\u00e7as, uma travessia.<\/p>\n<p>A di\u00e1spora exige a substitui\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do \u201cou\u201d pela l\u00f3gica do \u201ce\u201d. N\u00e3o se trata de escolher p\u00e1tria ou ex\u00edlio, Brasil ou Europa, tradi\u00e7\u00e3o ou modernidade, raiz ou rizoma. Trata-se de assumir a simultaneidade, a multiplicidade, a coexist\u00eancia dos contr\u00e1rios. Chico Buarque, ao articular a experi\u00eancia do ex\u00edlio pol\u00edtico com o hibridismo cultural afro-atl\u00e2ntico e com a err\u00e2ncia identit\u00e1ria contempor\u00e2nea, encarna essa possibilidade. Sua pr\u00f3pria vida \u2014 dividida entre Brasil, It\u00e1lia, Fran\u00e7a e outros lugares \u2014 testemunha essa recusa \u00e0 identidade pura. Sua obra, igualmente, constr\u00f3i uma est\u00e9tica que celebra a mistura, a indefini\u00e7\u00e3o, a transi\u00e7\u00e3o. Como diz em <em>As Caravanas<\/em> (2017):<\/p>\n<h5>\u00c9 um dia de real grandeza, tudo azul\/ Um mar turquesa \u00e0 la Istambul enchendo os olhos\/ Um sol de torrar os miolos\/ Quando pinta em Copacabana\/ A caravana do Arar\u00e1, do Caxang\u00e1, da Chatuba\/ A caravana do Iraj\u00e1, o comboio da Penha\/ N\u00e3o h\u00e1 barreira que retenha esses estranhos\/ Suburbanos tipo mu\u00e7ulmanos do Jacarezinho\/ A caminho do Jardim de Al\u00e1\/ \u00c9 o bicho, \u00e9 o buchicho, \u00e9 a charanga. (Buarque 2017: 0:18) <\/h5>\n<p>Esse trecho ilustra como Chico explora a amea\u00e7a que o outro representa aos imagin\u00e1rios identit\u00e1rios fixos \u2014 e como transforma essa amea\u00e7a em pot\u00eancia est\u00e9tica, \u00e9tica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A vida e a obra de Chico Buarque dialogam intimamente com os grandes temas da modernidade tardia: a fragmenta\u00e7\u00e3o, a instabilidade das identidades, o tr\u00e2nsito cultural, a migra\u00e7\u00e3o e o ex\u00edlio. Seu autoex\u00edlio durante a ditadura n\u00e3o \u00e9 apenas um fato hist\u00f3rico, mas um eixo interpretativo que lhe permite abordar outras di\u00e1sporas \u2014 as africanas, as europeias, as lingu\u00edsticas, as familiares, as simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Sua po\u00e9tica da tradu\u00e7\u00e3o \u2014 entendida tanto em sentido literal quanto metaf\u00f3rico \u2014 revela um artista que se move entre fronteiras e que transforma esse movimento em mat\u00e9ria est\u00e9tica. A di\u00e1spora, em sua obra, n\u00e3o \u00e9 lamenta\u00e7\u00e3o, mas pot\u00eancia. \u00c9 err\u00e2ncia criadora: uma recusa do absolutismo da origem e uma celebra\u00e7\u00e3o da multiplicidade. Em Chico Buarque, a identidade n\u00e3o \u00e9 porto, mas travessia.<\/p>\n<p>Sua contribui\u00e7\u00e3o para o pensamento cultural global reside justamente nisto: ele nos lembra de que a modernidade exige aprender a habitar o entrelugar. A di\u00e1spora, longe de ser um desvio, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o constitutiva do sujeito: traduzido, m\u00faltiplo, h\u00edbrido, rizom\u00e1tico \u2014 e, sobretudo, livre para inventar-se na rela\u00e7\u00e3o com o outro. Em suma, Chico Buarque n\u00e3o \u00e9 apenas um cronista do Brasil: \u00e9 um poeta da err\u00e2ncia moderna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>Vai, meu irm\u00e3o\/ Pega esse avi\u00e3o\/ Voc\u00ea tem raz\u00e3o de correr assim\/ Desse frio, mas beija\/ O meu Rio de Janeiro\/ Antes que um aventureiro\/ Lance m\u00e3o. (<em>Samba de Orly<\/em>: 0:34) <\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nSer\u00e1 que a morena cochila escutando<br \/>\n o cochicho do chocalho?<br \/>\n Ser\u00e1 que desperta gingando<br \/>\n e j\u00e1 sai chocalhando pro trabalho?<br \/>\n(<em>Morena de Angola<\/em>: 0:27)<\/p>\n<p>A l\u00edngua da minha amada \u00e9 dif\u00edcil, mas \u00e9 minha segunda pele.<br \/>\n(<em>Budapeste<\/em>:103)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nVoc\u00ea que inventou esse estado \/ E inventou de inventar \/ Toda a escurid\u00e3o. (<em>Apesar de voc\u00ea<\/em>: 0:33)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n\u00c9 um dia de real grandeza, tudo azul\/ Um mar turquesa \u00e0 la Istambul enchendo os olhos\/ Um sol de torrar os miolos\/ Quando pinta em Copacabana\/ A caravana do Arar\u00e1, do Caxang\u00e1, da Chatuba\/ A caravana do Iraj\u00e1, o comboio da Penha\/ N\u00e3o h\u00e1 barreira que retenha esses estranhos\/ Suburbanos tipo mu\u00e7ulmanos do Jacarezinho\/ A caminho do Jardim de Al\u00e1\/ \u00c9 o bicho, \u00e9 o buchicho, \u00e9 a charanga. (<em>As caravanas<\/em>: 0:18)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Buarque, C. (1966), <em>A Banda<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Chico Buarque de Hollanda vol. 1. RGE.<br \/>\n&#8212; (1966), <em>Pedro Pedreiro<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Chico Buarque de Hollanda vol. 1. RGE.<br \/>\n&#8212; (1968), <em>Roda-viva<\/em> [Pe\u00e7a de Teatro]. (Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa Dir.), Roberto Colossi Promo\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas.<br \/>\n&#8212; (1971), <em>Samba de Orly<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Constru\u00e7\u00e3o, Universal Music Group<br \/>\n&#8212; (1975), <em>Gota D\u2019\u00e1gua <\/em>[Pe\u00e7a de Teatro].(Gianni Ratto Dir.), Gira pro Sol Produ\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8212; (1978), <em>Apesar de voc\u00ea<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Chico Buarque, PolyGram.<br \/>\n&#8212; (1980), <em>Morena de Angola<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Vida, Universal Music Ltda.<br \/>\n&#8212; (1991), <em>Estorvo<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (1995), <em>Benjamim<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2003), <em>Budapeste<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2009), <em>Leite derramado<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2014), <em>O irm\u00e3o alem\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2017), <em>As caravanas<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Caravanas, Biscoito Fino.<br \/>\n&#8212; (2017), <em>Di\u00e1spora<\/em> [Can\u00e7\u00e3o]. In Caravanas, Biscoito Fino.<br \/>\n&#8212; (2024), <em>Bambino a Roma<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Glissant, \u00c9. (1997), <em>Po\u00e9ticas da rela\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro, Editora Bazar do Tempo.<\/p>\n<p>Hall, Stuart (2003), <em>Pensando a di\u00e1spora: reflex\u00f5es sobre a terra no exterior<\/em>, in Hall, Stuart, <em>Da di\u00e1spora: identidades e media\u00e7\u00f5es culturais<\/em>. Belo Horizonte, Editora UFMG.<\/p>\n<p>Gilroy, Paul (2012), <em>O Atl\u00e2ntico negro: modernidade e dupla consci\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora 34.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Buarque de Holanda nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de junho de 1944, no seio de uma fam\u00edlia profundamente ligada ao universo intelectual e art\u00edstico. Filho do historiador S\u00e9rgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Am\u00e9lia Ces\u00e1rio Alvim, cresceu em um ambiente permeado por livros, m\u00fasica, debates acad\u00eamicos e interlocu\u00e7\u00f5es cosmopolitas. A&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/chico-buarque\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1118,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1117"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1117"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1118"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1104,"date":"2025-12-02T12:54:22","date_gmt":"2025-12-02T12:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1104"},"modified":"2025-12-02T13:11:50","modified_gmt":"2025-12-02T13:11:50","slug":"guilhermina-de-azeredo","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/guilhermina-de-azeredo\/","title":{"rendered":"Guilhermina de Azeredo"},"content":{"rendered":"<p>Maria <strong>Guilhermina<\/strong> Sampaio Forjaz de Agui\u00e3 <strong>de Azeredo<\/strong> era filha do advogado Baltazar de Ara\u00fajo Brito Rocha Agui\u00e3 e de Leonarda Maria Teresa Pereira Forjaz de Sampaio. Depois do div\u00f3rcio, o pai voltou a casar e, nos finais do s\u00e9culo XIX ou no in\u00edcio do seguinte, partiu para Benguela, onde viveu longos anos, desenvolvendo uma intensa atividade c\u00edvica que contemplou o exerc\u00edcio das fun\u00e7\u00f5es de presidente da c\u00e2mara.<\/p>\n<p>Educada na Su\u00ed\u00e7a, Guilhermina de Azeredo viu os seus estudos superiores interrompidos pelo eclodir da I Guerra Mundial. Partindo para Benguela em 1915, a\u00ed viria a casar cinco anos mais tarde com Ant\u00f3nio Maria de Azeredo, oriundo de uma importante fam\u00edlia nortenha e que tamb\u00e9m viria a dedicar-se \u00e0 escrita e \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. Em 1928, v\u00ea-se obrigada a regressar \u00e0 metr\u00f3pole em busca de tratamento m\u00e9dico para o seu filho Ant\u00f3nio. O marido juntar-se-ia \u00e0 restante fam\u00edlia pouco tempo depois, chegando deste modo ao fim a experi\u00eancia angolana do casal. Pouco depois, fixar-se-iam numa quinta da fam\u00edlia, em Samod\u00e3es, Lamego, assumindo a sua explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Na sequ\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es v\u00e1rias, voltariam, d\u00e9cadas mais tarde, para o Porto, cidade onde ambos faleceram, Ant\u00f3nio em 1966 e Guilhermina dez anos mais tarde.<\/p>\n<p>Depois do regresso definitivo \u00e0 metr\u00f3pole, Guilhermina de Azeredo passa a colaborar na imprensa. Na d\u00e9cada de 30, escreveu contos e cr\u00f3nicas de tem\u00e1tica educativa e social em revistas como<em> Eva<\/em>, <em>Portugal Feminino<\/em> ou <em>Magazine Bertrand<\/em> e em jornais como <em>Ac\u00e7\u00e3o<\/em> e<em> Di\u00e1rio de Coimbra<\/em>. Entrando j\u00e1 pela d\u00e9cada de 40, participou em<em> O Mundo Portugu\u00eas<\/em> e na luso-brasileira <em>Atl\u00e2ntico<\/em>. Publicaria tamb\u00e9m tr\u00eas livros, todos centrados em Angola: duas antologias de contos \u2014 <em>Feiti\u00e7os<\/em>, de 1935, e <em>Brancos e Negros<\/em>, de 1956, ambos premiados em concursos da Ag\u00eancia-Geral das Col\u00f3nias \u2014 e um romance, <em>O Mato<\/em>, sa\u00eddo em 1972, em edi\u00e7\u00e3o de autor. Deixou inacabado outro romance, tamb\u00e9m de tem\u00e1tica africana, com o t\u00edtulo de <em>Mulata<\/em> e, pronta para publica\u00e7\u00e3o, a colet\u00e2nea <em>Escravos do Cal\u00e7o<\/em> (<em>contos durienses<\/em>), que re\u00fane textos anteriormente sa\u00eddos em revistas e jornais.<\/p>\n<p>A obra de Guilhermina de Azeredo constitui um caso singular no panorama da literatura de l\u00edngua portuguesa centrada no espa\u00e7o colonial africano. Antes de mais, por se tratar de uma mulher, o que, n\u00e3o sendo caso \u00fanico, \u00e9 pouco comum no universo liter\u00e1rio em causa. Depois, pelo tempo e pelo espa\u00e7o convocados: sensivelmente o primeiro quartel do s\u00e9culo passado e a parte central de Angola, numa zona que vai de Benguela para o interior, em dire\u00e7\u00e3o ao Huambo (a antiga Nova Lisboa), na regi\u00e3o subplan\u00e1ltica e plan\u00e1ltica \u2014 espa\u00e7o e tempo pouco representados nessa literatura. A isso junta-se a &#8220;irregularidade&#8221; do percurso da autora: vivendo \u00e0 margem do circuito intelectual e liter\u00e1rio, publicou os seus livros com grandes intervalos de tempo, aproveitando os concursos promovidos pela Ag\u00eancia-Geral das Col\u00f3nias e fazendo sair o \u00faltimo deles em edi\u00e7\u00e3o de autor, por iniciativa de um dos filhos. Mas o essencial da singularidade de Guilhermina de Azeredo \u00e9 de outro tipo: tem que ver, por um lado, com a capacidade de ver e de representar \u2014 de forma mais sugestiva que afirmativa \u2014 a exist\u00eancia complexa e problem\u00e1tica do africano e do colono e os problemas decorrentes do seu contacto no quadro da coloniza\u00e7\u00e3o; e, por outro, com o dom\u00ednio das t\u00e9cnicas narrativas, com a concentra\u00e7\u00e3o e tens\u00e3o dos seus contos, com a intensidade dos seus monodi\u00e1logos, com o despojamento do estilo, com a variedade de um vocabul\u00e1rio que acolhe muitos termos angolanos de origem diversa que hoje procuramos em v\u00e3o nos dicion\u00e1rios de refer\u00eancia do Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A parte mais importante da obra da autora est\u00e1 relacionada com Angola, apesar de a\u00ed ter vivido apenas treze anos. Percebe-se nela uma esp\u00e9cie de fasc\u00ednio que, embora contemple tamb\u00e9m a terra, incide sobretudo no homem, o ind\u00edgena e o colono, o preto e o branco, num desenho a cores que ilumina a complexidade de cada um dos mundos e do seu inter-relacionamento. Contra o que poder\u00edamos esperar, atendendo \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o dominam nem o exotismo, nem o louvor cego da coloniza\u00e7\u00e3o e da miss\u00e3o civilizadora dos portugueses, nem o sublinhar da superioridade de uns sobre os outros que costumam ser apontados como tra\u00e7os caracter\u00edsticos da literatura colonial. Isso n\u00e3o significa, contudo, que tais aspetos estejam ausentes da obra.<\/p>\n<p>Cada um dos livros de Guilhermina de Azeredo \u00e9 dominado por um dos \u00e2ngulos da quest\u00e3o. Em <em>Feiti\u00e7os<\/em>, encontramos sobretudo a representa\u00e7\u00e3o do negro no seu ambiente, por vezes perturbado pelos efeitos do contacto com o europeu e os seus costumes.<\/p>\n<p>Colocando sempre em primeiro plano o ind\u00edgena, os onze contos do volume apresentam-nos o africano com os seus costumes e as suas regras, abstendo-se quase sempre a autora de formular ju\u00edzos de valor. Os motivos s\u00e3o vari\u00e1veis: prazeres como o tabaco \u2014 que se estende a crian\u00e7as de quatro anos \u2014, a liamba e a garapa (aguardente de fabrico ind\u00edgena); as cren\u00e7as m\u00e1gicas e os seus executantes supremos, os gangas (feiticeiros); o conceito de justi\u00e7a e a sua aplica\u00e7\u00e3o; a arte da ca\u00e7a e os seus her\u00f3is, capazes de enfrentar, desarmados, o &#8220;Grande&#8221; (o le\u00e3o) e a &#8220;bicha&#8221; (a jiboia); os problemas da conviv\u00eancia entre as mulheres que partilham um companheiro. Em alguns dos contos o desfecho infeliz deriva de algum modo do contacto com o branco e dos efeitos perturbadores da acultura\u00e7\u00e3o, mesmo que inconsciente. \u00c9 o que acontece em &#8220;A fome&#8221;, em que Chipa, impelido a acolher-se \u00e0 Miss\u00e3o, tem de optar por uma das suas duas mulheres. \u00c9 o que se verifica ainda no conto que d\u00e1 o t\u00edtulo ao livro, no qual o protagonista, regressado a casa ao fim de anos de aus\u00eancia em trabalhos v\u00e1rios, negoceia com \u00eaxito, segundo o uso tradicional, o casamento com uma mulher que j\u00e1 estava unida a outro, de quem tinha um filho; apesar disso, surpreendido pelo sentimento novo do ci\u00fame, reage com extrema viol\u00eancia quando, ao voltar a casa depois de nova aus\u00eancia, encontra a mulher, que o supusera morto, com o antigo companheiro.<\/p>\n<p>Embora, como fica dito, a autora se abstenha de formular ju\u00edzos de valor sobre os costumes e os h\u00e1bitos dos protagonistas, n\u00e3o deixa de haver \u2014 mais que n\u00e3o seja no plano simb\u00f3lico \u2014 uma condena\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>A obra seguinte, <em>Brancos e Negros<\/em>, \u00e9 mais facetada, considerando tanto o colono quanto o ind\u00edgena, como ainda o relacionamento direto entre ambos os grupos. Brancos e negros enfrentam dificuldades semelhantes. Em &#8220;M\u00e3e e filho&#8221; temos a hist\u00f3ria de uma mulher que, movida pela fome, chega com uma crian\u00e7a pequena a um quimbo cujos habitantes acabam por aceit\u00e1-los com desd\u00e9m, tomando-os como uma esp\u00e9cie de escravos. Criado o filho, a mulher tenta explicar-lhe que ele \u00e9 a semente madura que &#8220;Cai para o ch\u00e3o e nasce outra \u00e1rvore\u2026&#8221; (Azeredo 1956: 51), deixando por isso de lhe pertencer para passar a ser do s\u00e9culo, de quem se tornara escravo. \u00c9 a essa vida de escravatura que a m\u00e3e foge, deixando para tr\u00e1s a crian\u00e7a, sem que nunca ningu\u00e9m tenha sabido &#8220;quem era, como se chamava ao certo, de onde tinha vindo, qual o caminho que tomou\u2026&#8221; (<em>ibidem<\/em>). Essa quest\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio grupo a que se pertence \u00e9 colocada do lado contr\u00e1rio no conto &#8220;Cafuzo&#8221;, que nos apresenta um fumbeiro rejeitado e explorado pelo seu grupo de origem. No seu caso, a escravatura \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da liberdade: por ela aceita &#8220;estar sempre a dever \u00e0 Casa Chefe, sempre escravo do saldo que o obrigava a vegetar miser\u00e0velmente, argamassando os dias com l\u00e1grimas, saudades e alucina\u00e7\u00f5es&#8221; (Azeredo 1956: 92), mesmo sabendo que acabar\u00e1 por sucumbir \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o dos prazeres da cidade. Tal como no conto anteriormente referido, tamb\u00e9m para o fumbeiro n\u00e3o haver\u00e1 outra sa\u00edda que n\u00e3o a fuga: respondendo \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o de um concorrente desonesto, Caluf\u00e9rri \u2014 unanimemente considerado um homem bom e generoso \u2014 mata-o sem inten\u00e7\u00e3o e abandona simbolicamente a vida, tomando o caminho da selva, depois de ter mandado entregar todos os seus bens \u00e0 fam\u00edlia do morto. Este livro, como ali\u00e1s os restantes, est\u00e1 marcado por um pessimismo, quase fatalista, que pode ser resumido no t\u00edtulo de um dos contos: &#8220;Tudo \u00e9 &#8216;chipurulo&#8217;\u2026&#8221;. <em>Chipurulo<\/em>, um dos muitos voc\u00e1bulos que os dicion\u00e1rios de refer\u00eancia n\u00e3o acolheram, designa um sentimento misto de ambi\u00e7\u00e3o, cobi\u00e7a e inveja.<\/p>\n<p>No romance <em>O Mato<\/em>, publicado em 1972 mas reportado ao per\u00edodo que se segue \u00e0 I Guerra Mundial, a aten\u00e7\u00e3o aparece centrada no colono, um tipo especial de colono: o colono empreendedor, que foge da comodidade dos centros urbanos para desbravar o mato virgem e investir na agricultura.<\/p>\n<p>De modo mais acentuado do que acontecia nas duas colet\u00e2neas de contos \u2014 o que tem que ver com o g\u00e9nero, mas sobretudo com o enfoque \u2014, h\u00e1 personagens marcadas por uma vis\u00e3o ex\u00f3tica de \u00c1frica, como h\u00e1 tra\u00e7os de um pensamento nitidamente euroc\u00eantrico e at\u00e9 racista. \u00c9 o que acontece com Dr. Brito, o colono que se bate pelo progresso e pelo desejo de fazer de Angola um novo Brasil e que n\u00e3o pode aceitar os h\u00e1bitos africanos que representam um obst\u00e1culo a tal projeto: &#8220;A culpa \u00e9 da m\u00e3e preta que sustenta o homem. A ideia de que o trabalho agr\u00edcola pertence \u00e0 mulher e ao escravo faz do nativo um ser geralmente avesso ao progresso.&#8221; (Azeredo 1972: 36).<\/p>\n<p>Mesmo dentro dessa perspetiva, <em>O Mato<\/em> n\u00e3o \u00e9, contudo, uma obra acr\u00edtica. Pelo contr\u00e1rio, discute com propriedade uma s\u00e9rie de problemas da pol\u00edtica colonial, como a falta de m\u00e3o-de-obra e a dificuldade da sua forma\u00e7\u00e3o ou a aus\u00eancia de um projeto agr\u00edcola coerente. Al\u00e9m disso, ao mesmo tempo que esbo\u00e7a um modelo de desenvolvimento para a Angola da \u00e9poca, critica de modo contundente uma sociedade empenhada no enriquecimento f\u00e1cil, de base comercial ou especulativa.<\/p>\n<p>Convocando personagens e hist\u00f3rias que tinham dado origem a contos aut\u00f3nomos, marcado por um indisfar\u00e7\u00e1vel fundo autobiogr\u00e1fico que mistura viv\u00eancias angolanas com epis\u00f3dios posteriores, <em>O Mato<\/em> termina com a derrota do colono, vencido pela natureza e pelos condicionalismos econ\u00f3micos, mas disposto mesmo assim a recome\u00e7ar noutro lugar.<\/p>\n<p>O Douro, em que Guilhermina de Azeredo viveu por longa temporada, constitui o outro grande polo da sua fic\u00e7\u00e3o. Mais do que a paisagem majestosa, a aten\u00e7\u00e3o da autora incide nas gentes, nos seus costumes simples e nas suas miser\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>O conto &#8220;O bom roceiro&#8221;, publicado em 1936 no jornal <em>Ac\u00e7\u00e3o<\/em>, pode servir para ilustrar essa vertente da fic\u00e7\u00e3o da autora e tamb\u00e9m certos aspetos da sua personalidade e do seu pensamento. Esp\u00e9cie de par\u00e1bola pol\u00edtica, narra-nos a hist\u00f3ria de um roceiro que cumpre a lei e pratica o bem, colocando-se do lado dos mais favorecidos contra os poderosos, que o denunciam \u00e0s autoridades como bolchevique. Preso, acabar\u00e1 por ser declarado inocente e por receber o elogio do chefe.<\/p>\n<p>A indetermina\u00e7\u00e3o esp\u00e1cio-temporal com que o texto abre, um pouco \u00e0 maneira do conto maravilhoso, n\u00e3o deixa sequer entrever o referente que lhe serviu de ponto de partida: &#8220;Era uma vez uma ilha e, nessa terra de mato grosso (assim lhe chamavam alguns habitantes), afastada do resto do reino por mares encapelados, vivia um bom roceiro.&#8221; Sabendo o que lhe esteve na base, percebemos, contudo, por uma descri\u00e7\u00e3o mais detalhada, que o espa\u00e7o \u00e9 o Douro:<\/p>\n<h5>Seus montes encrespados at\u00e9 ao cimo, suas cristas talhadas a capricho, suas enseadas risonhas, seu c\u00e9u fulgindo na do\u00e7ura das cores e do clima benigno, mostravam quanto carinho o Criador pusera em moldar-lhe as garridices e quanto esfor\u00e7o o homem gastara para desentranhar a enorme riqueza.<br \/>\nMilhares, milh\u00f5es e milh\u00f5es de bra\u00e7os ergueram esse escad\u00f3rio imponente e grandioso, dobrados sobre si pr\u00f3prios para a terra, e constru\u00edram, e plantaram, e revolveram, e carrearam, numa \u00e2nsia nunca satisfeita, numa actividade nunca esgotada. (Azeredo 1936: 5)<\/h5>\n<p>O regime pol\u00edtico vigente n\u00e3o \u00e9 alvo de cr\u00edticas. Bem ao contr\u00e1rio: &#8220;Porque as leis eram justas, porque a esse mato grosso ainda n\u00e3o tinham chegado os efeitos salutares e beneficiadores das diversas medidas governamentais, o bom roceiro entendeu por bem espalhar e pregar as ideias do chefe&#8221; (<em>ibidem<\/em>).<\/p>\n<p>O combate do bom roceiro \u00e9 contra as injusti\u00e7as sobre os mais desfavorecidos, praticadas pelos poderosos que veem como revolucion\u00e1rio aquele que d\u00e1 \u00abmais um caldo ou mais uma sardinha\u00bb aos seus trabalhadores e defende que, numa associa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, &#8220;grandes e pequenos tinham o seu voto, os mesmos direitos e as mesmas obriga\u00e7\u00f5es conforme a ordem e o respeito m\u00fatuo mandavam&#8221; (<em>ibidem<\/em>).<\/p>\n<p>Por este exemplo, podemos perceber os tra\u00e7os essenciais do pensamento da autora e o modo como se situa face \u00e0 conjuntura que a rodeia e \u00e0 sociedade do seu tempo: apoiando os objetivos do regime, empenha-se na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e mais evolu\u00edda do ponto de vista da assist\u00eancia social, defendendo certos aspetos do modelo su\u00ed\u00e7o que teve oportunidade de conhecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>Passara Abril e Maio e n\u00e3o chovera. Junho entrou tristonho, com noites geladas e h\u00fami\u00acdas, os dias abrasados e ventosos.<br \/>\nPela estrada, vindos do Sumi, do C\u00faima, do Sanh\u00e3nha e de mais longe ainda, das nascentes do Cun\u00e9ne, passavam pequenas comitivas em direc\u00e7\u00e3o ao Huambo e C\u00e0\u00e1la.<br \/>\nEra ano s\u00e1faro, mesmo de fome para aquela pobre gente do sert\u00e3o.<br \/>\nOs feijoeiros, de floresc\u00eancia miser\u00e1vel, n\u00e3o chegaram a criar vagem e os milharais em grande parte nem espigas vingaram, tolhidos logo \u00e0 nascen\u00e7a pela estiagem, raqu\u00edticos de todo, o pend\u00e3o murcho e torcido, a f\u00f4lha enrolada da c\u00f4r do barro.<br \/>\nAt\u00e9 para os animais seria uma mis\u00e9ria\u2026 No maior tormento, quando a luz fulgia implac\u00e1vel, um vento s\u00eaco do deserto arrepiava a natureza adusta.<br \/>\nArfagens tr\u00e9mulas e convulsivas, subiam at\u00e9 grande altura; parecia que a terra respirava ofe\u00acgante e aflita\u2026 (\u00abFeitilos\u00bb, <em>Feiti\u00e7os<\/em>: 19-20)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nQuando erguia o queixo aproado, a p\u00eara rala, h\u00edspida, franzindo a bocarra, arregalando os olhos na atitude de grande descobridor, ou colava o ouvido ao solo, ou ainda se empoleirava nas maiores alturas dos copados, era certo haver novidade, lobrigar quimbo pr\u00f3ximo e tomar rumo seguro.<br \/>\nNas noites intermin\u00e1veis de acampamento sentava-se sobre um bra\u00e7o de lenha, a chupar o cachimbo tombado ao canto da b\u00f4ca, as pernas encolhidas, os joelhos ao alto[,] de cotovelos fincados e m\u00e3os estendidas para o fogo.<br \/>\nE, assim, nesta atitude caracteristicamente banto, \u00e0 luz rubra das chamas, \u00eale narrou, em sua linguagem nativa e f\u00e9rtil com grandes frases portuguesas, com mil e um pormenor a imitar o bramir do le\u00e3o, zunido do vento[,] folha que cai das \u00e1rvores transfiguradas, bater de ferraduras, \u2014 pruc! pruc! \u2014 a sua aventura ocorrida por aquelas bandas, no muchito\u2026 (\u00abO grande\u00bb. <em>Feiti\u00e7os<\/em>: 94-95)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nFoi em Junho.<br \/>\nS\u00f4bre a terra luzia ainda uma camada ligeira de geada e os pobres negros, a tiritar com frio, entorpecidos, aconchegavam as vestimentas primitivas.<br \/>\nAlguns ainda envergavam coletes v\u00e9lhos e tangas de pano, outros limitavam-se a uma estreita tira de pele de c\u00f4r\u00e7a ou de casca de \u00e1rvore batida, entrepernas, pr\u00easa \u00e0 cinta por um cordel.<br \/>\nSemelhante gente, mais reles e menos afeita ao trabalho, nunca se vira!<br \/>\nE o branco, para poder fazer alguma coisa, enquadrava os de fora mais selvagens, vindos das Gangu\u00e9las, com Santomistas e Quimbundos. Por\u00e9m, esta mistura de ra\u00e7as no servi\u00e7o, n\u00e3o agradava ao pessoal; \u00e0 mais pequena disputa, chufas choviam de todos os lados, insultos e pragas.<br \/>\n\u2014 Gangu\u00e9la! Qui\u00f4co miser\u00e1vel! (\u00abLiamba\u00bb. <em>Feiti\u00e7os<\/em>: 105-106)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nComo loucos, correram sert\u00e3o adentro, numa compita desordenada e ingl\u00f3ria. Nunca febre tamanha de ego\u00edsmo fora t\u00e3o devoradora. E nada os demovia, nem a caridade crist\u00e3, nem os la\u00e7os de sangue branco, nem as lembran\u00e7as de civilizados\u2026 Construir casa, para qu\u00ea? A \u00e2nsia era recolher primeiro o caudal de ouro que vinha do cora\u00e7\u00e3o do mato, que os dinamizava e os enlouquecia numa concorr\u00eancia feroz.<br \/>\nViviam nos chingues como os selvagens, deitavam-se no ch\u00e3o duro como os animais, comiam pir\u00e3o e peixe seco.<br \/>\nOnde iriam parar daquele modo?<br \/>\nAt\u00e9 os negros se riam dos brancos\u2026 (\u00abCafuzo\u00bb. <em>Brancos e negros<\/em>: 112-113)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nA ideia da fazenda empolgava Dr. Brito. Dia e noite, toda a sua imagina\u00e7\u00e3o trabalhava \u00e0 volta dela. Sonhava com as \u00e1rvores j\u00e1 grandes e frondosas; via os campos lavrados e produzindo toneladas de cereais; dezenas, centenas de lares felizes instalados ali pela sua vontade forte. Ele os tiraria da mis\u00e9ria das aldeias serranas da Metr\u00f3pole para os instalar na terra africana de ningu\u00e9m. Sim&#8230; haviam de ser minhotos, aut\u00eanticos minhotos. Todos os seus empregados, quer pretos, quer brancos, seriam propriet\u00e1rios.<br \/>\nNo fim de contas, aben\u00e7o\u00e1-lo-iam e poderia morrer sossegado como um venerando patriarca, pois deixaria atr\u00e1s de si uma obra e um exemplo, qualquer coisa de imorredoiro na mem\u00f3ria dos homens&#8230; (<em>O Mato<\/em>: 31-32)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Azeredo, Guilhermina de (1935), <em>Feiti\u00e7os: Contos<\/em>. Pref\u00e1cio de Jos\u00e9 Os\u00f3rio de Oliveira, Lisboa, Parceria Ant\u00f3nio Maria Pereira.<\/p>\n<p>&#8212; (1936), O bom roceiro. <em>Ac\u00e7\u00e3o: Seman\u00e1rio portugu\u00eas para portugueses,<\/em> Lisboa, n.\u00ba 8 (18 de julho): 5.<\/p>\n<p>&#8212; (1956), <em>Brancos e Negros<\/em>. Lisboa, Ag\u00eancia Geral do Ultramar, Divis\u00e3o de Publica\u00e7\u00f5es e Biblioteca.<\/p>\n<p>&#8212; (1972), <em>O Mato<\/em>. Braga, Edi\u00e7\u00e3o da Autora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>C\u00e9sar, Am\u00e2ndio (1967), &#8220;Um caso \u00edmpar na novel\u00edstica do Ultramar: Guilhermina de Azeredo&#8221;, in Par\u00e1grafos de Literatura Ultramarina. Braga, Sociedade de Expans\u00e3o Cultural: 174-176.<\/p>\n<p>Ferreira, Ana Paula (2020), <em>Women Writing Portuguese Colonialism in Africa<\/em>. Liverpool, University Press.<\/p>\n<p>Fran\u00e7a, Luiz Fernando (2018), <em>Uns contos iguais a muitos: est\u00f3rias africanas, rela\u00e7\u00f5es de trabalho e estrutura narrativa no contexto colonial angolano e mo\u00e7ambicano (d\u00e9cadas de 50\/60)<\/em>. Tese de Doutorado. S\u00e3o Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP.<\/p>\n<p>Pimenta, Susana (2019), <em>Din\u00e2micas coloniais e p\u00f3s-coloniais: os casos de Reis Ventura, Guilhermina de Azeredo e Castro Soromenho<\/em>. Vila Nova de Famalic\u00e3o, H\u00famus.<\/p>\n<p>Sousa, Sandra (2013), &#8220;O Mato de Guilhermina de Azeredo: ambival\u00eancia colonial no feminino&#8221;, <em>Buala<\/em>, dispon\u00edvel em https:\/\/www.buala.org\/pt\/a-ler\/o-mato-de-guilhermina-de-azeredo-ambivalencia-colonial-no-feminino.<\/p>\n<p>Topa, Francisco (2010), &#8220;Colonial ou luso-angolana? O interesse da reedi\u00e7\u00e3o da obra de Guilhermina de Azeredo&#8221;, <em>in<\/em> Reynaud, Maria Jo\u00e3o (org.), <em>Cr\u00edtica textual &amp; cr\u00edtica gen\u00e9tica em di\u00e1logo: col\u00f3quio internacional,<\/em> Porto, 18-20 de Outubro de 2007, actas. M\u00fcnchen: Martin Meidenbauer, vol. I: 251-285. (Separata)<\/p>\n<p>&#8212; (2017), &#8220;Uma lusa nos tr\u00f3picos: a colabora\u00e7\u00e3o de Guilhermina de Azeredo em <em>Ac\u00e7\u00e3o: seman\u00e1rio portugu\u00eas para portugueses<\/em>&#8220;. <em>Miguilim<\/em>: revista eletr\u00f4nica do N\u00facleo de Estudos de Teoria Lingu\u00edstica e Liter\u00e1ria do Departamento de L\u00ednguas e Literaturas da Universidade Regional do Cariri. Cear\u00e1. 6: 3 (set.-dez.): 153-162.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Guilhermina Sampaio Forjaz de Agui\u00e3 de Azeredo era filha do advogado Baltazar de Ara\u00fajo Brito Rocha Agui\u00e3 e de Leonarda Maria Teresa Pereira Forjaz de Sampaio. Depois do div\u00f3rcio, o pai voltou a casar e, nos finais do s\u00e9culo XIX ou no in\u00edcio do seguinte, partiu para Benguela, onde viveu longos anos, desenvolvendo uma&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/guilhermina-de-azeredo\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1105,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1104"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1104"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1105"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1098,"date":"2025-11-21T15:29:41","date_gmt":"2025-11-21T15:29:41","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1098"},"modified":"2025-12-02T13:28:50","modified_gmt":"2025-12-02T13:28:50","slug":"edimilson-de-almeida-pereira","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/edimilson-de-almeida-pereira\/","title":{"rendered":"Edimilson de Almeida Pereira"},"content":{"rendered":"<p>O percurso do escritor mineiro Edimilson de Almeida Pereira inscreve-se de modo singular e multifacetado na intersec\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a pesquisa acad\u00eamica, constituindo uma obra que se apresenta como um vasto projeto de investiga\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e etnogr\u00e1fica da di\u00e1spora africana no Brasil e no mundo lus\u00f3fono. Poeta, ficcionista, ensa\u00edsta e Professor Titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora, Pereira construiu uma trajet\u00f3ria biobibliogr\u00e1fica marcada por uma erudi\u00e7\u00e3o que ultrapassa fronteiras disciplinares.<\/p>\n<p>Sua forma\u00e7\u00e3o abrange a Ci\u00eancia da Religi\u00e3o, a Literatura Portuguesa e a Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura, culminando em um P\u00f3s-doutorado em Literatura Comparada pela Universidade de Zurique, na Su\u00ed\u00e7a. Essa s\u00f3lida base intelectual confere \u00e0 sua escrita uma profundidade rara, capaz de dialogar com as vertentes mais sofisticadas da teoria contempor\u00e2nea e, ao mesmo tempo, enraizar-se nas tradi\u00e7\u00f5es e oralidades afro-brasileiras. Desde a estreia com <em>Dormundo<\/em> (1985) e o volume <em>Corpo vivido<\/em> (1991), Pereira j\u00e1 revelava, nas palavras de Carlos Nejar, \u201ca l\u00e2mina da poesia que reformula o universo\u201d, uma escrita que opera \u201cum retorno ao mais arcaico das coisas\u201d (Nejar 1991: 13).<\/p>\n<p>Essa for\u00e7a inaugural j\u00e1 anunciava o que se tornaria um dos tra\u00e7os centrais de sua po\u00e9tica: a capacidade de fazer a palavra dan\u00e7ar, cheia de sentidos, tensionando os limites da linguagem e da experi\u00eancia. Tal gesto ressoa com a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o diasp\u00f3rica \u2013 movimento simult\u00e2neo de ruptura e reconstru\u00e7\u00e3o, de dispers\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o. Sua vasta produ\u00e7\u00e3o, reunida em obras como <em>Zeoz\u00f3rio blues: obra po\u00e9tica I<\/em> (2001) e o extenso projeto com os seguintes volumes: <em>Lugares ares: obras po\u00e9ticas 2, As coisas arcas: obra po\u00e9tica 3, Casa da palavra: obra po\u00e9tica 4<\/em>, revela uma insist\u00eancia tem\u00e1tica e formal na mem\u00f3ria, na paisagem e no corpo como arquivos vivos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nos romances <em>Front<\/em> (Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura, 2020) e <em>O ausente<\/em> (finalista do Pr\u00eamio Oceanos, 2020), essa mesma pot\u00eancia se expande: a narrativa ganha um tom po\u00e9tico e filos\u00f3fico que ecoa a densidade ensa\u00edstica de sua pesquisa. Mais do que os pr\u00eamios, entretanto, o que define o alcance de Pereira \u00e9 o campo de investiga\u00e7\u00e3o que o move \u2013 aquele em que se entrela\u00e7am literatura, etnografia e religiosidade afro-brasileira.<\/p>\n<p>As obras escritas em coautoria com N\u00fabia Pereira de Magalh\u00e3es Gomes \u2013 <em>Os tambores est\u00e3o frios: estudo sobre a tradi\u00e7\u00e3o banto no ritual de Candombl\u00e9 em Minas Gerais<\/em> (1997) e <em>A saliva da fala: notas sobre a po\u00e9tica banto-cat\u00f3lica do Congado<\/em> (2002) \u2013 s\u00e3o decisivas para compreender o alicerce epist\u00eamico de sua cria\u00e7\u00e3o. Nelas, a quest\u00e3o da origem, da diversidade e da dispers\u00e3o dos povos bantos n\u00e3o \u00e9 apenas um tema, mas o pr\u00f3prio motor de sua est\u00e9tica. Pereira mapeia as perman\u00eancias e ressignifica\u00e7\u00f5es das culturas africanas no Brasil, revelando como performance, oralidade e religiosidade popular se tornaram espa\u00e7os de inscri\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia frente ao apagamento colonial. Sua literatura transforma esse mapeamento em gesto po\u00e9tico, tornando-se, ela mesma, vetor de dispers\u00e3o de narrativas contra o discurso hegem\u00f4nico da Casa-Grande \u2013 um projeto que, nas palavras do pr\u00f3prio autor, busca ultrapassar limites de an\u00e1lise cr\u00edtica impostos seja por categorias est\u00e9ticas, seja por fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>Essa voca\u00e7\u00e3o de ultrapassagem \u2013 uma incessante articula\u00e7\u00e3o dos tr\u00e2nsitos e das media\u00e7\u00f5es culturais \u2013\u00a0 encontra resson\u00e2ncia nas formula\u00e7\u00f5es de Paul Gilroy e Stuart Hall. Para Gilroy (2001), o Atl\u00e2ntico Negro n\u00e3o \u00e9 meramente uma regi\u00e3o geogr\u00e1fica, mas uma contra-cultura da modernidade, um <em>continuum<\/em> cultural e pol\u00edtico em constante mobilidade, forjado pela &#8220;dupla consci\u00eancia&#8221; do sujeito diasp\u00f3rico \u2013 a tens\u00e3o entre a heran\u00e7a africana e a experi\u00eancia no Novo Mundo. A poesia de Pereira habita essa travessia, recusando a fixidez e a unidade em favor da err\u00e2ncia e da hibridez \u2013 conceitos centrais na teoriza\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora por Stuart Hall. Hall (2003) enfatiza que as identidades diasp\u00f3ricas n\u00e3o s\u00e3o fixas, mas representam &#8220;o que n\u00f3s nos tornamos&#8221; e n\u00e3o apenas &#8220;o que n\u00f3s somos&#8221;, sendo uma quest\u00e3o de identidade e diferen\u00e7a. O Brasil, nesse contexto, \u00e9 um laborat\u00f3rio de reconfigura\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, onde as heran\u00e7as africanas n\u00e3o apenas sobreviveram, mas moldaram a linguagem, a religiosidade e a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o. Pereira, ao explorar as ra\u00edzes banto-cat\u00f3licas do Congado em Minas Gerais, oferece uma contribui\u00e7\u00e3o \u00edmpar ao campo, desterritorializando o Atl\u00e2ntico Negro para o interior do pa\u00eds, onde a di\u00e1spora se reconfigura em novas formas de pertencimento e de fala.<\/p>\n<p>Entre as obras de Edimilson de Almeida Pereira, o livro-poema <em>Caderno de Retorno<\/em> (2007) constitui o n\u00facleo mais articulado desse projeto est\u00e9tico-pol\u00edtico. O t\u00edtulo remete diretamente ao <em>Cahier d&#8217;un retour au pays natal<\/em>, de Aim\u00e9 C\u00e9saire, mas inverte a dire\u00e7\u00e3o: o retorno de Edimilson \u00e9 uma busca n\u00e3o por um pa\u00eds natal geogr\u00e1fico, mas pela raiz e err\u00e2ncia da mem\u00f3ria diasp\u00f3rica, um movimento que se op\u00f5e ao destino, \u00e0 unidade ou \u00e0 fixidez. A voz po\u00e9tica atua como um documentarista atento \u00e0 &#8220;c\u00e2mera-escrita&#8221;, utilizando lentes hist\u00f3ricas para questionar imperialismos econ\u00f4micos e culturais. O poema \u00e9, portanto, uma tentativa de revisita\u00e7\u00e3o ativa do vest\u00edgio, no sentido que lhe atribui Christina Sharpe (2023), para quem o <em>vest\u00edgio<\/em> (<em>wake<\/em>) n\u00e3o \u00e9 apenas o rastro deixado pelo navio negreiro, mas a condi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e o legado vivo da viol\u00eancia racial que informa o presente, persistindo nas estruturas contempor\u00e2neas. O poeta filma\/escreve o passado no presente, desvendando as continuidades da opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa revisita\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a imagem central da pele, que se expande de um mero marcador de cor para um complexo arquivo hist\u00f3rico e sensorial, rejeitando as classifica\u00e7\u00f5es simplistas:<\/p>\n<h5>Pele radar que indexa \/ um looping \/ ao atabaque \/ um anjo \/ \u00e0 sua queda \/<br \/>\nIracema \/ \u00e0 sua novela \/ alvo que incinera um atirador \/ no teto.<br \/>\n(Pereira 2017: 7)<\/h5>\n<p>Neste primeiro excerto, a pele n\u00e3o \u00e9 apenas a superf\u00edcie, mas um radar, um dispositivo de capta\u00e7\u00e3o e indexa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, operando em um <em>looping<\/em> temporal que liga o atabaque ancestral (\u00c1frica) \u00e0 queda do anjo (a instaura\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica colonial) e \u00e0 <em>novela<\/em> de Iracema (o mito fundador do Brasil, a viol\u00eancia fundadora da mesti\u00e7agem que apaga a presen\u00e7a negra). A pele-radar, ao indexar, recusa a no\u00e7\u00e3o de que o corpo negro \u00e9 apenas um alvo, revertendo a mira ao ponto de incinerar &#8220;o atirador \/ no teto&#8221; \u2013 uma imagem poderosa de vigil\u00e2ncia e opress\u00e3o colonial, em conson\u00e2ncia com a an\u00e1lise de Charles W. Mills (2018) sobre como o Contrato Racial estabelece um estado de domina\u00e7\u00e3o e de privil\u00e9gio epist\u00eamico para o branco, que \u00e9 aqui poeticamente desmantelado. Ao transformar a pele em mapa e radar, Pereira reivindica uma ag\u00eancia corp\u00f3rea e epistemol\u00f3gica, fazendo do corpo diasp\u00f3rico um agente ativo da mem\u00f3ria e do confronto.<\/p>\n<p>O tema da pele como mutabilidade e dispers\u00e3o \u00e9 aprofundado, rejeitando a fixidez das categorias coloniais e a essencializa\u00e7\u00e3o da identidade, dialogando diretamente com a crise da identidade na p\u00f3s-modernidade (Hall 2006):<\/p>\n<h5>Pele n\u00e3o \u00e9 o c\u00e1rcere nem \/ o texto \/ o papel \/ a ret\u00edcula \/ para roteiro em zoom \/<br \/>\nqui\u00e7\u00e1 um mapa que muda enquanto viaja \/ e se fixa quando \/ escorregadia \/ nos tece.<br \/>\n(Pereira 2017: 21)<\/h5>\n<p>Nesse trecho, a \u201cpele-mapa\u201d nega ser um <em>c\u00e1rcere<\/em> ou um <em>texto<\/em> (uma inscri\u00e7\u00e3o determinista), mas se afirma como um mapa que muda enquanto viaja. Isso ecoa diretamente a cr\u00edtica de Hall (2003) \u00e0 identidade essencialista: a identidade diasp\u00f3rica \u00e9 fluida, escorregadia, e \u00e9 justamente essa natureza que &#8220;nos tece&#8221;, ou seja, que constr\u00f3i a nova subjetividade na diferen\u00e7a e na incompletude. O <em>roteiro em zoom<\/em> \u00e9 a vis\u00e3o colonial e euroc\u00eantrica que tenta fixar e aprisionar o corpo\/texto do outro atrav\u00e9s de categorias raciais e est\u00e9ticas r\u00edgidas. O poeta rejeita essa lente, optando pela mobilidade da dispers\u00e3o e pela ag\u00eancia da auto-defini\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando a ideia de que a identidade \u00e9 um trabalho em progresso (Hall 2006).<\/p>\n<p>A busca pela ancestralidade no <em>Caderno de Retorno<\/em> \u00e9 dolorosa, complexa e carregada da perda constitutiva da di\u00e1spora, tal como articulada por Saidiya Hartman (2021) em sua jornada pela rota atl\u00e2ntica da escravid\u00e3o. O retorno de Pereira lida com o trauma da aus\u00eancia e da invisibiliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O que o eu-l\u00edrico busca, portanto, n\u00e3o \u00e9 o gado, o valor de troca do corpo escravizado, mas a ancestralidade em seu aspecto mais resistente e din\u00e2mico, uma mem\u00f3ria que fertiliza o presente:<\/p>\n<h5>Estou de volta a casa n\u00e3o para visitar \/ os carneiros da minha gente \/<br \/>\numa vez mortos \/ expostos. \/ O que espero deles n\u00e3o \u00e9 carne \/ mas raiz e err\u00e2ncia. \/<br \/>\nA experi\u00eancia acumulada sendo \/ o \u00faltimo da classe \/ o \u00fanico entre os outros \/<br \/>\no suspeito n\u00famero um \/ a prova no fundo do po\u00e7o \/ apodreceu para adubar minha vontade.<br \/>\n(Pereira 2017: 27)<\/h5>\n<p>A po\u00e9tica do retorno em Pereira \u00e9, essencialmente, uma po\u00e9tica da supera\u00e7\u00e3o do trauma atrav\u00e9s da assun\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e da dor hist\u00f3rica. O que ele procura n\u00e3o \u00e9 a carne (o vest\u00edgio material da morte, o corpo exposto da viol\u00eancia do sistema escravocrata), mas a raiz e err\u00e2ncia (a base ancestral <em>e<\/em> o movimento constitutivo da di\u00e1spora, a nega\u00e7\u00e3o do destino). A dor da marginaliza\u00e7\u00e3o (&#8220;o \u00faltimo da classe&#8221;, &#8220;o suspeito n\u00famero um&#8221;), que reflete a posi\u00e7\u00e3o social historicamente imposta pelo Contrato Racial (Mills, 2018), \u00e9 ressignificada: o apodrecimento da &#8220;prova no fundo do po\u00e7o&#8221; \u2013 o trauma e a exclus\u00e3o \u2013 serve para adubar a vontade de lutar e de escrever. A di\u00e1spora se torna, assim, um campo de for\u00e7a e de fertilidade, uma rearticula\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria a partir do ponto mais baixo da opress\u00e3o, transformando a dor em pot\u00eancia criativa e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A recusa do discurso colonial, que perpetua a subalternidade no mundo p\u00f3s-colonial, manifesta-se na desconstru\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos da opress\u00e3o patriarcal e escravocrata:<\/p>\n<h5>Sua sombra que a fraca luz projeta recusa \/ a rede da casa-grande \/ o t\u00edtulo a prazo do bar\u00e3o em d\u00e9bito \/ a cadeira del-rey \/ a merda da casa-grande \/ a disserta\u00e7\u00e3o elogiosa da selva \/ o piano \/ a culpa de n\u00e3o amar o deus imposto. (Pereira 2017: 41)<\/h5>\n<p>O poeta utiliza uma linguagem direta e visceral para rejeitar a totalidade do projeto colonial e suas ramifica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. Os artefatos de luxo e poder (&#8220;rede da casa-grande&#8221;, &#8220;cadeira del-rey&#8221;, &#8220;o piano&#8221;) s\u00e3o equiparados \u00e0 &#8220;merda da casa-grande,&#8221; demonstrando o desvalor moral e \u00e9tico da estrutura que os produziu e o desprezo pela idealiza\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica da escravid\u00e3o. A nega\u00e7\u00e3o se estende ao plano epist\u00eamico (&#8220;a disserta\u00e7\u00e3o elogiosa da selva&#8221;, referenciando as narrativas brancas, muitas vezes estrangeiras, sobre a natureza e o povo brasileiro, como as de Spix, Martius &amp; Company, citadas mais adiante) e religioso (&#8220;a culpa de n\u00e3o amar o deus imposto&#8221;), estabelecendo uma ruptura radical com o Contrato Racial (Mills, 2018) que sustentou a hierarquia social brasileira. Essa \u00e9 uma po\u00e9tica da insubmiss\u00e3o que cumpre a fun\u00e7\u00e3o de evidenciar e articular os tr\u00e2nsitos da negritude brasileira contra as fronteiras nacionais e est\u00e9ticas impostas pela matriz colonial, desvendando as &#8220;heran\u00e7as de embargos&#8221; que o dia a dia ainda reabre.<\/p>\n<p>A luta contra a mem\u00f3ria oficial e o apagamento se expressa na metapoesia, que invoca o poder da palavra e da performance diasp\u00f3rica como contranarrativa, uma verdadeira blitz na mem\u00f3ria:<\/p>\n<h5>Contra a blitz na mem\u00f3ria \/ a Mem\u00f3ria. \/ Contra o desprezo ao que dan\u00e7amos \/ a Dan\u00e7a. \/ Contra o rep\u00fadio ao que falamos \/ a Fala. (Pereira 2017: 52)<\/h5>\n<p>Nesse trecho, a poesia de Edimilson de Almeida Pereira se alinha explicitamente com o esfor\u00e7o de reescrita hist\u00f3rica. A Mem\u00f3ria (com &#8220;M&#8221; mai\u00fasculo) \u00e9 ativada como contraponto \u00e0 <em>blitz<\/em> (guerra, ataque r\u00e1pido) do esquecimento ou da distor\u00e7\u00e3o promovida pelo discurso hegem\u00f4nico. A Dan\u00e7a e a Fala s\u00e3o elevadas a instrumentos de resist\u00eancia cultural, remetendo diretamente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es etnogr\u00e1ficas do Congado e do Candombl\u00e9 que o poeta estudou. Dan\u00e7ar e falar, nesse contexto, n\u00e3o s\u00e3o meros entretenimentos, mas atos pol\u00edticos de afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia e da cosmogonia africana, rejeitando o desprezo colonial que desqualificou essas formas de express\u00e3o como &#8220;folclore&#8221; ou &#8220;primitivismo&#8221;. A di\u00e1spora se torna a fonte de uma arte que \u00e9, ao mesmo tempo, pol\u00edtica e ontol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A for\u00e7a m\u00e1xima dessa articula\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito e transgress\u00e3o reside na figura de Exu, o Orix\u00e1 que, na cosmogonia iorub\u00e1, \u00e9 o senhor da comunica\u00e7\u00e3o, do movimento, das encruzilhadas e, poeticamente, da pr\u00f3pria Di\u00e1spora. Exu \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da fluidez e da recusa \u00e0 fixidez que o projeto <em>Di\u00e1sporas em Portugu\u00eas<\/em> busca privilegiar. Ele \u00e9 o mediador essencial que desmantela o binarismo entre destino e origem, entre o sagrado e o profano, entre a \u00c1frica e o Brasil.<\/p>\n<h5>Morremos pela boca, exceto Exu, \/ guia de Tir\u00e9sias \/ que desacata Greg\u00f3rio de Matos \/ Macuna\u00edma e Fran\u00e7ois Villon. \/ Exu calib\u00e3 \/ luva insuspeita de Shakespeare \/ ca\u00e7ador que tem em si a ca\u00e7a \/ e se irrita \/ preso a uma dezena de nomes. (Pereira 2017: 97)<\/h5>\n<p>Nesse trecho, Exu \u00e9 a figura que transgride e que desacata tanto o c\u00e2none branco brasileiro (Greg\u00f3rio de Matos) quanto as figuras folcl\u00f3ricas europeias (Fran\u00e7ois Villon) ou mesmo a modernidade amb\u00edgua (Macuna\u00edma). Ao ser nomeado Exu calib\u00e3, o Orix\u00e1 se associa ao personagem de <em>A Tempestade<\/em> (Shakespeare) que, segundo a cr\u00edtica p\u00f3s-colonial, \u00e9 a alegoria do nativo escravizado e rebelde. Exu, como Calib\u00e3, utiliza a linguagem do colonizador para amaldi\u00e7o\u00e1-lo e para refazer o mundo. Essa articula\u00e7\u00e3o intertextual demonstra a tessitura global do Atl\u00e2ntico Negro (Gilroy, 2001), onde as refer\u00eancias circulam e se contaminam, criando novas s\u00ednteses. Exu \u00e9 a pr\u00f3pria met\u00e1fora da di\u00e1spora: o tr\u00e2nsito entre culturas (\u00c1frica-Europa-Am\u00e9ricas, o guia de Tir\u00e9sias) \u00e9 mediado por uma for\u00e7a que \u00e9, paradoxalmente, ca\u00e7ador e ca\u00e7a, resist\u00eancia e movimento. A irrita\u00e7\u00e3o por estar &#8220;preso a uma dezena de nomes&#8221; \u00e9 a luta contra a simplifica\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, a nega\u00e7\u00e3o do essencialismo que Stuart Hall tanto combatia: a identidade diasp\u00f3rica \u00e9 m\u00faltipla, \u00e9 devir, \u00e9 o <em>n\u00e3o-fixo<\/em> que desafia qualquer tentativa de captura e aprisionamento. Exu \u00e9 o ponto de ebuli\u00e7\u00e3o da lava, a for\u00e7a de dentro, a heran\u00e7a da insubmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra de Edimilson de Almeida Pereira, e o <em>Caderno de Retorno<\/em> em particular, \u00e9 um poderoso testemunho da capacidade da literatura em l\u00edngua portuguesa de enfrentar o legado do colonialismo atrav\u00e9s de uma est\u00e9tica da err\u00e2ncia e da diversidade. O autor utiliza a experi\u00eancia do vest\u00edgio afro-brasileiro para cartografar um novo Atl\u00e2ntico Negro, onde a pele \u00e9 um mapa vivo, o retorno \u00e9 um ato de aduba\u00e7\u00e3o da vontade, e o Orix\u00e1 Exu \u00e9 o intelectual org\u00e2nico que garante a fluidez e a perman\u00eancia da fala diasp\u00f3rica no cora\u00e7\u00e3o da modernidade. Ao rejeitar a ideia de destino ou unidade em favor da origem, diversidade e dispers\u00e3o, Edimilson de Almeida Pereira insere-se como um dos maiores poetas-ensa\u00edstas da di\u00e1spora em portugu\u00eas no s\u00e9culo XXI, cuja voz po\u00e9tica nos ensina a cerzir um pa\u00eds com linhas v\u00e1rias, mesmo que elas n\u00e3o se amem, mas, por n\u00e3o se amarem, inevitavelmente, se enovelam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Cita\u00e7\u00f5es<\/h5>\n<p>a l\u00e2mina da poesia que reformula o universo\u201d, uma escrita que opera \u201cum retorno ao mais arcaico das coisas. (Pereira 1991: 13)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nPele radar que indexa \/ um looping \/ ao atabaque \/ um anjo \/ \u00e0 sua queda \/ Iracema \/ \u00e0 sua novela \/ alvo que incinera um atirador \/ no teto (Pereira 2017: 7)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nPele n\u00e3o \u00e9 o c\u00e1rcere nem \/ o texto \/ o papel \/ a ret\u00edcula \/ para roteiro em zoom \/ qui\u00e7\u00e1 um mapa que muda enquanto viaja \/ e se fixa quando \/ escorregadia \/ nos tece. (Pereira 2017: 21)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nEstou de volta a casa n\u00e3o para visitar \/ os carneiros da minha gente \/ uma vez mortos \/ expostos. \/ O que espero deles n\u00e3o \u00e9 carne \/ mas raiz e err\u00e2ncia. \/ A experi\u00eancia acumulada sendo \/ o \u00faltimo da classe \/ o \u00fanico entre os outros \/ o suspeito n\u00famero um \/ a prova no fundo do po\u00e7o \/ apodreceu para adubar minha vontade. (Pereira 2017: 27)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nSua sombra que a fraca luz projeta recusa \/ a rede da casa-grande \/ o t\u00edtulo a prazo do bar\u00e3o em d\u00e9bito \/ a cadeira del-rey \/ a merda da casa-grande \/ a disserta\u00e7\u00e3o elogiosa da selva \/ o piano \/ a culpa de n\u00e3o amar o deus imposto. (Pereira 2017: 41)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nContra a blitz na mem\u00f3ria \/ a Mem\u00f3ria. \/ Contra o desprezo ao que dan\u00e7amos \/ a Dan\u00e7a. \/ Contra o rep\u00fadio ao que falamos \/ a Fala. (Pereira 2017:52)<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nMorremos pela boca, exceto Exu, \/ guia de Tir\u00e9sias \/ que desacata Greg\u00f3rio de Matos \/ Macuna\u00edma e Fran\u00e7ois Villon. \/ Exu calib\u00e3 \/ luva insuspeita de Shakespeare \/ ca\u00e7ador que tem em si a ca\u00e7a \/ e se irrita \/ preso a uma dezena de nomes. (Pereira 2017: 97)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h5>\n<p>Pereira, E. de A. (1985), <em>Dormundo<\/em>. Juiz de Fora, MG, Edi\u00e7\u00f5es d\u2019Lira.<\/p>\n<p>&#8212; (1991), <em>Corpo vivido: reuni\u00e3o po\u00e9tica<\/em>. Belo Horizonte, Mazza Edi\u00e7\u00f5es; Juiz de Fora, D\u2019Lira.<\/p>\n<p>&#8212; (2002), <em>Zeos\u00f3rio blues: obra po\u00e9tica I<\/em>. Belo Horizonte, Mazza Edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0(2017), <em>Caderno de retorno<\/em> (2\u00aa ed.). Salvador, Ogum\u2019s Toques Editora.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0(2020), <em>Front<\/em>. S\u00e3o Paulo, N\u00f3s Editora.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0(2020), <em>O ausente<\/em>. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio Edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pereira, E. de A., &amp; Magalh\u00e3es Gomes, N. P. de. (1997), <em>Os tambores est\u00e3o frios: estudo sobre a tradi\u00e7\u00e3o banto no ritual de Candombl\u00e9 em Minas Gerais<\/em>. Belo Horizonte, Mazza Edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; (2002), <em>A saliva da fala: notas sobre a po\u00e9tica banto-cat\u00f3lica do Congado<\/em>. Belo Horizonte, Mazza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h5>\n<p>Gilroy, P. (2001), <em>O Atl\u00e2ntico negro: modernidade e dupla consci\u00eancia<\/em> (C. K. Moreira, Trad.). S\u00e3o Paulo, Editora 34; Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Hall, S. (2003), <em>Da di\u00e1spora: identidades e media\u00e7\u00f5es culturais<\/em>. Belo Horizonte, Editora UFMG.<\/p>\n<p>Hartman, S. (2021), <em>Perder a m\u00e3e: uma jornada pela rota atl\u00e2ntica da escravid\u00e3o<\/em> (J. L. P. da Costa, Trad.). Rio de Janeiro, Bazar do Tempo.<\/p>\n<p>Nejar, C. (1991), Apresenta\u00e7\u00e3o. In E. de A. Pereira, <em>Corpo vivido: reuni\u00e3o po\u00e9tica<\/em>. Juiz de Fora, MG, Edi\u00e7\u00f5es D\u2019Lira.<\/p>\n<p>Mills, C. W. (2023), <em>O contrato racial<\/em>. S\u00e3o Paulo, Todavia.<\/p>\n<p>Sharpe, C. (2023), <em>No vest\u00edgio: negridade e exist\u00eancia<\/em> (J. Oliveira, Trad.). S\u00e3o Paulo, Ubu Editora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O percurso do escritor mineiro Edimilson de Almeida Pereira inscreve-se de modo singular e multifacetado na intersec\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a pesquisa acad\u00eamica, constituindo uma obra que se apresenta como um vasto projeto de investiga\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e etnogr\u00e1fica da di\u00e1spora africana no Brasil e no mundo lus\u00f3fono. Poeta, ficcionista, ensa\u00edsta e Professor Titular&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/edimilson-de-almeida-pereira\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1099,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1098"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1099"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1088,"date":"2025-11-03T22:07:34","date_gmt":"2025-11-03T22:07:34","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1088"},"modified":"2025-11-03T22:07:34","modified_gmt":"2025-11-03T22:07:34","slug":"nina-rizzi","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/nina-rizzi\/","title":{"rendered":"Nina Rizzi"},"content":{"rendered":"<p>Nina Rizzi, nascida em Campinas em 1983, \u00e9 historiadora, poeta, tradutora e editora. Sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica e liter\u00e1ria desenha uma conflu\u00eancia singular entre o rigor da pesquisa hist\u00f3rica e a sensibilidade da cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Formada em Hist\u00f3ria pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), desenvolveu pesquisas junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobretudo nas \u00e1reas de hist\u00f3ria, cultura e educa\u00e7\u00e3o, espa\u00e7os em que j\u00e1 se manifestava seu interesse pela articula\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria, linguagem e experi\u00eancia coletiva. Atualmente, reside em Fortaleza, onde atua como editora da revista <em>Ellenismos<\/em> e mant\u00e9m um blog pessoal que disponibiliza parte de sua produ\u00e7\u00e3o, reflex\u00f5es e experimenta\u00e7\u00f5es textuais. Essa presen\u00e7a em m\u00faltiplas frentes \u2013 acad\u00eamica, liter\u00e1ria e editorial \u2013 evidencia uma autora cuja escrita se articula com engajamento pol\u00edtico e sensibilidade est\u00e9tica, ocupando um espa\u00e7o de relev\u00e2ncia crescente na literatura brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>A estreia de Rizzi em livro ocorreu em 2012, com <em>Tambores pra n\u2019zinga<\/em>, obra que j\u00e1 anunciava sua vincula\u00e7\u00e3o \u00e0 ancestralidade da mulher africana, resgatando a figura de Nzinga, rainha angolana que resistiu \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa. O t\u00edtulo sugere n\u00e3o apenas uma evoca\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m a tentativa de reinscrever a mem\u00f3ria da resist\u00eancia africana no presente da poesia brasileira. A partir da\u00ed, a poeta construiu uma trajet\u00f3ria consistente, marcada por diversidade tem\u00e1tica e formal: <em>Caderno-goiabada<\/em> (2013), um experimento em prosa-ensa\u00edstica; a tradu\u00e7\u00e3o de Susana Th\u00e9non: <em>Habitante do Nada<\/em> (2013); <em>A dura\u00e7\u00e3o do deserto<\/em> (2014); <em>Rom\u00e9rio R\u00f4mulo: \u00a1Ah, si yo fuera Maradona!<\/em> (2014); <em>Geografia dos ossos<\/em> (2014, publicado em Portugal); <em>Quando vieres ver um banzo cor de fogo<\/em> (2017); <em>Sereia no copo d\u2019\u00e1gua<\/em> (2017); e, mais recentemente, <em>Di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<\/em>, obra que condensa sua maturidade po\u00e9tica e insere com contund\u00eancia as quest\u00f5es do racismo, da mem\u00f3ria, do pertencimento e da resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Sua poesia recusa o deslumbramento formal em favor de uma escrita que combina contund\u00eancia e ternura. Seus versos se dirigem \u00e0s pessoas comuns, aos dramas cotidianos de sujeitos subalternizados, aos fragmentos de mem\u00f3ria que insistem em ser ditos. Ao mesmo tempo, sua linguagem n\u00e3o abdica da experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, que se manifesta no tr\u00e2nsito entre registros, na ado\u00e7\u00e3o do <em>pretugu\u00eas<\/em> (Gonzalez 1984)<sup>1<\/sup> como centro criativo e na constante reinven\u00e7\u00e3o da l\u00edngua. A escrita de Nina Rizzi \u00e9, nesse sentido, tanto pol\u00edtica quanto est\u00e9tica, inscrita na tradi\u00e7\u00e3o de poetas que transformaram a palavra em espa\u00e7o de den\u00fancia, resist\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para compreender a relev\u00e2ncia de sua obra, \u00e9 fundamental aproxim\u00e1-la do conceito de di\u00e1spora tal como elaborado por Stuart Hall. Em seu ensaio \u201cPensando a di\u00e1spora: reflex\u00f5es sobre a terra no exterior (Hall 2003)\u201d, Hall recusa a vis\u00e3o essencialista de identidade como retorno a uma origem pura e imut\u00e1vel. A di\u00e1spora, segundo ele, \u00e9 sempre marcada pela dispers\u00e3o, pela diferen\u00e7a, pelo hibridismo. Em vez de unidade, a di\u00e1spora produz identidades m\u00faltiplas, fragmentadas, constitu\u00eddas na tens\u00e3o entre mem\u00f3ria e presente. Como afirma Hall, a identidade cultural n\u00e3o \u00e9 um n\u00facleo fixo, mas um processo de constante transforma\u00e7\u00e3o, inscrito nas rela\u00e7\u00f5es de poder e na hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o, da escravid\u00e3o e da modernidade global.<\/p>\n<p>Essa perspectiva ilumina de modo decisivo a leitura da poesia de Rizzi. Ao intitular um de seus livros <em>Di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<\/em>, a poeta reconhece a impossibilidade de fixar-se numa origem redentora. A di\u00e1spora, em sua obra, n\u00e3o \u00e9 caminho de retorno, mas condi\u00e7\u00e3o de desterro e, simultaneamente, de cria\u00e7\u00e3o. Como diz um de seus poemas:<\/p>\n<h5>di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<br \/>\nn\u00e3o sou neta das bruxas que n\u00e3o foram queimadas<br \/>\nminha av\u00f3 branca adotou minha m\u00e3e preta<br \/>\nminha av\u00f3 branca espancava minha m\u00e3e preta<br \/>\n(Rizzi 2025: 84)<\/h5>\n<p>A mem\u00f3ria aqui n\u00e3o \u00e9 celebrat\u00f3ria: ela exp\u00f5e as viol\u00eancias coloniais e patriarcais que estruturaram a vida de gera\u00e7\u00f5es. A av\u00f3 branca que adota e espanca a m\u00e3e preta evidencia o atravessamento do racismo nas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas, familiares, dom\u00e9sticas. No entanto, ao inscrever essa mem\u00f3ria no poema, Rizzi transforma o trauma em palavra, fazendo do sil\u00eancio hist\u00f3rico uma voz.<\/p>\n<p>A di\u00e1spora, como ressalta Stuart Hall, n\u00e3o pode ser compreendida em termos de \u201corigem\u201d e \u201cc\u00f3pia\u201d, \u201cfonte\u201d e \u201creflexo p\u00e1lido\u201d. Trata-se, antes, de um campo de m\u00faltiplas tradu\u00e7\u00f5es e recria\u00e7\u00f5es. \u00c9 nesse sentido que a po\u00e9tica de Rizzi se inscreve: n\u00e3o como recupera\u00e7\u00e3o de uma \u00c1frica perdida, mas como inven\u00e7\u00e3o de uma \u00c1frica presente, reapropriada e ressignificada na experi\u00eancia brasileira. N\u00e3o se trata de uma \u00c1frica geogr\u00e1fica, n\u00e3o se trata de Angola, Nig\u00e9ria, Congo etc., mas de uma imagem, uma ideia po\u00e9tica de \u00c1frica, um lugar simb\u00f3lico, conectado com a experi\u00eancia diasp\u00f3rica africana, com a escravatura, a travessia atl\u00e2ntica etc. Essa \u00c1frica se manifesta no ritmo, no corpo, na dan\u00e7a, nos orix\u00e1s, na sonoridade do <em>pretugu\u00eas<\/em>. O poema \u201c\u00cah l\u00e1 em casa \u00eah\u201d \u00e9 exemplo eloquente dessa reinven\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<h5>amalocar\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0aquilombar<br \/>\naquilombar amalocar<br \/>\n\u00eah-hhhhh casa-\u00eah<br \/>\n(Rizzi 2025: 102)<\/h5>\n<p>Aqui, a di\u00e1spora se converte em gesto de reconstru\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o h\u00e1 lar, inventa-se o quilombo; se n\u00e3o h\u00e1 pertencimento, produz-se comunidade. A repeti\u00e7\u00e3o r\u00edtmica dos versos evoca a oralidade africana, o canto coletivo, o batuque dos terreiros. O poema n\u00e3o descreve o quilombo como lugar fixo, mas como a\u00e7\u00e3o: <em>aquilombar<\/em> \u00e9 verbo, \u00e9 pr\u00e1tica, \u00e9 resist\u00eancia em movimento. A mesma for\u00e7a se percebe em \u201cCan\u00e7\u00e3o, em lugar de tradu\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cse estou sozinha \/ a solid\u00e3o \u00e9 mulher, \u00e9 preta, e \u00e9 t\u00e3o bonita e \u00e9 al\u00e9m\u201d (Rizzi 2025: 82).<\/p>\n<p>A solid\u00e3o, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 apenas desamparo, mas condi\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica. \u00c9 o lugar da mulher negra na di\u00e1spora: isolada, violentada, mas tamb\u00e9m capaz de transformar sua experi\u00eancia em beleza, em canto, em resist\u00eancia. Ao afirmar que a solid\u00e3o \u00e9 \u201cpreta e t\u00e3o bonita\u201d, Rizzi inscreve uma contranarrativa ao discurso racista que associa a negritude \u00e0 falta e \u00e0 negatividade. A solid\u00e3o diasp\u00f3rica \u00e9, aqui, fonte de pot\u00eancia criativa.<\/p>\n<p>Stuart Hall destaca que a di\u00e1spora deve ser pensada n\u00e3o como retorno a uma origem intocada, mas como processo de tradu\u00e7\u00e3o e hibridismo. A l\u00edngua, nesse processo, \u00e9 central. Rizzi faz da l\u00edngua portuguesa um campo de disputa, tensionando-a com palavras de origem africana, com neologismos, com o ritmo do hip-hop e da oralidade popular. O <em>pretugu\u00eas<\/em> \u00e9, em sua po\u00e9tica, a materializa\u00e7\u00e3o dessa est\u00e9tica diasp\u00f3rica: a l\u00edngua do opressor apropriada, reinventada, carnavalizada. Esse gesto \u00e9 vis\u00edvel tamb\u00e9m em \u201cFalo de um outro futuro\u201d:<\/p>\n<h5>a perten\u00e7a \u00e9 um bei\u00e7o<br \/>\no futuro n\u00e3o demora e tava l\u00e1 dentro sereno<br \/>\npra fud\u00ea<br \/>\n(Rizzi 2025: 109)<\/h5>\n<p>Aqui, o futuro n\u00e3o \u00e9 destino, mas inven\u00e7\u00e3o. A perten\u00e7a n\u00e3o \u00e9 ess\u00eancia, mas fragmento, precariedade, improviso. O poema sintetiza o que Hall chama de identidade em processo: n\u00e3o algo dado, mas algo a ser constantemente produzido, negociado, reinventado.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo entre Nina Rizzi e Stuart Hall tamb\u00e9m se evidencia na centralidade da mem\u00f3ria coletiva. Hall sublinha que as identidades caribenhas n\u00e3o podem ser compreendidas sem a marca das rupturas mais violentas: escravid\u00e3o, coloniza\u00e7\u00e3o, genoc\u00eddio. Rizzi inscreve essas rupturas em seus poemas, como quando pergunta: \u201cafogaram minha casa e minha gente no Atl\u00e2ntico?\u201d (Rizzi 2025: 84). A lembran\u00e7a do navio negreiro \u00e9 evocada como fantasma persistente, heran\u00e7a que molda o presente. Mas, como lembra Hall, a di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 apenas perda: \u201c\u00e9 tamb\u00e9m cria\u00e7\u00e3o, possibilidade de novas linguagens, novas comunidades, novas modernidades.\u201d (Hall 2003: 38)<\/p>\n<p>Em <em>Di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<\/em>, o trauma da escravid\u00e3o e do racismo n\u00e3o \u00e9 obliterado, mas reinscrito como fonte de inven\u00e7\u00e3o. A poeta recusa tanto o mito da pureza original quanto a ilus\u00e3o de pertencimento nacional pleno. Sua obra reconhece a di\u00e1spora como condi\u00e7\u00e3o moderna: viver no entre-lugar, criar formas de vida nas frestas, inventar futuros no presente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, sua poesia dialoga com outras vozes da di\u00e1spora. Rizzi convoca Nina Simone e Elza Soares, celebra artistas visuais como Manuela Navas e Edson Ik\u00ea, inscreve a sonoridade do hip-hop, o batuque dos terreiros, os saberes das mais velhas. Essa rede de refer\u00eancias evidencia o car\u00e1ter transatl\u00e2ntico de sua po\u00e9tica, em sintonia com o que Paul Gilroy chamou de <em>Atl\u00e2ntico Negro<\/em> (Gilroy 2012: 430): um conjunto cultural irredutivelmente moderno, exc\u00eantrico, inst\u00e1vel e assim\u00e9trico, que escapa \u00e0 l\u00f3gica estreita das simplifica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas.<\/p>\n<p>A poesia de Rizzi ultrapassa as fronteiras nacionais e recusa os limites de uma identidade estritamente brasileira. Sua escrita se insere em um movimento mais amplo da di\u00e1spora negra, no qual o Brasil se revela como parte de uma constela\u00e7\u00e3o maior, tecida por fluxos, mem\u00f3rias e vozes que atravessam o Atl\u00e2ntico e reconfiguram, incessantemente, os sentidos de pertencimento e de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De um lado, sua poesia denuncia as perman\u00eancias do racismo estrutural, as viol\u00eancias de g\u00eanero e a marginaliza\u00e7\u00e3o de corpos negros. De outro, sua obra aponta para futuros poss\u00edveis, nos quais o pertencimento n\u00e3o se funda na ess\u00eancia, mas na pr\u00e1tica, na comunidade, na solidariedade. \u00c9 nesse sentido que sua poesia \u00e9 pol\u00edtica: n\u00e3o apenas porque denuncia, mas porque cria.<\/p>\n<p>Nina Rizzi inscreve a di\u00e1spora como movimento de resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o. Sua obra nos lembra que n\u00e3o h\u00e1 retorno a uma origem pura, mas h\u00e1 sempre a possibilidade de reinventar linguagens, criar lares provis\u00f3rios e inventar comunidades. A di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar, mas pode ser can\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a, poema, quilombo. \u00c9 nesse espa\u00e7o que a poesia de Rizzi se instala, convidando-nos a repensar nossas pr\u00f3prias formas de pertencimento.<\/p>\n<p>Rizzi \u00e9 uma poeta que, com contund\u00eancia e delicadeza, articula est\u00e9tica e pol\u00edtica, mem\u00f3ria e inven\u00e7\u00e3o, dor e resist\u00eancia. Sua obra ecoa as vozes da di\u00e1spora negra no Atl\u00e2ntico, inscrevendo-se numa tradi\u00e7\u00e3o que vai de Nzinga a Elza Soares, de Fanon a Stuart Hall, mas que tamb\u00e9m \u00e9 profundamente singular, marcada pela experi\u00eancia cotidiana do Brasil perif\u00e9rico e pela reinven\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da l\u00edngua.<\/p>\n<p>A literatura de Nina Rizzi nos ensina que, diante da aus\u00eancia de lar, cabe invent\u00e1-lo; diante da solid\u00e3o, cabe cant\u00e1-la; diante do racismo, cabe resistir. A di\u00e1spora, em sua poesia, n\u00e3o \u00e9 destino, mas travessia. E, nessa travessia, encontramos a possibilidade de reinventar n\u00e3o apenas a linguagem, mas tamb\u00e9m a vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Cita\u00e7\u00f5es<\/h5>\n<p>di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<br \/>\nn\u00e3o sou neta das bruxas que n\u00e3o foram queimadas<br \/>\nminha av\u00f3 branca adotou minha m\u00e3e preta<br \/>\nminha av\u00f3 branca espancava minha m\u00e3e preta.<br \/>\n(<em>Di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<\/em>: 84)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>amalocar\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0aquilombar<br \/>\naquilombar amalocar<br \/>\n\u00eah-hhhhh casa-\u00eah.<br \/>\n(<em>idem<\/em>: 102)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>se estou sozinha\u00a0 a solid\u00e3o \u00e9 mulher, \u00e9 preta, e \u00e9<br \/>\nt\u00e3o bonita e \u00e9 al\u00e9m.<br \/>\n(<em>idem<\/em>: 82)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>a perten\u00e7a \u00e9 um bei\u00e7o<br \/>\no futuro n\u00e3o demora e tava l\u00e1 dentro<br \/>\nsereno pra fud\u00ea.<br \/>\n(<em>idem<\/em>: 109)<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<h6><sup>1<\/sup> &#8220;Pretugu\u00eas&#8221; \u00e9 um termo cunhado pela intelectual negra L\u00e9lia Gonzalez para descrever a influ\u00eancia das l\u00ednguas africanas no portugu\u00eas falado no Brasil. \u00c9 uma forma de reconhecer a africaniza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa no Brasil e a resist\u00eancia cultural presente na fala cotidiana. L\u00e9lia Gonzalez, com sua atua\u00e7\u00e3o como intelectual e ativista, prop\u00f4s o termo &#8220;pretugu\u00eas&#8221; para expressar a influ\u00eancia das l\u00ednguas africanas no portugu\u00eas falado no Brasil. Essa influ\u00eancia n\u00e3o se limita a algumas palavras, mas tamb\u00e9m abrange a entona\u00e7\u00e3o, o ritmo e a pr\u00f3pria estrutura da fala. Gonzalez argumenta que o &#8220;pretugu\u00eas&#8221; \u00e9 uma forma de resist\u00eancia cultural e que a l\u00edngua falada no Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas uma variante do portugu\u00eas europeu, mas sim um idioma com suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas e origens. O conceito de &#8220;pretugu\u00eas&#8221; \u00e9 um conceito importante para discutir a interseccionalidade no contexto brasileiro, a influ\u00eancia da di\u00e1spora africana na cultura e a import\u00e2ncia da experi\u00eancia negra na constru\u00e7\u00e3o da identidade brasileira. Al\u00e9m disso, o termo \u00e9 utilizado em diversas \u00e1reas, como no campo do direito, para discutir a constru\u00e7\u00e3o de um sistema jur\u00eddico mais inclusivo e sens\u00edvel \u00e0s diversas realidades sociais e culturais. (Gonzalez, L. (1984). <em>Racismo e sexismo na cultura brasileira<\/em>. <em>Revista Ci\u00eancias Sociais Hoje<\/em>, <em>2<\/em>, 223\u2013244).<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h5>\n<p>Rizzi, Nina (2012), <em>tambores pra n&#8217;zing<\/em>a. Rio de Janeiro, Editora Multifoco<\/p>\n<p>\u2014 (2013), <em>caderno-goiabada<\/em>. Fortaleza, Edi\u00e7\u00f5es Ellenismos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00a0(2014), <em>A dura\u00e7\u00e3o do deserto<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora Patu\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 (2015), <em>Rom\u00e9rio R\u00f4mulo<\/em>: \u00a1Ah, si yo fuera Maradona!. Sabar\u00e1, MG, Edi\u00e7\u00f5es Dubolsinho.<\/p>\n<p>\u2014 (2016), <em>Geografia dos ossos<\/em>. Lisboa, Editora Douda Correria.<\/p>\n<p>\u2014 (2017), <em>Quando vieres ver um banzo cor de fogo<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora Patu\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 (2017), <em>Sereia no copo d&#8217;\u00e1gua<\/em>. S\u00e3o Paulo, Edi\u00e7\u00f5es Jabuticaba.<\/p>\n<p>\u2014 (2025), <em>Di\u00e1spora n\u00e3o \u00e9 lar<\/em>. Rio de Janeiro, Pallas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h5>\n<p>Gilroy, Paul (2012), <em>O Atl\u00e2ntico negro: modernidade e dupla consci\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora 34.<\/p>\n<p>Gonzalez, L. (1984), <em>Racismo e sexismo na cultura brasileira<\/em>. <em>Revista Ci\u00eancias Sociais Hoje<\/em>, 2:\u00a0223\u2013244.<\/p>\n<p>Hall, Stuart (2003), <em>Pensando a di\u00e1spora: reflex\u00f5es sobre a terra no exterior<\/em>, <em>in<\/em> Hall, Stuart, <em>Da di\u00e1spora<\/em>: identidades e media\u00e7\u00f5es culturais. Belo Horizonte, Editora UFMG: 26-49<\/p>\n<p>Silva, L. H. O., &amp; Xavier, R. C. L. (2018), <em>Pensando a Di\u00e1spora Atl\u00e2ntica<\/em>. Hist\u00f3ria, 31: 1-11. Consult\u00e1vel em: <a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-4369e2018020\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/1980-4369e2018020<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nina Rizzi, nascida em Campinas em 1983, \u00e9 historiadora, poeta, tradutora e editora. Sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica e liter\u00e1ria desenha uma conflu\u00eancia singular entre o rigor da pesquisa hist\u00f3rica e a sensibilidade da cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Formada em Hist\u00f3ria pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), desenvolveu pesquisas junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobretudo nas&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/nina-rizzi\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1089,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1088"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1088"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1082,"date":"2025-07-03T12:40:32","date_gmt":"2025-07-03T12:40:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1082"},"modified":"2025-07-03T16:22:40","modified_gmt":"2025-07-03T16:22:40","slug":"deolinda-da-conceicao","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/deolinda-da-conceicao\/","title":{"rendered":"Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Nascida em Macau a 7 de Julho de 1913, filha de pai portugu\u00eas e de m\u00e3e macaense, Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o foi uma pioneira relativamente a quest\u00f5es da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, n\u00e3o apenas ideologicamente, mas tamb\u00e9m na pr\u00e1tica, o que se refletiu no modo como guiou a sua vida e garantiu a sobreviv\u00eancia atrav\u00e9s do seu trabalho, tanto no ensino, como no jornalismo e na tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1931, ap\u00f3s o seu casamento com Lu\u00eds Gaspar Alves, fixa resid\u00eancia em Xangai, onde tem dois filhos. Contudo, em 1937, em fase de separa\u00e7\u00e3o do marido, refugia-se com os filhos em Hong Kong, devido \u00e0 invas\u00e3o de Xangai pelos japoneses. A\u00ed, em Hong Kong, chegou a viver num campo de refugiados, dirigiu uma escola e foi tradutora.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o fim da segunda Guerra Mundial regressa a Macau, onde exerce as fun\u00e7\u00f5es de jornalista e professora, tendo em 1948 casado com Ant\u00f3nio Maria da Concei\u00e7\u00e3o, de quem teve mais um filho, Ant\u00f3nio da Concei\u00e7\u00e3o J\u00fanior.<\/p>\n<p>Em 1956, Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o visita Portugal pela primeira vez, onde \u00e9 publicado seu \u00fanico livro, obra Cheong Sam, <em>A Cabaia<\/em>, elogiada por Jo\u00e3o Gaspar Sim\u00f5es, um dos cr\u00edticos mais prestigiados da \u00e9poca. Neste contexto, tal como refere Seabra Pereira <em>Cheong Sam<\/em> constitui um ponto de mudan\u00e7a na literatura macaense, \u201cpois estabelecia um marco de nova \u00e9poca na literatura macaense \u2013 e em mais do que um sentido: n\u00e3o s\u00f3 quanto ao funcionamento institucional da vida liter\u00e1ria (em que uma mulher se assumia como escritora e enquanto autora, n\u00e3o diletante, intervinha no sistema de comunica\u00e7\u00e3o art\u00edstica e nele constitu\u00eda em mensagem est\u00e9tico-liter\u00e1ria\u201d (p. 183).<\/p>\n<p>Com efeito, em <em>A Cabaia<\/em>, ao longo dos vinte e sete contos, \u00e9-nos retratada a sociedade macaense da \u00e9poca, a luta das personagens femininas, muitas delas exiladas, pela emancipa\u00e7\u00e3o. Assim, a obra relata ainda vida das mulheres e homens chineses que sucumbiam ou lutavam contra a opress\u00e3o, a pobreza extrema e as milenares supersti\u00e7\u00f5es. Reflete-se tamb\u00e9m sobre os perigos do materialismo e os in\u00fameros preconceitos que a mulher chinesa sofria. Al\u00e9m disso, transparecem os efeitos da Segunda Guerra Mundial, que a pr\u00f3pria autora experimentou, j\u00e1 que, durante a Guerra Sino-Japonesa (1937-45) foi for\u00e7ada a fugir de Xangai para Hong Kong, tendo experimentado as vicissitudes do ex\u00edlio que tamb\u00e9m transp\u00f5e para diversas personagens.<\/p>\n<p>Um dos contos emblem\u00e1ticos da tentativa de emancipa\u00e7\u00e3o da mulher e as sequelas guerra \u00e9 precisamente o que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra, Cheong Sam. Nele, deparamo-nos no, in\u00edcio com um homem, que sabemos, logo nas primeiras linhas, ter sido condenado ao degredo perp\u00e9tuo. Parece semi-enlouquecido talvez pelo remorso e v\u00ea constantemente a cheong-sam, ou seja, a cabaia, usada pela sua mulher, por ele assassinada. Tal como refere Monica Simas, \u201cA cabaia da mulher morta \u00e9 \u00edcone de um discurso que habilita a mem\u00f3ria do aniquilamento; reflete aaus\u00eancia da voz, calada pela viol\u00eancia, mas ecoando no sonho, habitando a inscri\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a da realidade, interrogando os motivos da sua fatalidade\u201d (p. 32).<\/p>\n<p>A responsabilidade de toda esta desgra\u00e7a \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 guerra, ou seja, a uma causa extr\u00ednseca ao protagonista: \u201cMaldita guerra! Maldita guerra, que tudo lhe levara e fizera dele um criminoso, um assassino, um pai sem cora\u00e7\u00e3o, um homem sem racioc\u00ednio \u201c (Concei\u00e7\u00e3o 2007: 19). Por outras palavras, a guerra foi o elemento alienador e desumanizador, que provocou toda a trag\u00e9dia, cujos contornos come\u00e7aremos a desvendar a seguir, atrav\u00e9s duma analepse. S\u00f3 ent\u00e3o nos \u00e9 revelado o nome do protagonista, A-Chung, e o facto de o seu noivado ter sido realizado por acordo e conveni\u00eancia entre as duas fam\u00edlias. A sua noiva, Chan Nui, insistiu em partir para o \u201cNovo Mundo\u201d para estudar, durante dois anos, antes do casamento, uma vez que:\u201cTinha aprendido a l\u00edngua do Novo Mundo e admirava, pelo cinema, quanto via daquele pa\u00eds que parecia atra\u00ed-la com a sua vida diferente, com os seus usos e costumes e com a agita\u00e7\u00e3o que ela verificava no seu pr\u00f3prio sangue\u201d Concei\u00e7\u00e3o, 2007: 21). Por conseguinte, esta postura revela a coragem, a ambi\u00e7\u00e3o e a determina\u00e7\u00e3o de Chan Nui, que contrasta com o papel submisso que se esperaria da mulher neste contexto social. Ao mesmo tempo, encontra-se impl\u00edcito o impulso de descoberta do \u201coutro\u201d, distinto e diverso, do \u201cnovo mundo\u201d, que neste caso, ser\u00e1 conotado com os Estados Unidos. N\u00e3o deixa de ser curiosa a postura etnoc\u00eantrica de reduzir \u201co novo mundo\u201d a um pa\u00eds ocidental, misterioso e desconhecido.<\/p>\n<p>Seguidamente, \u00e9 referido o regresso de Chan-Nui, amadurecida e completamente diferente do que era antes de vivenciar a experi\u00eancia de contacto com o exterior, uma vez que \u201cA jovem, que partira t\u00edmida e hesitante, regressava uma mulher perfeita, elegante, falando desembara\u00e7adamente e de gestos firmes, segura de si e ciente da sua educa\u00e7\u00e3o esmerada\u201d (Concei\u00e7\u00e3o 2007: 21). Por conseguinte, o marido imediatamente se apercebe de que a sua noiva \u00e9 completamente diferente das mulheres da sua sociedade, visto que \u201cEra decidida, falava-lhe de igual para igual, sem servilismo, independente, tomando resolu\u00e7\u00f5es imediatas sobre a forma de se conduzir, de se manter na sociedade dos estranhos\u201d (Concei\u00e7\u00e3o 2007:21). Por conseguinte, imersa numa realidade distante, numa cultura diferente da de origem, Chan-Nui transformou-se e emancipou-se, assistindo-se durante o desenrolar da narrativa \u00e0 sua luta por manter essa emancipa\u00e7\u00e3o num meio marcadamente \u201ccastrador\u201d relativamente \u00e0 independ\u00eancia e determina\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>Assim, Chan Nui evoluiu em contacto com a cultura estrangeira, regressando como uma mulher independente e emancipada, o que n\u00e3o se enquadra na sociedade patriarcal e conservadora chinesa.<\/p>\n<p>Na verdade, apesar de tudo, Chan-Nui esfor\u00e7a-se por se readaptar \u00e0s regras da sociedade, pelas quais revela o seu respeito e cumprir com toda a seguran\u00e7a e dignidade os rituais que lhe s\u00e3o impostos, pois:<\/p>\n<p>Com efeito, verificamos que, mais tarde, quando a fam\u00edlia sofre as consequ\u00eancias da guerra sino-japonesa, o marido n\u00e3o consegue trabalho e a fome se abate sobre o lar, colocando em perigo a sua sobreviv\u00eancia e a dos filhos. Ent\u00e3o, neste momento de profunda crise e mis\u00e9ria, Chan-Nui incentiva o marido a encontrar um trabalho para sustentar a fam\u00edlia, algo que ele n\u00e3o consegue ter sucesso. Ent\u00e3o, perante a amea\u00e7a de ver os filhos morrerem \u00e0 fome, ela revolta-se, vai trabalhar nos <em>dancings<\/em> da cidade, de modo a conseguir alimentar a fam\u00edlia. No entanto, o marido, para al\u00e9m do profundo ci\u00fame, sente ferido o seu orgulho e a sua dignidade, e, no \u00e2mago sua humilha\u00e7\u00e3o, principia a esbo\u00e7ar um desejo de vingan\u00e7a:\u201d Neste caso, constatamos o conflito psicol\u00f3gico que dilacera a personagem, dividido entre o ci\u00fame, o despeito, o orgulho ferido, a raiva por depender da mulher e a necessidade de sobreviv\u00eancia. Assim, verificamos que a mediocridade e incapacidade do marido, contrastam com o brilho e poder de iniciativa da esposa.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, a rutura e a trag\u00e9dia ser\u00e3o impulsionadas pelo facto de Chan-Nui se deixar deslumbrar pela riqueza, quando um dia parte para acompanhar um cliente estrangeiro rico a outra cidade, sentindo-se seduzida pelo luxo daquela nova vida, que a faz esquecer da passagem do tempo, da fam\u00edlia e das suas obriga\u00e7\u00f5es para com ela, das quais apenas se recorda quando l\u00ea no jornal o pedido feito pelo marido para que regresse, devido \u00e0 doen\u00e7a de um dos filhos. Ao regressar a casa, num acesso de ci\u00fames, A-Chung, o marido assassina-a. Tal como preconiza David Brookshaw, esta \u00e9 uma hist\u00f3ria de um conflito de valores e da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, no seio de uma sociedade tradicional cuja estrutura se tornou insegura devido \u00e0 guerra e \u00e0 necessidade de deslocamento (Brookshaw: 2002: 72) Neste conto, \u00e9 fundamental al\u00e9m da j\u00e1 referida quest\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, as transforma\u00e7\u00f5es provocadas por uma educa\u00e7\u00e3o ocidental, suscet\u00edvel, por vezes de incentivar o gosto por certo tipo de luxos. De salientar, uma predile\u00e7\u00e3o pela personagem feminina, cujo brilho, intelig\u00eancia e independ\u00eancia contrastam com a mediocridade e, de certo modo, incapacidade do marido para ter sucesso na vida, que acaba por revelar os instintos mais prim\u00e1rios e violentos. Neste contexto, como refere Monica Simas, \u201cCheong-sam\u201d \u00e9 a cabaia, que inscreve o espa\u00e7o da representa\u00e7\u00e3o em um questionamento persistente; \u00e9 \u00edndice de transcultura\u00e7\u00e3o; \u00e9 tamb\u00e9m a marca do feminino, assegurando a fronteira do lar e sendo met\u00e1fora do desejo\u201d (p. 30).<\/p>\n<p>Constatamos que, de um modo geral, as personagens femininas assumem o estatuto de protagonistas nos contos de Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o, representando as inquieta\u00e7\u00f5es da autora, que por vezes se projeta nas mais diversas personagens que podem oscilar entre a mulher fatal, submissa ou at\u00e9 emancipada e altru\u00edsta, embora de uma forma geral cumpridora e respeitadora das tradi\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso nota-se uma profunda cren\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o da mulher como alavanca essencial conducente \u00e0 dif\u00edcil emancipa\u00e7\u00e3o. A ideia de ex\u00edlio tamb\u00e9m aflora, quer afetando diretamente algumas personagens femininas, quer indiretamente, atrav\u00e9s da partida dos seres amados.<\/p>\n<p>Em suma, Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de constituir um marco de mudan\u00e7a na literatura, tendo sido a primeira autora a rasgar as fronteiras de Macau e a ser reconhecida em Portugal, empreende uma abordagem pioneira na forma mult\u00edmoda como representa as personagens femininas que oscilam entre uma luta pela emancipa\u00e7\u00e3o (na maioria das vezes silenciada pelas conven\u00e7\u00f5es sociais t\u00e3o em voga nos anos 40-50) e a submiss\u00e3o e obedi\u00eancia \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>Durante dois anos, as cartas e as fotografias de Chan Nui revalvam a transforma\u00e7\u00e3o que se operava nela, mas os velhos n\u00e3o atentavam sen\u00e3o na sua beleza crescente e nas coisas maravilhosas que ela contava desse pa\u00eds distante.<br \/>\nA jovem que partira t\u00edmida e hesitante, regressava uma mulher feita, elegante, falando desembara\u00e7adamente e de gestos firmes (\u2026) ciente da sua educa\u00e7\u00e3o esmerada.<br \/>\nA Chung viu-a e compreendeu que Chan Nui n\u00e3o seria nunca igual \u00e0s mulheres que o rodeavam. Era decidida, fava-lhe de igual para igual, sem servilismo, independente, tomando resolu\u00e7\u00f5es imediatas sobre a forma \u00a0de se conduzir,\u00a0 de se manter na sociedade dos estranhos.<br \/>\nPassados meses, realizou-se o casamento (\u2026).<br \/>\nBela e elegante, era com desembara\u00e7o que realizava aqueles actos impostos \u00e0s noivas na China, tais como de se ajoelharem diante dos sogros, oferecendo-lhes a tradicional x\u00edcara de ch\u00e1, curvarem-se, em rever\u00eancia, perante os membros mais velhos das duas fam\u00edlias, etc. (Concei\u00e7\u00e3o 2007: 21)<\/p>\n<p>Gritou-lhe a sua revolta e o seu desprezo, toda a desilus\u00e3o da sua vida de se ver acorrentada a um ser como ele, desprovido at\u00e9 de sentimentos paternais, e jurou que enfrentaria o destino, a guerra, o inferno e a pr\u00f3pria morte para que os seus filhos n\u00e3o sofressem mais fome. (Concei\u00e7\u00e3o 2007: 24)<\/p>\n<p>E, quando um dia sentiu tenta\u00e7\u00f5es de a abra\u00e7ar, viu surgir diante de si aquela cabaia que tantos conheciam e enla\u00e7avam. Sentiu desejos de a esfarrapar, mas o arroz que ela trazia era indispens\u00e1vel para os filhos. (Concei\u00e7\u00e3o, <em>Cheong Sam, A Cabaia<\/em> 2007: 25)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o, Deolinda da (2007). S<em>am-Cheong<\/em>, <em>A Cabaia<\/em>, 5\u00aaed. Macau, Instituto Internacional de Macau.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Brookshaw, David, \u201cDeolinda da Concei\u00e7\u00e3o, a pioneer\u201d.In <a href=\"http:\/\/luso-brazilianstudies.blogspot.com\/2010\/10\/pioneer-of-womens-writing-in-macau.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/luso-brazilianstudies.blogspot.com\/2010\/10\/pioneer-of-womens-writing-in-macau.html<\/a><\/p>\n<p>Gago, Dora Nunes (2017). &#8220;Figura\u00e7\u00f5es femininas nas obras de Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o, Maria Ondina Braga e Fernanda Dias: os \u00e1rduos caminhos do ex\u00edlio e da emancipa\u00e7\u00e3o&#8221;. <em>Revista de Cultura de Macau, <\/em>6-17.<\/p>\n<p>Pereira, Jos\u00e9 Carlos Seabra (2013), <em>O Delta Liter\u00e1rio de Macau<\/em>, Macau, IPM.<\/p>\n<p>Sena, Teresa (2010), Concei\u00e7\u00e3o, &#8220;Deolinda Salvado da&#8221;. <em>DITEMA, Dicion\u00e1rio Tem\u00e1tico de Macau<\/em>, Volume I, Universidade de Macau, p. 394<\/p>\n<p>Simas, Monica. 2016. &#8220;Podem Os Macaenses Falar? Da Subalterna \u00e0 condi\u00e7\u00e3o Especial&#8221;. <em>Cadernos De Literatura Comparada, <\/em>n. 29 (Julho). <a href=\"https:\/\/ilc-cadernos.com\/index.php\/cadernos\/article\/view\/162\">https:\/\/ilc-cadernos.com\/index.php\/cadernos\/article\/view\/162<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascida em Macau a 7 de Julho de 1913, filha de pai portugu\u00eas e de m\u00e3e macaense, Deolinda da Concei\u00e7\u00e3o foi uma pioneira relativamente a quest\u00f5es da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, n\u00e3o apenas ideologicamente, mas tamb\u00e9m na pr\u00e1tica, o que se refletiu no modo como guiou a sua vida e garantiu a sobreviv\u00eancia atrav\u00e9s do seu trabalho,&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/deolinda-da-conceicao\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1083,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1082"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1082"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1074,"date":"2025-05-26T11:41:32","date_gmt":"2025-05-26T11:41:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1074"},"modified":"2025-05-30T15:41:23","modified_gmt":"2025-05-30T15:41:23","slug":"silviano-santiago","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/silviano-santiago\/","title":{"rendered":"Silviano Santiago"},"content":{"rendered":"<p>Reconhecido como um dos pensadores e escritores brasileiros mais importantes dos \u00faltimos cinquenta anos, Silviano Santiago \u00e9 um cr\u00edtico astuto e um romancista e contista inovador. Quando Santiago venceu o Pr\u00eamio Cam\u00f5es em 2022 pelo conjunto de sua obra, o j\u00fari elogiou-o por ter recebido v\u00e1rios pr\u00eamios nacionais e internacionais, inclusive o Jabuti e o Oceanos, e por ser: \u201cum pensador capaz de uma interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica e cultural de grande relev\u00e2ncia, com um contributo not\u00e1vel para a proje\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa como l\u00edngua do pensamento cr\u00edtico, no Brasil e fora dele (nos pa\u00edses ibero-americanos, africanos, nos Estados Unidos e na Europa)\u201d (Instituto Cam\u00f5es 2022). A contribui\u00e7\u00e3o de Santiago \u00e0 teoria cr\u00edtica \u00e9 mais evidente nos estudos p\u00f3s-coloniais e nos estudos culturais latino-americanos, onde seus conceitos-chaves, \u201co entre-lugar\u201d e \u201co cosmopolitismo do pobre\u201d, s\u00e3o discutidos, citados e traduzidos para circularem nos contextos angl\u00f3fonos e hisp\u00e2nicos. Os pr\u00f3prios conceitos interrogam os deslocamentos lingu\u00edsticos, culturais e sociais que emergem com a circula\u00e7\u00e3o e a migra\u00e7\u00e3o de pessoas, ideias, obras e institui\u00e7\u00f5es. Para Santiago, as viagens e os deslocamentos\u2014tanto metaf\u00f3ricos quanto geogr\u00e1ficos\u2014n\u00e3o s\u00e3o assuntos abstratos, sen\u00e3o as experi\u00eancias fundamentais de sua forma\u00e7\u00e3o que servem como os fios condutores de sua escrita cr\u00edtica e criativa.<\/p>\n<p>Durante sua inf\u00e2ncia em Formigas, Minas Gerais, nos anos 1930 e 1940, as primeiras viagens aconteceram atrav\u00e9s das ideias, palavras e imagens encontradas em hist\u00f3rias em quadrinhos, filmes de guerra e musicais de Hollywood. O brasileiro viveu uma vida tranquila num estado relativamente provincial do Brasil durante um per\u00edodo de viol\u00eancia mundial, uma justaposi\u00e7\u00e3o manifestada no t\u00edtulo de sua colet\u00e2nea de poesia de 1978, <em>Crescendo durante a guerra numa prov\u00edncia ultramarina<\/em>. Os poemas de tal volume contrastam as not\u00edcias de guerra tiradas dos jornais com as divers\u00f5es e os brinquedos duma crian\u00e7a protegida daqueles horrores. Essa colet\u00e2nea demostra como sua vida poderia servir como inspira\u00e7\u00e3o para sua produ\u00e7\u00e3o criativa e cr\u00edtica e, al\u00e9m disso, indica que, desde jovem, possuiu uma \u201catra\u00e7\u00e3o do mundo,\u201d para citar o termo que desenvolveu num ensaio de 1995 sobre a posi\u00e7\u00e3o intelectual de Joaquim Nabuco. Apesar do impulso para conhecer o mundo, Santiago valoriza suas experi\u00eancias e perspectivas distintas como um escritor nascido e crescido num pa\u00eds relativamente perif\u00e9rico.<br \/>\nNo final dos anos 1950, Santiago trocou sua cidade natal pelo capital do estado, Belo Horizonte, para estudar na Universidade Federal de Minas Gerais, onde completou a gradua\u00e7\u00e3o em Letras Neolatinas com especializa\u00e7\u00e3o em Literatura Francesa em 1959. Depois se mudou para Paris para continuar seus estudos doutorais nas Letras Francesas na Universidade de Sorbonne, onde descobriu o pensamento filos\u00f3fico e cr\u00edtico de Michel Foucault, Louis Althusser e, mais importantemente, Jacques Derrida. Defendeu com sucesso sua tese sobre o livro <em>Os moedeiros falsos<\/em> de Andr\u00e9 Gide em 1968, mas, antes disso, j\u00e1 come\u00e7ara a trabalhar como professor e pesquisador. Em 1962, recebeu uma oferta de emprego no departamento de espanhol e portugu\u00eas da Universidade do Novo M\u00e9xico, e, de novo, se deslocou de um lado do Atl\u00e2ntico para o outro, radicando-se no sudoeste dos Estados Unidos. L\u00e1, deu aulas sobre a l\u00edngua portuguesa e a literatura luso-brasileira, come\u00e7ando com os textos coloniais de P\u00earo Vaz de Caminha e Ant\u00f3nio Vieira, passando pelos mestres oitocentistas da l\u00edngua portuguesa E\u00e7a de Queir\u00f3s e Machado de Assis e pelos modernistas brasileiros, e concluindo com as obras magistrais brasileiras do s\u00e9culo XX de, entre outros, Graciliano Ramos e Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. A experi\u00eancia de reler e ensinar estes textos promoveu uma an\u00e1lise mais atenciosa que Santiago depois transformou em ensaios cr\u00edticos. Durante sua estadia no Novo M\u00e9xico, aprendeu mais sobre a cultura hispano-americana e latina atrav\u00e9s do contato com seus colegas e com outros residentes da regi\u00e3o sudoeste estado-unidense. Come\u00e7ou a ler escritores hispano-americanos, o que contribuiu ao desenvolvimento de suas ideias sobre a literatura e cultura latino-americana.<\/p>\n<p>Seguiu vivendo e desenvolvendo sua carreira profissional nos Estados Unidos por uma d\u00e9cada, trabalhando na Universidade de Rutgers (Nova Jersey) e na Universidade Estadual de Nova York, Buffalo (SUNY-Buffalo) como professor universit\u00e1rio de franc\u00eas. Devido a sua posi\u00e7\u00e3o profissional e relativa proximidade \u00e0 cidade de Nova York, teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Foucault e Derrida, participar nos debates te\u00f3ricos mais urgentes da \u00e9poca, e socializar com H\u00e9lio Oiticica e outros exilados latino-americanos. Notavelmente, sua resid\u00eancia nos Estados Unidos contribuiu \u00e0s experi\u00eancias e leituras que informaram a conceptualiza\u00e7\u00e3o do \u201centre-lugar.\u201d O cr\u00edtico prop\u00f4s o termo inicialmente em franc\u00eas, em 1971, numa palestra intitulada \u201cL\u2019entre-lieu du discours latino-am\u00e9ricain,\u201d que deu em Montreal, uma cidade canadense bil\u00edngue, a convite de Eugenio Donato para discutir a antropofagia. Ao inv\u00e9s de focar sua apresenta\u00e7\u00e3o no modernismo brasileiro, prop\u00f4s um entendimento mais abrangente do \u201critual antropof\u00e1gico\u201d do discurso latino-americano como um ato de falar e escrever contra as vozes estabelecidas ou dominantes. Publicado em ingl\u00eas, em 1973, e depois em portugu\u00eas em 1978, o c\u00e9lebre ensaio \u00e9 o produto do que Santiago leu e interpretou durante seus estudos na Fran\u00e7a e seus anos trabalhando nos Estados Unidos, uma mistura distinta da teoria p\u00f3s-estruturalista francesa com a literatura colonial brasileira de Caminha e as narrativas contempor\u00e2neas latino-americanas de Jorge Luis Borges, Julio Cort\u00e1zar e Ant\u00f4nio Callado. Desde estas origens num contexto multil\u00edngue e transnacional, o conceito do entre-lugar antecipa as teorias p\u00f3s-coloniais que enfatizam as possibilidades cr\u00edticas e criativas de transcultura\u00e7\u00e3o ou hibridez, como o espa\u00e7o terceiro de Homi Bhabha, a fronteira de Gloria Anzald\u00faa, a zona de contato de Mary Louise Pratt e as culturas h\u00edbridas de N\u00e9stor Garc\u00eda Canclini. O pensamento cr\u00edtico latino-americano de Santiago estabelece um di\u00e1logo com seus contempor\u00e2neos argentinos como Beatriz Sarlo, Sylvia Molloy e Ricardo Piglia. Em contraste com Molloy y Piglia, que permaneceram nos Estados Unidos pelo resto de suas carreiras, Santiago decidiu voltar para o Brasil em 1972, em plena ditadura militar, para ser catedr\u00e1tico na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e, depois, na Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>Depois do regresso, Santiago se radicou no Rio de Janeiro, mas seu enraizamento no Brasil n\u00e3o diminuiu o impulso cosmopolita e o engajamento com o mundo. Continuou a viajar internacionalmente para participar em congressos, dar palestras convidadas e ser professor catedr\u00e1tico visitante em v\u00e1rias universidades prestigiosas, inclusive Princeton e Indiana. Al\u00e9m disso, o movimento, a circula\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o de ideias, obras e pessoas emergem como os fios condutores de sua obra. Como organizador da colet\u00e2nea <em>Gloss\u00e1rio de Derrida<\/em>, de 1976, Santiago colaborou com seus alunos e outros colegas para introduzir as ideias p\u00f3s-estruturais de Jacques Derrida ao p\u00fablico brasileiro. O livro sintetizou os conceitos filos\u00f3ficos desenvolvidos por Derrida em seus primeiros seis textos, publicados originalmente em 1967 e em 1972. O gloss\u00e1rio identificou as ideias principais de Derrida e ofereceu uma leitura cr\u00edtica destes conceitos filos\u00f3ficos que facilitou a compreens\u00e3o do pensamento derridiano e das tradu\u00e7\u00f5es para o portugu\u00eas de<em> A escritura e a diferen\u00e7a<\/em> e <em>Gramatologia<\/em>, publicadas respectivamente em 1971 e 1973. A voz distinta de Santiago como ensa\u00edsta e ficcionista emergiu durante esse per\u00edodo enquanto mergulhava no pensamento cr\u00edtico franc\u00eas e, ao mesmo tempo, lia e relia a literatura can\u00f4nica brasileira e hispano-americana. Os ensaios compilados nos volumes Uma literatura nos tr\u00f3picos (1978), <em>Vale quanto pesa<\/em> (1982) e <em>Nas malhas da letra<\/em> (1988) analisam a rela\u00e7\u00e3o do Brasil e, por extens\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, com os poderes hist\u00f3ricos e atuais nos \u00e2mbitos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais por meio de leituras cuidadosas de textos liter\u00e1rios e culturais. As obras discutidas variam, mas os temas recorrem e oferecem maior clareza sobre a depend\u00eancia, a coloniza\u00e7\u00e3o, a originalidade e a imita\u00e7\u00e3o, bem como o deslocamento. Al\u00e9m do c\u00e9lebre ensaio \u201cO entre-lugar do discurso latino-americano\u201d, Santiago escreveu e publicou textos perspicazes como \u201cApesar de dependente, universal\u201d (1980), que discute a dial\u00e9tica de depend\u00eancia e universalidade a partir de uma leitura da poesia de Jos\u00e9 de Anchieta, e \u201cA perman\u00eancia do discurso da tradi\u00e7\u00e3o no modernismo\u201d (1985), que analisa as din\u00e2micas entre tradi\u00e7\u00e3o e modernidade nas vanguardas brasileiras e globais.<\/p>\n<p>Enquanto considerava o lugar do Brasil dentro das discuss\u00f5es liter\u00e1rias e culturais em seus ensaios cr\u00edticos, Santiago come\u00e7ou a estabelecer-se como romancista. Publicou seu primeiro romance, <em>Em liberdade: uma fic\u00e7\u00e3o<\/em>, em 1981, que prop\u00f5e uma ficcionaliza\u00e7\u00e3o da vida do escritor brasileiro Graciliano Ramos nos dias ap\u00f3s sair do c\u00e1rcere em 1936. O romance estabelece um di\u00e1logo intertextual com <em>Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere<\/em>, um livro sobre as experi\u00eancias carcer\u00e1rias de Ramos publicado postumamente em 1953. A inclus\u00e3o da express\u00e3o \u201cuma fic\u00e7\u00e3o\u201d no t\u00edtulo aponta para a linha porosa entre o real e o ficcional nas narrativas de Santiago. O escritor transforma, exagera e inventa elementos de suas mem\u00f3rias, no caso de sua vida pessoal e familiar, ou da documenta\u00e7\u00e3o escrita, no caso de figuras hist\u00f3ricas como Ramos. Como resultado, as narrativas de Santiago transgridem as fronteiras entre o ficcional e o real numa express\u00e3o liter\u00e1ria do entre-lugar. Santiago prop\u00f5e vers\u00f5es ficcionalizadas dele mesmo em <em>O falso mentiroso: mem\u00f3rias<\/em> (2004) e <em>Hist\u00f3rias mal contadas: contos<\/em> (2005); de seus parentes, especificamente Tio M\u00e1rio, em <em>Uma hist\u00f3ria de fam\u00edlia<\/em> (1992); e de escritores c\u00e9lebres como Machado de Assis em <em>Machado<\/em> (2016). Ao inv\u00e9s de propor um retrato veross\u00edmil de sua vida, sua fam\u00edlia ou uma pessoa famosa, o escritor examina as limita\u00e7\u00f5es da representa\u00e7\u00e3o e questiona as divis\u00f5es porosas entre a fic\u00e7\u00e3o e a realidade. Santiago encontra um \u00e2mbito frut\u00edfero para examinar duas preocupa\u00e7\u00f5es centrais de sua escrita\u2014a representa\u00e7\u00e3o e a subjetividade\u2014ao considerar como mediar as experi\u00eancias vividas de inf\u00e2ncia, as din\u00e2micas familiares e os desafios pessoais.<\/p>\n<p>Em suas narrativas ficcionais, o deslocamento se manifesta como uma experi\u00eancia ligada \u00e0s passagens e transgress\u00f5es geogr\u00e1ficas dos viajantes, exilados e migrantes, ou \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas e interiores dos sujeitos <em>queer<\/em>. O protagonista do romance <em>Stella Manhattan<\/em> (1985), Eduardo da Costa e Silva, exemplifica a multiplicidade dos deslocamentos como brasileiro radicado em Nova York no final dos anos 1960, onde conhece outros exilados e migrantes brasileiros, cubanos e latino-americanos. Apesar de estar fora do Brasil durante a ditadura militar, Eduardo n\u00e3o \u00e9 um exilado explicitamente pol\u00edtico; procura ref\u00fagio no estrangeiro depois de ter um relacionamento homossexual no Rio de Janeiro que trouxe vergonha para sua fam\u00edlia. Segundo o cr\u00edtico Karl Posso, Eduardo entra em \u201csex\u00edlio\u201d em Manhattan, onde encontra espa\u00e7os particulares para expressar sua sexualidade e abra\u00e7ar seu alter-ego feminino Stella, a estrela de Manhattan. A duplicidade de sua identidade n\u00e3o se limita a sua sexualidade; tamb\u00e9m se manifesta em termos lingu\u00edsticos e culturais. Eduardo transita com relativa facilidade entre seu portugu\u00eas nativo e o ingl\u00eas de seus novos arredores; at\u00e9 entende o espanhol falado por seu vizinho Paco, um cubano anticastrista que introduz o brasileiro aos clubes e outros lugares clandestinos. As duplas identidades proliferam neste romance: n\u00e3o s\u00f3 o protagonista (Eduardo\/Stella), mas tamb\u00e9m seu vizinho (Paco\/La Cucaracha), seu amigo universit\u00e1rio e militante esquerdista (Marcelo Carneiro da Rocha\/Caetano\/Marcela, a Marquesa de Santos), e um oficial militar e amigo familiar (Coronel Valdevinos Vianna\/A vi\u00fava negra) existem entre na\u00e7\u00f5es, l\u00ednguas, g\u00eaneros e desejos sexuais. Atrav\u00e9s dos encontros destes personagens deslocados, Santiago constr\u00f3i uma express\u00e3o ficcional do conceito previamente teorizado do entre-lugar.<\/p>\n<p>Duas colet\u00e2neas subsequentes de contos, <em>Keith Jarrett no Blue Note (Improvisos de Jazz)<\/em> (1996) e <em>Hist\u00f3rias mal contadas<\/em> (2005), capturam um \u00e2mbito semelhante dos seres deslocados e desdobrados tentando se encontrarem nas cidades e estradas an\u00f3nimas dos Estados Unidos. A partir de seu apartamento mon\u00f3tono numa cidade universit\u00e1ria no meio-oeste do pa\u00eds, o protagonista dos contos de <em>Keith Jarrett no Blue Note<\/em> lembra sua cidade natal com o calor, o sol, e a paisagem t\u00e3o distinta da plan\u00edcie fria e nevada de seus arredores atuais. Al\u00e9m da geografia de seu passado, o protagonista lembra os amantes e os encontros \u00edntimos de meses e anos anteriores. De novo, Santiago estabelece um v\u00ednculo entre os deslocamentos geogr\u00e1ficos e lingu\u00edsticos e um desejo escondido ou clandestino. Devido a suas migra\u00e7\u00f5es e seus desejos er\u00f3ticos, os personagens de <em>Stella Manhattan<\/em> e <em>Keith Jarrett no Blue Note<\/em> n\u00e3o se sentem integrados completamente na sociedade onde residem, todavia, procuram conex\u00f5es. A vontade de estabelecer uma conex\u00e3o, apesar de seu deslocamento como brasileiro nos Estados Unidos, inspira o protagonista-narrador do conto \u201cBorr\u00e3o,\u201d de <em>Hist\u00f3rias mal contadas<\/em>, a tentar comunicar com outros passageiros num \u00f4nibus atravessando o sul dos Estados Unidos. Inspirado por sua resid\u00eancia nos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970, Santiago transforma experi\u00eancias pessoais em narrativas \u201cmal contadas\u201d que modificam ou exageram os eventos vividos. Os resultantes contos representam os desentendimentos lingu\u00edsticos, s\u00f3cio-pol\u00edticos e raciais sofridos pelos personagens deslocados de Santiago. Por exemplo, o narrador de \u201cBorr\u00e3o\u201d encontra os limites do entendimento m\u00fatuo durante sua conversa com um homem afro-americano no \u00f4nibus. Durante a viagem, o narrador confronta pela primeira vez a segrega\u00e7\u00e3o codificada de Jim Crow, um sistema que identifica o narrador como um ser racializado e outro, apesar de sua educa\u00e7\u00e3o superior e seu privil\u00e9gio socioecon\u00f4mico relativo. O conto revela as repercuss\u00f5es dos deslocamentos; as disjun\u00e7\u00f5es e as m\u00e1s tradu\u00e7\u00f5es v\u00e3o mais al\u00e9m da l\u00edngua e se manifestam nas constru\u00e7\u00f5es raciais e nos sistemas sociais.<\/p>\n<p>Com suas obras publicadas nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, Santiago mant\u00e9m uma vitalidade como cr\u00edtico e ficcionista. As resson\u00e2ncias entre seus conceitos te\u00f3ricos e suas narrativas ficcionais persistem, como seu outro conceito essencial, \u201co cosmopolitismo do pobre\u201d, exemplifica. Publicado na colet\u00e2nea <em>O cosmopolitismo do pobre<\/em> de 2004, o ensaio que prop\u00f5e o termo abre com uma descri\u00e7\u00e3o do filme <em>Viagem ao princ\u00edpio do mundo<\/em> (1997) do realizador portugu\u00eas Manuel de Oliveira. A partir de uma an\u00e1lise das disjun\u00e7\u00f5es representadas no filme entre o mundo pr\u00e9-moderno numa aldeia rural portuguesa e o mundo moderno numa cidade cosmopolita francesa, Santiago discute como a globaliza\u00e7\u00e3o tem minimizado as distin\u00e7\u00f5es vis\u00edveis entre o provincial e o cosmopolita para criar um mundo onde cada vez mais as pessoas, as ideias e as mercadorias circulam. Segundo sua formula\u00e7\u00e3o, o cosmopolitismo hoje em dia n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio das elites, como foi nos s\u00e9culos anteriores, sen\u00e3o uma necessidade dos pobres para simplesmente sobreviverem. Ao mencionar os \u201cretirantes brasileiros contempor\u00e2neos\u201d e os trabalhadores clandestinos de outros pa\u00edses, Santiago retrata uma rede de migrantes e itinerantes que transitam entre as cidades globais \u00e0 procura de emprego ou de outras oportunidades econ\u00f3micas. O cosmopolitismo desta classe prec\u00e1ria emerge como uma condi\u00e7\u00e3o de seus deslocamentos cont\u00ednuos e sua flexibilidade laboral necess\u00e1ria. Os migrantes, exilados e viajantes dentro das narrativas ficcionais de Santiago n\u00e3o demostram esta precariedade financeira, mas compartilham com os cosmopolitas pobres uma atra\u00e7\u00e3o do mundo que o pr\u00f3prio escritor exibe em sua vida e sua obra. Desde sua inf\u00e2ncia mineira at\u00e9 aos estudos em Belo Horizonte e Paris e sua carreira profissional nos Estados Unidos e no Rio de Janeiro, Silviano Santiago tem vivido no entre-lugar e tem observado os cosmopolitismos diversos e discrepantes. Sua trajet\u00f3ria pessoal se reflete nas itiner\u00e2ncias e nos deslocamentos de seus personagens, ilustrando a fronteira porosa entre o real e o ficcional em sua escrita. Com seus prol\u00edficos textos cr\u00edticos e criativos, continuamos acompanhando as viagens geogr\u00e1ficas e intelectuais deste premiado escritor brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>A literatura latino-americana de hoje nos prop\u00f5e um texto e, ao mesmo tempo, abre o campo te\u00f3rico onde \u00e9 preciso se inspirar durante a elabora\u00e7\u00e3o do discurso cr\u00edtico de que ela ser\u00e1 o objeto. O campo te\u00f3rico contradiz os princ\u00edpios de certa cr\u00edtica universit\u00e1ria que s\u00f3 se interessa pela parte <em>invis\u00edvel<\/em> do texto, pelas d\u00edvidas contra\u00eddas pelo escritor, ao mesmo tempo que ele rejeita o discurso de uma cr\u00edtica pseudomarxista que prega uma pr\u00e1tica prim\u00e1ria do texto, observando que sua efic\u00e1cia seria consequ\u00eancia de uma leitura f\u00e1cil. Estes te\u00f3ricos esquecem que a efic\u00e1cia de uma cr\u00edtica n\u00e3o pode ser medida pela pregui\u00e7a que ela inspira; pelo contr\u00e1rio, ela deve descondicionar o leitor, tornar imposs\u00edvel sua vida no interior da sociedade burguesa e de consumo. A leitura f\u00e1cil d\u00e1 raz\u00e3o \u00e0s for\u00e7as neocolonialistas que insistem no fato de que o pa\u00eds se encontra na situa\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia pela pregui\u00e7a de seus habitantes. O escritor latino-americano nos ensina que \u00e9 preciso liberar a imagem de uma Am\u00e9rica Latina sorridente e feliz, o carnaval e a fiesta, col\u00f4nia de f\u00e9rias para turismo cultural.<br \/>\nEntre o sacrif\u00edcio e o jogo, entre a pris\u00e3o e a transgress\u00e3o, entre a submiss\u00e3o ao c\u00f3digo e a agress\u00e3o, entre a obedi\u00eancia e a rebeli\u00e3o, entre a assimila\u00e7\u00e3o e a express\u00e3o \u2013 ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual antrop\u00f3fago da literatura latino-americana. (\u201cO entre-lugar do discurso latino-americano\u201d, <em>Uma literatura nos tr\u00f3picos,<\/em> 2000: 26)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse pela Lacucaracha n\u00e3o sei n\u00e3o o que teria acontecido com Eduardo nos primeiros meses de Nova Iorque [&#8230;].<br \/>\nLacucaracha, chamado paco, de batismo Francisco Ayala, era um cubano da ilha no in\u00edcio da d\u00e9cada, bien gusano y anticastrista, que escolheu Nova Iorque em lugar de Miami. Para justificar a escolha, dizia: \u201cPara uma persona como yo que siempre vivi\u00f3 em la Havana, no hay m\u00e1s que dos ciudades em el planeta: Paris y Nueva York\u2019, e continuava: \u2018Paris est\u00e1 en manos de comunistas, y Nueva York em manos de nosotros, amantes de la libertad.<br \/>\nVizinho de andar de Eduardo deu de cara umas vezes com ele no elevador, e na terceira ou quarta vez que toparam um com o outro le salud\u00f3 muy simpaticamente en espa\u00f1ol porque yo lo sent\u00eda aqu\u00ed (e batia com o dedo no peito, ali no lugar do cora\u00e7\u00e3o) que t\u00fa eras latino. \u201cBrasileiro? ay, no me lo digas!\u201d e quase teve um ataque hist\u00e9rico no cubo do elevador que subia, deixando Eduardo perplexo e sem fala at\u00e9 que chegaram ao quinto andar e as portas se abriram. Ficaram conversando charlando no corredor por alguns minutos, e a\u00ed Paco resolveu chamar o amigo para um drinque en mi casa que es la tuya por supuesto. Eduardo aceitou. (<em>Stella Manhattan,<\/em> 1985: 29-30)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje os <em>retirantes<\/em> brasileiros, muitos deles oriundos do estado de estados relativamente ricos da na\u00e7\u00e3o, seguem o fluxo do capital transnacional como um girassol. Ainda jovens e fortes, querem ganhar as metr\u00f3poles do mundo p\u00f3s-industrial. De posse do passaporte, fazem enormes filas \u00e0 porta dos consulados. Sem conseguir o visto, viajam para os pa\u00edses lim\u00edtrofes, como o M\u00e9xico ou o Canad\u00e1, em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos da Am\u00e9rica, ou como Portugal e a Espanha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, e ali se juntam a companheiros de viagem de todas as nacionalidades. O campon\u00eas salta hoje por cima da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e cai a p\u00e9, a nado, de trem, navio ou avi\u00e3o, diretamente na metr\u00f3pole p\u00f3s-moderna. Muitas vezes sem a intermedia\u00e7\u00e3o do necess\u00e1rio visto consular. Rejeitado pelos poderosos estados nacionais, evitado pela burguesia tradicional, hostilizado pelo operariado sindicalizado e cobi\u00e7ado pelo empresariado transnacional, o migrante campon\u00eas \u00e9 hoje o \u2018mui corajoso\u2019 passageiro clandestino da nave de loucos da p\u00f3s-modernidade. (&#8220;O cosmopolitismo pobre&#8221;, <em>O cosmopolitismo pobre,<\/em> 2004: 52)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sofrida experi\u00eancia dele e do seu povo no vale do Mississ\u00edpi-Missouri contrastada com a minha experi\u00eancia de imigrante rec\u00e9m-chegado dum outro sul \u2013 <em>south of the Mexican border<\/em>, como passaram a nos localizar geograficamente a partir e depois da Segunda Grande Guerra. N\u00e3o sei se lhe disse que era nascido no Brasil. N\u00e3o sei se significava alguma coisa dizer a ele que eu era brasileiro. Pel\u00e9 ainda n\u00e3o existia no pa\u00eds que desconhecia o futebol, o <em>soccer<\/em>. A \u00fanica estrela esportiva \u2013 conhecida apenas dos brancos \u2013 era a tenista Maria Ester Bueno, vencedora do torneio. O carnaval do Rio era ent\u00e3o desprezado pelos habitantes do pa\u00eds que oferecia aos turistas os desfiles do <em>mardi gras<\/em> no Vieux Carr\u00e9. Para todos os efeitos Carmem Miranda era mexicana ou cubana, irm\u00e3 ou sobrinha de Xavier Cugat. O mago das rumbas.\u201d<br \/>\n(\u201cBorr\u00e3o\u201d, <em>Hist\u00f3rias mal contadas<\/em>, 2005: 39-40)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Santiago, Silviano (1978), <em>Crescendo durante a guerra numa prov\u00edncia ultramarina<\/em>. Rio de Janeiro, Francisco Alves.<br \/>\n&#8212; (1981), <em>Em liberdade: uma fic\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo, Paz e Terra.<br \/>\n&#8212; (1982), <em>Vale quanto pesa: (ensaios sobre quest\u00f5es pol\u00edtico-culturais)<\/em>. Rio de Janeiro, Paz e Terra.<br \/>\n&#8212; (1985), <em>Stella Manhattan<\/em>. Rio de Janeiro, Nova Fronteira.<br \/>\n&#8212; (2002), <em>Nas malhas da letra: ensaios<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (1992), <em>Uma hist\u00f3ria de fam\u00edlia<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (1995), <em>Viagem ao M\u00e9xico<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (1996), <em>Keith Jarrett no Blue Note (Improvisos de Jazz)<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (2000), <em>Uma literatura nos tr\u00f3picos: ensaios sobre depend\u00eancia cultural<\/em>. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (2004), <em>O cosmopolitismo do pobre: Critica liter\u00e1ria e critica cultural<\/em>. Belo Horizonte, Editora UFMG.<br \/>\n&#8212; (2004), <em>O falso mentiroso: mem\u00f3rias<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (2005), <em>Hist\u00f3rias mal contadas: contos<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (2006), <em>As ra\u00edzes e o labirinto da Am\u00e9rica Latina<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (2006),<em> Ora (direis) puxar conversa!: ensaios liter\u00e1rios<\/em>. Belo Horizonte, Editora UFMG.<br \/>\n&#8212; (2008), <em>Heran\u00e7as<\/em>. Rio de Janeiro, Rocco.<br \/>\n&#8212; (2014), <em>Mil rosas roubadas<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2016), <em>Machado<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2018), \u201cDeslocamentos reais e paisagens imagin\u00e1rias: o cosmopolita pobre.\u201d <em>Cultura: Revista de Hist\u00f3ria e Teoria das Ideias<\/em>, v. 37: 15-31. Consult\u00e1vel em: https:\/\/doi.org\/10.4000\/cultura.4787.<br \/>\n&#8212; (2021), <em>Menino sem passado. 1936-1948<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\n&#8212; (2023), <em>Grafias de vida \u2013 A morte<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\nSantiago, Silviano (org) (1976), <em>Gloss\u00e1rio de Derrid<\/em>a. Rio de Janeiro, Francisco Alves.<br \/>\nSantiago, Silviano (org) (2000), <em>Int\u00e9rpretes do Brasil<\/em>. 3 volumes. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Botelho, Andr\u00e9\/ Maur\u00edcio Ayer (2024), \u201cEntrevista com Silviano Santiago. Em busca do tempo perdido de Machado.\u201d <em>Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social<\/em>. Consult\u00e1vel em: https:\/\/blogbvps.com\/2024\/09\/27\/entrevista-com-silviano-santiago-por-andre-botelho-e-mauricio-ayer\/.<\/p>\n<p>Botelho, Andr\u00e9\/ Gabriel Martins da Silva (2023), \u201cHospedagem Vale quanto pesa, uma \u00e9tica da rela\u00e7\u00e3o.\u201d<em> Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social<\/em>. Consult\u00e1vel em: https:\/\/blogbvps.com\/2023\/04\/10\/hospedagem-vale-quanto-pesa-curadoria-de-andre-botelho-e-gabriel-martins-da-silva\/.<\/p>\n<p>Brasileiro, Marcus V. C. (2010), <em>Deslocamento e subjetividade em Jo\u00e3o Gilberto Noll, Silviano Santiago e Bernardo Carvalho<\/em>. Diss. U of Minnesota.<\/p>\n<p>Brune, Krista (2020), \u201cSilviano Santiago\u2019s Translational Criticism and Fiction,\u201d <em>Creative Transformations: Travels and Translations of Brazil in the Americas<\/em>. Albany, SUNY Press, 105-144<\/p>\n<p>C\u00e1mara, Mario (2025), \u201cApresenta\u00e7\u00e3o: Gloss\u00e1rio Silviano Santiago.\u201d <em>Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social<\/em>. Consult\u00e1vel em: https:\/\/blogbvps.com\/2025\/05\/08\/glossario-silviano-santiago-apresentacao-de-mario-camara\/.<\/p>\n<p>Coelho, Federico (Org) (2011), <em>Encontros: Silviano Santiago<\/em>. Rio de Janeiro, Beco do Azougue.<\/p>\n<p>Cunha, Eneida Leal (Org) (2008), <em>Leituras cr\u00edticas sobre Silviano Santiago<\/em>. Belo Horizonte, Editora UFMG.<\/p>\n<p>Hoisel, Evelina (2023), \u201cHomenagem a Silviano Santiago.\u201d <em>Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social<\/em>. Consult\u00e1vel em: https:\/\/blogbvps.com\/2023\/08\/01\/coluna-palavra-critica-homenagem-a-silviano-santiago-por-evelina-hoisel\/.<\/p>\n<p>Instituto Cam\u00f5es (2022), \u201cSilviano Santiago vence Pr\u00e9mio Cam\u00f5es 2022.\u201d Cam\u00f5es: Instituto da Coopera\u00e7\u00e3o e da L\u00edngua. Consult\u00e1vel em: https:\/\/www.instituto-camoes.pt\/sobre\/comunicacao\/noticias\/brasil-silviano-santiago-vence-premio-camoes-2022.<\/p>\n<p>Klinger, Diana (2007), <em>Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnogr\u00e1fica: Bernardo Carvalho, Fernando Vallejo<\/em>, Washington Cucurto, Jo\u00e3o Gilbert Noll, C\u00e9sar Aira, Silviano Santiago. Rio de Janeiro, 7Letras.<\/p>\n<p>Lopes, Den\u00edlson (2007), \u201cFrom the Space In-Between to the Transcultural.\u201d <em>Journal of Latin American Cultural Studies<\/em>. v. 16(3): 359-369. Consult\u00e1vel em: https:\/\/doi.org\/10.1080\/13569320701682583.<\/p>\n<p>&#8212; (2008), \u201cSilviano Santiago, estudos culturais e estudos LGBTS no Brasil.\u201d <em>Revista Iberoamericana<\/em>, v. 74(255): 943-957. Consult\u00e1vel em: https:\/\/core.ac.uk\/reader\/296292520.<\/p>\n<p>Posso, Karl (2003), <em>Artful Seduction: Homosexuality and the Problematics of Exile<\/em>. Oxford, Legenda.<\/p>\n<p>Ramos, Julio (2012), \u201cLos viajes de Silviano Santiago. Conversaci\u00f3n con Julio Ramos.\u201d <em>Zama: Revista del Instituto de Literatura Hispanoamericana<\/em>, v. 4(4): 185-196. Consult\u00e1vel em: https:\/\/doi.org\/10.34096\/zama.a4.n4.630.<\/p>\n<p>Silva, Maria Andr\u00e9ia de Paula (2016), <em>Silviano Santiago: uma pedagogia do falso<\/em>. Curitiba, Appris.<\/p>\n<p>Souza, Eneida Maria de\/ Wander Melo Miranda (Orgs) (1997), <em>Navegar \u00e9 preciso, viver: escritos para Silviano Santiag<\/em>o. Belo Horizonte, Editora UFMG.<\/p>\n<p>Souza, Eneida Maria de\/ Andr\u00e9 Botelho e Rafael Lovisi Prado (Orgs) (2020), <em>Dossier: 40 Anos de<\/em> Uma Literatura nos Tr\u00f3picos: <em>\u2018Entre-lugar\u2019, \u2018Cosmopolitismo\u2019, \u2018Inser\u00e7\u00e3o\u2019. Aletria: Revista de Estudos de Literatura<\/em>, v. 30(1). Consult\u00e1vel em: https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/aletria\/issue\/view\/1148.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reconhecido como um dos pensadores e escritores brasileiros mais importantes dos \u00faltimos cinquenta anos, Silviano Santiago \u00e9 um cr\u00edtico astuto e um romancista e contista inovador. 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Esta cita\u00e7\u00e3o de Orlando da Costa \u00e9 emblem\u00e1tica de como a sua obra liter\u00e1ria resultou de uma grande experi\u00eancia coletiva, em que ambos \u00abeu l\u00edrico\u00bb e \u00abeu narrativo\u00bb se confundem e cedem espa\u00e7o ao <em>canto comum<\/em> de diversos povos. Com o cora\u00e7\u00e3o e a cabe\u00e7a em Lisboa, e os olhos virados para a \u00cdndia \u2013 uns<em> olhos sem fronteira<\/em> para parafrasear o t\u00edtulo de um dos seus mais apreciados, e censurados, livros de poesia \u2013 Orlando da Costa fez da sua identidade de sujeito diasp\u00f3rico o marco da carreira liter\u00e1ria, sem nunca, por\u00e9m, tornar a sua obra explicitamente autobiogr\u00e1fica. Como o pr\u00f3prio escritor declarou numa entrevista dada ao <em>Di\u00e1rio Popular<\/em> em 1975, nunca escreveu um livro sobre si, por\u00e9m, tudo aquilo que escreveu tem a ver com ele, comparando o livro a uma viagem, em cujo itiner\u00e1rio o escritor vai se reencontrando. Orlando da Costa nasceu no dia 2 de julho de 1929 em Louren\u00e7o Marques (hoje Maputo), no seio de uma fam\u00edlia indiana: pai go\u00eas e m\u00e3e origin\u00e1ria de uma fam\u00edlia de Dam\u00e3o. Em 1931, viajou pela primeira vez a Goa, enquanto, a partir de 1935, ainda crian\u00e7a, o encontramos em tr\u00e2nsito entre Brasil e Portugal. Posteriormente, por causa dos problemas de sa\u00fade da m\u00e3e, foi entregue aos cuidados dos tios em Marg\u00e3o. A inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia em Goa foram edificantes na sua precoce carreira liter\u00e1ria. Estudou at\u00e9 ao 6\u00ba ano no Instituto Abade Faria em Marg\u00e3o e, com apenas 15 anos, participou num concurso liter\u00e1rio promovido pelo Liceu Afonso de Albuquerque, <em>alma mater<\/em> dos filhos das elites cat\u00f3licas goesas, mas tamb\u00e9m casa de jovens poetas. Aqui deu-se o seu primeiro reconhecimento liter\u00e1rio: o seu poema ganhou o 1\u00ba pr\u00e9mio e foi publicado na revista <em>Ala: Revista do Centro Escolar n\u00ba 1 da Mocidade Portuguesa<\/em>, publica\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de fomento, com uma forte conota\u00e7\u00e3o colonial. A seguir, mudou-se para Pangim para terminar o 7\u00ba ano no mesmo liceu que o tinha galardoado.<\/p>\n<p>Em 1947, com 18 anos de idade, emigrou para Lisboa, onde estudou na Faculdade de Letras e entrou em contacto com os jovens da Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio (CEI), tendo-se tornado Presidente da Sec\u00e7\u00e3o da \u00cdndia em 1952, quando a organiza\u00e7\u00e3o da casa sofreu altera\u00e7\u00f5es significativas impostas pelo governo, com vista a dissolver a estrutura democr\u00e1tica que at\u00e9 ent\u00e3o tinha suportado o seu funcionamento. Tornou-se amigo \u00edntimo de M\u00e1rio Pinto de Andrade, e companheiro de luta pol\u00edtica de outros militantes africanos como Am\u00edlcar Cabral, L\u00facio Lara, Marcelino dos Santos e Agostinho Neto. Este \u00faltimo definiu Orlando da Costa como <em>poeta aut\u00eantico<\/em>, por englobar na sua obra refer\u00eancias da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria europeia e, simultaneamente, dos poetas da negritude, como Aim\u00e9e C\u00e9saire a quem dedicou o poema \u00abCan\u00e7\u00e3o do petit matin\u00bb. Sobre os anos na CEI e a sua rela\u00e7\u00e3o com os estudantes africanos, Costa escreveu que \u00e9 a partir dessa experi\u00eancia que \u00aba minha integra\u00e7\u00e3o se faz social e politicamente e \u00e9 dela tamb\u00e9m que decorre a minha experi\u00eancia de escritor\u00bb (Costa 1975: s.p.). Nos anos da CEI e da milit\u00e2ncia antifascista est\u00e3o inspirados o romance censurado <em>Podem chamar-me Eur\u00eddice<\/em>&#8230; de 1964 \u2013 hist\u00f3ria clandestina de amor entre dois universit\u00e1rios, cuja parte da a\u00e7\u00e3o desenrola-se num quarto inspirado na resid\u00eancia de M\u00e1rio Pinto de Andrade \u2013 e <em>Os netos de Norton<\/em> de 1994, publicado j\u00e1 em democracia.<\/p>\n<p>Entre 1950 e 1953 foi detido v\u00e1rias vezes pela PIDE, onde resultava ser \u00abreferenciado como desafecto \u00e0s Institui\u00e7\u00f5es vigentes, professando ideias comunistas\u00bb (Relat\u00f3rio da PIDE\/DGS, PR. 2603-CI (2) NP. 7220, 1963). Entre outubro 1952 e mar\u00e7o 1953, chegou a cumprir uma pena de cinco meses e uma semana na pris\u00e3o de Caxias, onde terminou de escrever a sua disserta\u00e7\u00e3o final de curso. Nessa mesma \u00e9poca, aderiu ao MUD Juvenil e, em 1954, ao Partido Comunista. Os anos da sua juventude militante em Lisboa foram tamb\u00e9m os anos da sua afirma\u00e7\u00e3o enquanto poeta neorrealista. De facto, em 1951, apadrinhado pelo escritor Armindo Rodrigues \u2013 a quem foi introduzido por M\u00e1rio Pinto de Andrade e pelo poeta s\u00e3o-tomense Francisco Jos\u00e9 Tenreiro, ambos s\u00f3cios da CEI \u2013, teve o seu primeiro livro de poesia publicado pelo Centro Bibliogr\u00e1fico de Lisboa, no \u00e2mbito da cole\u00e7\u00e3o Cancioneiro Geral. O livro era <em>A estrada e a voz<\/em>, enquanto em 1953 publicou <em>Os olhos sem fronteira<\/em>. O seu terceiro volume de poemas, <em>Sete odes do canto comum<\/em>, foi apreendido quando ainda na tipografia. Sobre este acontecimento, Costa escreveu: \u00abEm 1955, aquele que teria sido o meu terceiro livro publicado foi assaltado como um cidad\u00e3o suspeito, na Cal\u00e7ada de S. Francisco e na Rua do Loreto, e a partir da\u00ed silenciado\u00bb (Costa 1979: s.p.). Essa apreens\u00e3o engatilhou a censura dos livros anteriores, dos quais os romances <em>O signo da ira<\/em> de 1961 e <em>Podem chamar-me Eur\u00eddice&#8230;<\/em> de 1964 partilharam o mesmo destino.<\/p>\n<p>Em 1956, encontramo-lo entre os s\u00f3cios fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), atuando como vogal da dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao fecho decretado pela ditadura salazarista, em 1965. A SPE foi fechada ap\u00f3s a atribui\u00e7\u00e3o do Grande Pr\u00e9mio de Novel\u00edstica ao livro <em>Luaanda<\/em> do escritor angolano Luandino Vieira, que se encontrava ent\u00e3o preso no campo do Tarrafal, em Cabo Verde. Na realidade, j\u00e1 em novembro de 1962, Luandino Vieira tinha recebido o primeiro pr\u00e9mio do Concurso Liter\u00e1rio da CEI, cujo j\u00fari era integrado por Orlando da Costa. Ainda no mesmo ano, o pr\u00f3prio escritor go\u00eas tinha experienciado uma situa\u00e7\u00e3o de constrangimento parecida ao receber o Pr\u00e9mio Ricardo Malheiros da Academia das Ci\u00eancias, pela publica\u00e7\u00e3o do romance <em>O signo da ira<\/em>, ent\u00e3o sob censura. No discurso de recebimento do dito pr\u00e9mio, Costa afirmou: \u00abum j\u00fari que premeia a obra de um escritor, ao premiar a sua qualidade liter\u00e1ria, premeia e incentiva, antes de mais, o sentimento de liberdade com que ela foi criada\u00bb (Costa, 1962, 2). \u00c9 poss\u00edvel que tenha sido o esp\u00edrito com que apoiou a candidatura de Luandino Vieira, primeiro ao pr\u00e9mio da CEI, de depois ao da SPE, a evidenciar -lhe a condi\u00e7\u00e3o paradoxal de escrever em liberdade num contexto de deten\u00e7\u00e3o e confinamento compulsivos.<\/p>\n<p>O neorrealismo, a sua \u00abgrande motiva\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u00bb, influenciou a escrita do romance <em>O signo da ira<\/em>, o qual representa o seu regresso simb\u00f3lico a Goa. O romance, ambientado no fim da segunda guerra mundial numa aldeia do campo go\u00eas, Torsan-Zori, aborda problem\u00e1ticas sociais que v\u00e3o desde a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores agr\u00edcolas \u00e0 viol\u00eancia colonial e ao abuso do corpo feminino. Mas como o pr\u00f3prio Costa afirmou numa entrevista de 1988, o meio social e f\u00edsico de Goa n\u00e3o constituem apenas uma ambienta\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o parte integrante da pr\u00f3pria narrativa. Costa foi levado a escrever essa hist\u00f3ria por raz\u00f5es que ele definiu como c\u00edvicas, ao mesmo tempo que foi despertado por \u00abuma esp\u00e9cie de nacionalismo, uma necessidade de intervir, de \u201cnos\u201d afirmarmos, de eu n\u00e3o me sentir desenraizar\u00bb. (Costa 2019: 21) Nesse sentido, o neorrealismo deu-lhe a possibilidade de conciliar as preocupa\u00e7\u00f5es sociais e o seu compromisso pol\u00edtico com a forma e o estilo. Apesar dacensura a que esteve sujeito, a atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Ricardo Malheiros, em 1962, fez com que o romance fosse reposto no mercado editorial e se esgotasse rapidamente, dando lugar \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de uma segunda edi\u00e7\u00e3o no mesmo ano pela Editora Arc\u00e1dia. Em 2017, a editora goesa Goa 1556 lan\u00e7ou a tradu\u00e7\u00e3o inglesa do romance sob o t\u00edtulo <em>The Sign of Wrath<\/em>. Tradu\u00e7\u00f5es de excertos dessa obra aparecem tamb\u00e9m nos livros <em>Pivoting on the Point of Return: Modern Goan Literature<\/em>, editado por Peter Nazareth em 2010, e <em>Ferry Crossing: Short Stories from Goa<\/em>, editado por Manohar Shetty em 1998.<\/p>\n<p>Em 1964, foi a vez de o romance <em>Podem chamar-me Eur\u00eddice&#8230;<\/em> ser atingido pela censura \u00abdada a sua \u00edndole acentuadamente revolucion\u00e1ria e o despudor que o caracterizam\u00bb (Relat\u00f3rio de censura, 13-2-1965). Pelo contr\u00e1rio, o drama em tr\u00eas atos <em>Sem flores, nem coroas<\/em>, publicado em 1971, conseguiu escapar ao l\u00e1pis azul. A pe\u00e7a, originariamente intitulada <em>Requiem por um civil<\/em>, \u00e9 um drama familiar que se d\u00e1na \u00faltima noite dos portugueses na \u00cdndia, nas v\u00e9speras da chegada a Goa do ex\u00e9rcito da Uni\u00e3o Indiana a dia 18 de dezembro 1961. Em 2017, foi publicada a sua tradu\u00e7\u00e3o inglesa <em>No Flowers, No Wreaths<\/em>, enquanto em janeiro de 2020, a pe\u00e7a foi levada pela primeira vez ao palco pela encenadora Fernanda Lapa. Em 1973, junto com outras personalidades do panorama portugu\u00eas, Costa fundou a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Escritores, da qual integrou a dire\u00e7\u00e3o em 1983, 1985 e 1988. Em 1979 reuniu toda a sua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica no livro <em>Canto civil<\/em>, o qual junta os tr\u00eas livros de poesia censurados na d\u00e9cada de 50 com poemas in\u00e9ditos, recolhidos sob o t\u00edtulo <em>O cora\u00e7\u00e3o e o tempo<\/em>. Em 1984, publicou a pe\u00e7a <em>A como est\u00e3o os cravos hoje?<\/em>, uma conversa entre tr\u00eas homens num cemit\u00e9rio, que se d\u00e1 na noite entre 24 e 25 de abril de 1974. Apesar de a pe\u00e7a n\u00e3o ter sido encenada, foi premiada no Concurso de textos originais para teatro da companhia Seiva Trupe do Porto.<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia pol\u00edtica de Orlando da Costa durante o salazarismo fez com que fosse afastado do ensino p\u00fablico e particular, campo em que trabalhou por um breve per\u00edodo em juventude. Por causa disso, virou-se para o mundo da publicidade, onde exerceu ao longo da vida toda. Depois da publica\u00e7\u00e3o de <em>A como est\u00e3o os cravos hoje?<\/em>, abrandou a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria sem, por\u00e9m, abandonar o cen\u00e1rio p\u00fablico. Em 1994 publicou <em>Os netos de Norton<\/em>, inspirado nas experi\u00eancias dos estudantes ultramarinos que se organizaram \u00e0 volta da CEI, na d\u00e9cada de 50. A dez anos de dist\u00e2ncia da publica\u00e7\u00e3o da sua \u00faltima obra, e a trinta anos do seu \u00faltimo romance, Orlando da Costa regressou ao p\u00fablico com um livro sobre a sua gera\u00e7\u00e3o. Sobre isso, o escritor confessou numa entrevista de 1994: \u00abO livro n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o de ser geracional, mas a certa altura descobri uma coisa que foi importante na minha vida e isso determinou a refer\u00eancia geracional: foi a experi\u00eancia da Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio. E percebi o que \u00e9 que o livro ia ser\u00bb (Costa 1994: s.p.). A escrita de <em>Os netos de Norton<\/em> come\u00e7ou em 1971 e foi lenta e sofrida, devido tamb\u00e9m ao abalo emocional causado por uma viagem a Goa em 1974 \u2013 ap\u00f3s vinte e sete anos de aus\u00eancia \u2013, que o levou a come\u00e7ar outro romance ambientado na \u00cdndia logo no regresso a Lisboa. Essa fase criativa <em>indiana<\/em> iniciada em 1974 terminou apenas em 2000 com a publica\u00e7\u00e3o do romance de forma\u00e7\u00e3o <em>O \u00faltimo olhar de Man\u00fa Miranda<\/em>. Nesse sentido, a escrita dos dois romances foi-se alternando durante mais de duas d\u00e9cadas, tendo-se influenciado reciprocamente. Apesar de o pr\u00f3prio Costa considerar <em>O \u00faltimo olhar de Man\u00fa Miranda<\/em> o livro que fecha a sua trilogia goesa iniciada em 1961, esta obra liter\u00e1ria ganha maior sentido se lida em contraponto com <em>Os netos de Norton<\/em>. Sendo um inspirado na sua juventude na metr\u00f3pole, e o outro na juventude que poderia ter vivido na col\u00f3nia, os dois romances s\u00e3o representativos de \u00abeste duplo enraizamento, aparentemente dadivoso\u00bb (Costa, 1985, 22) mas \u00abindomavelmente trai\u00e7oeiro\u00bb (Costa, 1985, 22) que caracteriza a literatura deste escritor diasp\u00f3rico.<\/p>\n<p>Em outubro 2000, o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira organizou a exposi\u00e7\u00e3o documental <em>Os olhos sem fronteira<\/em>, exibindo a produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica completa do escritor, bem como uma sele\u00e7\u00e3o de fotografias pessoais. A este museu, Costa doou parte do seu esp\u00f3lio liter\u00e1rio em maio 2000, o qual foi sucessivamente integrado pela sua biblioteca particular, doada pelos herdeiros em 2016. Orlando da Costa faleceu em Lisboa no dia 27 de janeiro de 2006, e o seu \u00faltimo livro <em>Voca\u00e7\u00f5es evoca\u00e7\u00f5es: poesia<\/em> foi publicado em 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>Como um rio que corre sem declive, os av\u00f3s morrem, os pais envelhecem, muito longe, muito al\u00e9m do alto mar, e n\u00f3s, como se n\u00e3o d\u00e9ssemos por nada, para al\u00e9m do luto distante e passageiro, tecendo com os meses e os anos di\u00e1logoso fortuitos e inacabados, olhando no espelho a primeira ruga sem sobressalto como se j\u00e1 estivesse tra\u00e7ada no rosto desde a adolesc\u00eancia. E tudo acontece com impune naturalidade na inf\u00e2ncia e parece continuar a acontecer a menos que algo de violento preceda o dia amanh\u00e3, como partir da terra para a metr\u00f3pole ou regressar sem vit\u00f3ria ao cais de partida. (<em>Os netos de Norton<\/em>, 1994: 123)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Funde\u00e1mos antes do sol se p\u00f4r, junto ao cais do velho porto de Mormug\u00e3o, soterrado por toneladas de min\u00e9rio, donde um dia eu partira sem remorso, numa despedida de ideais e com o frescor dos dezoito anos, desconhecendo as dolorosas e equ\u00edvocas ansiedades dos regressos tardios e, sobretudo, ignorando o s\u00fabito temor que, em cada dia de viagem a partir do mar Vermelho, se foi em mim acumulando, de n\u00e3o encontrar, \u00e0 chegada, entre os sobreviventes da minha gera\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m que me reconhecesse ou a quem eu me pudesse dirigir numa das duas l\u00ednguas da minha inf\u00e2ncia: um sonho t\u00e3o real e alucinante em que, para seguir o caminho at\u00e9 \u00e0 minha casa, onde me esperava florida a eterna velha \u00e1rvore de <em>champ\u00e1<\/em>, eu era obrigado a pensar at\u00e9 ao arrependimento que a minha longa aus\u00eancia fora o pecado respons\u00e1vel pela mudan\u00e7a de todos os trajectos do labirinto da minha identidade. (<em>Os netos de Norton<\/em>, 1994: 267-268)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante a longa viagem solit\u00e1ria escreveu uma igualmente longa carta ao sobrinho, onde entre outras coisas, repetia o que lhe dissera na conversa que tinham tido, a s\u00f3s, na v\u00e9spera da sua partida e que se resumia no seguinte: se ele quisesse continuar os estudos em Portugal, que fosse para Coimbra ou Lisboa para se fazer doutor em leis; de contr\u00e1rio, que viesse at\u00e9 \u00c1frica experimentar a sua sorte e p\u00f4r \u00e0 prova as suas capacidades e vontade de se fazer um homem com futuro, sem se sentir t\u00e3o desenraizado como iria, certamente, acontecer, se preferisse ir para a metr\u00f3pole, porque em Mo\u00e7ambique havia tantos goeses e de quase todas as castas, que o fariam em muitas e muitas circunst\u00e2ncias sentir-se em casa. (<em>O \u00faltimo olhar de Man\u00fa Miranda<\/em>, 2000: 140)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8230;debato-me com muita frequ\u00eancia na escolha das minhas viv\u00eancias: como sabe, h\u00e1 na minha produ\u00e7\u00e3o de ficcionista e dramaturgo, dois espa\u00e7os socio-geogr\u00e1ficos diferenciados \u2013 a \u00cdndia, da minha inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e juventude, e Portugal, onde fiz dos vinte aos cinquenta um percurso calejado de adulto e penso que de certo modo rico. Porque n\u00e3o provinciano; diversificadamente humano; seriamente militante; alegramente bo\u00e9mio. Ora bem, este duplo enraizamento, aparentemente dadivoso \u00e9 indomavelmente trai\u00e7oeiro, garanto-lhe. (Entrevista de Armando Baptista-Bastos para o <em>Di\u00e1rio Popular<\/em> publicada no dia 31 julho de 1985, em ocasi\u00e3o da 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o de <em>Podem chamar-me Eur\u00eddice<\/em>&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sempre me senti consciente dessas ra\u00edzes e isso, de certo modo, colocou-me na sociedade portuguesa numa posi\u00e7\u00e3o de ter sempre presente a import\u00e2ncia da diferen\u00e7a. Fui desde a minha adolesc\u00eancia um indian\u00f3filo, o que, reconhe\u00e7o, abafava o que se poderia chamar a identidade goesa. Nesse sentido, a import\u00e2ncia civilizacional da \u00cdndia contribu\u00eda para um verdadeiro orgulho, que, no entanto, me parecia afectado pelo facto de ser go\u00eas, isto \u00e9, representante de uma comunidade culturalmente h\u00edbrida e historicamente fragilizada, sujeita a influ\u00eancias de uma cultura importada europeia ou melhor, europeizante, mais concretamente portuguesa que, a bem dizer, foi mais redutora do que amplificadora, sobretudo se abstrairmos a import\u00e2ncia positiva e negativa do Cristianismo. (Entrevista de Eufemiano Jes\u00fas de Miranda realizada em 1988 e publicada em 2012 no livro <em>Oriente e Ocidente na literatura goesa: realidade, fic\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o<\/em>, Salig\u00e3o, Goa 1556: 138)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Costa, Orlando da (1951), <em>A estrada e a voz<\/em>. Lisboa, Centro Bibliogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1953), <em>Os olhos sem fronteira<\/em>. Lisboa, Centro Bibliogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1955), <em>Sete odes do canto comum<\/em>. Lisboa, Centro Bibliogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1961), <em>O signo da ira<\/em>. Lisboa, Arc\u00e1dia.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1964), <em>Podem chamar-me Eur\u00eddice<\/em>&#8230; Lisboa, Arc\u00e1dia.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1971), <em>Sem flores nem coroas: pe\u00e7a em tr\u00eas actos<\/em>. Lisboa, Seara Nova.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1979), <em>Canto civil<\/em>. Lisboa, Caminho.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1984), <em>A como est\u00e3o os cravos hoje?: pe\u00e7a em cinco quadros<\/em>. Lisboa, Ulmeiro.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (1994), <em>Os netos de Norton<\/em>. Porto, ASA.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (2000), <em>O \u00faltimo olhar de Man\u00fa Miranda<\/em>. Lisboa, \u00c2ncora.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 (2006), <em>Voca\u00e7\u00f5es evoca\u00e7\u00f5es: poesia<\/em>. Lisboa, Caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Baptista-Bastos, Armando (1985). \u00abUma hist\u00f3ria de amor entre dois crep\u00fascolos\u00bb. Recorte de imprensa do jornal <em>Di\u00e1rio Popular<\/em>, 31 de julho, 22. Esp\u00f3lio de Orlando da Costa. A15\/5.27. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira.<\/p>\n<p>Costa, Orlando da (1962). \u00abDepoimento de Orlando da Costa, pr\u00e9mio Ricardo Malheiros\u00bb, <em>Jornal de Letras e Artes<\/em>, ano I, n\u00ba 45, 8 de agosto, 1-2. Esp\u00f3lio de Orlando da Costa. A15\/5-17. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira.<\/p>\n<p>\u2013 (1975). \u201cO of\u00edcio de escrever. Resposta ao inqu\u00e9rito de <em>O Di\u00e1rio Popular<\/em>\u201d. Documento datilografado, maio de 1975. Esp\u00f3lio de Orlando da Costa. A15\/5-25. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira.<\/p>\n<p>Garmes, Helder (2014), \u00abColonialismo e conflito cultural em <em>O signo da ira<\/em> de Orlando da Costa\u00bb. In: Machado, Everton V., Braga, Duarte D. (2014). <em>Goa portuguesa e p\u00f3s-colonial: literatura, cultura e sociedade<\/em>. Lisboa, H\u00famus, pp. 237-252.<\/p>\n<p>Lepecki, Maria L\u00facia (1979), \u00abAs fronteiras da voz\u00bb. In: Costa, Orlando da. <em>Canto civil<\/em>. Lisboa, Caminho.<\/p>\n<p>Machado, Everton V. (2011), \u00abGoa na literatura indo-portuguesa\u00bb. <em>Via Atl\u00e2ntica<\/em>, v.12, n\u00ba 1, 45-56.<\/p>\n<p>Miranda, Eufemiano de Jesus (2012). <em>Oriente e Ocidente na literatura goesa: realidade, fic\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o<\/em>, Salig\u00e3o, Goa 1556.<\/p>\n<p>Rodrigues, M. Filomena de Brito Gomes, (2019), \u00ab<em>Sem Flores nem Coroas<\/em>: Reflections on the Play by Orlando da Costa\u00bb. In: Castro, Paul Melo e, <em>Colonial and Postcolonial Goan Literature in Portuguese: Wowen Palms<\/em>. Cardiff, University of Wales Press, pp. 197-213.<\/p>\n<p>Santos, M\u00e1rio (1994). \u00abEu deveria ter escrito mais livros\u00bb. Recorte de imprensa do jornal <em>P\u00fablico<\/em>, 9 de abril. Esp\u00f3lio de Orlando da Costa. A15\/5-33. Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira.<\/p>\n<p>Spina, Daniela (2019),<em> \u00ab<\/em>Indianidade e indianiza\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria num texto cr\u00edtico de Orlando da Costa\u00bb. <em>V\u00e9rtice<\/em>, Julho-Setembro 2019, 25-35.<\/p>\n<p>Torres, Alexandre Pinheiro (1985), \u00abOs imprescind\u00edveis nexos mito-realidade e morte-transfigura\u00e7\u00e3o\u00bb. In: Costa, Orlando da. <em>Podem chamar-me Eur\u00eddice<\/em>&#8230; Lisboa, Ulmeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abUma biografia \u00e9 feita de nomes, porque \u00e9 feita de pessoas e nunca de uma s\u00f3\u00bb (Costa 1979: s.p.). Esta cita\u00e7\u00e3o de Orlando da Costa \u00e9 emblem\u00e1tica de como a sua obra liter\u00e1ria resultou de uma grande experi\u00eancia coletiva, em que ambos \u00abeu l\u00edrico\u00bb e \u00abeu narrativo\u00bb se confundem e cedem espa\u00e7o ao canto comum&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/orlando-da-costa\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1066,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1065"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1065"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1066"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1060,"date":"2025-04-07T23:48:30","date_gmt":"2025-04-07T23:48:30","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1060"},"modified":"2025-04-08T00:09:52","modified_gmt":"2025-04-08T00:09:52","slug":"isabela-figueiredo","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/isabela-figueiredo\/","title":{"rendered":"Isabela Figueiredo"},"content":{"rendered":"<p>Isabela Figueiredo nasceu na cidade de Louren\u00e7o Marques, atual Maputo, capital de Mo\u00e7ambique, em 1963. Filha de portugueses, migrou para Portugal aos 12 anos, em 1975, ano da independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique. Licenciada em L\u00ednguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses), na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, foi professora de portugu\u00eas no ensino secund\u00e1rio e especializou-se em Estudos sobre as Mulheres na Universidade Aberta. Entre 1988 e 1994, Isabela Figueiredo exerceu a atividade de jornalista no <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>, coordenando o suplemento <em>DN Jovem<\/em>. <\/p>\n<p>A partir de 2005, o trabalho de escrita no blogue <em>O mundo perfeito<\/em> apresenta as primeiras reflex\u00f5es de Isabela Figueiredo sobre quest\u00f5es referentes \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa em \u00c1frica, \u00e0 sua inf\u00e2ncia em Mo\u00e7ambique e posterior migra\u00e7\u00e3o para Portugal, temas que seriam desenvolvidos posteriormente em dois romances: <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> (2009) e <em>A gorda<\/em> (2016). Ainda em 2009 iniciou um novo blogue, chamado <em>Novo Mundo<\/em>, em atividade at\u00e9 2022, ano em que a autora publica tamb\u00e9m seu \u00faltimo romance at\u00e9 ent\u00e3o, <em>Um c\u00e3o no meio do caminho<\/em>, narrativa que se distancia dos livros anteriores, mas que ainda traz quest\u00f5es referentes \u00e0 sociedade portuguesa p\u00f3s-25 de abril, como por exemplo a condi\u00e7\u00e3o dos \u201cretornados\u201d e da emigra\u00e7\u00e3o de portugueses para outros pa\u00edses da Europa ou mesmo para Angola. <\/p>\n<p><em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> projeta o nome de Figueiredo no cen\u00e1rio da literatura portuguesa contempor\u00e2nea, j\u00e1 bastante atravessado por obras que abordavam a Guerra Colonial, a descoloniza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios africanos e a condi\u00e7\u00e3o dos retornados. No entanto, a narrativa de Figueiredo trouxe novas problematiza\u00e7\u00f5es para tais temas, n\u00e3o sem pol\u00eamicas diante de um p\u00fablico leitor acostumado a uma vers\u00e3o, em alguma medida, branda acerca dos retornados e do drama dos anos finais da coloniza\u00e7\u00e3o e do processo migrat\u00f3rio para Portugal. A autora pareceria prever a rea\u00e7\u00e3o de parte dos leitores, tendo em vista que <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> traz a ideia de trai\u00e7\u00e3o como um elemento estruturante do pr\u00f3prio ato da escrita. Contar aquela hist\u00f3ria, ou uma outra vers\u00e3o da hist\u00f3ria, ou ainda uma verdade diferente daquela transmitida pelos seus pais, era uma trai\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o autobiogr\u00e1fica da narrativa, centrada na inf\u00e2ncia da menina branca em Louren\u00e7o Marques, explorando a dualidade da figura paterna \u2013 pai amoroso e colonizador impiedoso \u2013 foi elemento crucial para a recep\u00e7\u00e3o da obra. Afinal, como poderia uma filha dedicar um livro \u00e0 mem\u00f3ria do pai e ainda descrev\u00ea-lo daquela forma? No entanto, o processo de rememora\u00e7\u00e3o e enfrentamento do passado significava tamb\u00e9m confrontar a imagem do pai, como homem e como agente da coloniza\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>A narrativa atravessa a \u00faltima d\u00e9cada da Guerra Colonial\/Guerra pela Independ\u00eancia em Mo\u00e7ambique e a viagem da narradora para Portugal, considerada retornada, apesar do seu sentimento de desterro. Esta perspectiva tamb\u00e9m configura uma abordagem que encara outra dualidade: a do sentimento de perten\u00e7a. Afinal, nascera em Mo\u00e7ambique, nunca havia estado em Portugal, viaja sozinha, j\u00e1 que os pais n\u00e3o retornam no primeiro momento. Quais sentimentos deveria ter sobre a nova terra, tratada pelos outros como lugar j\u00e1 conhecido por ela? Com a proximidade da viagem, \u00e9 evidente que a preocupa\u00e7\u00e3o dos pais \u00e9 ensin\u00e1-la a verdade a ser contada quando chegasse em Portugal. Embora aprendesse, em casa e na escola, sobre o pa\u00eds e sobre o que significava ser portuguesa, a quest\u00e3o agora seria qual verdade contar sobre \u00c1frica e sobre qual o papel que os pais (e os portugueses) desempenhavam no territ\u00f3rio. A narradora n\u00e3o assume a fun\u00e7\u00e3o de portadora da mensagem dos pais, por isso sente seu corpo em guerra: \u201cO meu corpo foi uma guerra, era uma guerra, comprou todas as guerras\u201d (2011, p. 127); e a sua escrita como trai\u00e7\u00e3o: \u201cE toda a minha verdade \u00e9 para eles uma trai\u00e7\u00e3o\u201d (2011, p. 131).<\/p>\n<p>Se houve uma por\u00e7\u00e3o de esc\u00e2ndalo, tamb\u00e9m houve um significativo sucesso, que levou a obra a ser traduzida, para o alem\u00e3o (2019) e para o franc\u00eas (2021), por exemplo, a receber o Prix des Lecteurs du festival de Litt\u00e9rature europ\u00e9enne de Cognac, em 2022. O livro foi tamb\u00e9m publicado no Brasil, onde a escritora participou da Feira Liter\u00e1ria Internacional de Paraty em 2018 e se tornou objeto de in\u00fameros trabalhos acad\u00eamicos. Em 2015, <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> ganhou uma nova edi\u00e7\u00e3o, revista e aumentada.<\/p>\n<p>Transpondo a dimens\u00e3o autobiogr\u00e1fica evidente em <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em>, Figueiredo publica em 2016 o romance <em>A gorda<\/em>. Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Urbano Tavares Rodrigues, foi tamb\u00e9m traduzido para o alem\u00e3o (2021) e para o franc\u00eas (2023), e publicado no Brasil em 2018. O livro, em muitos aspectos, dialoga com a obra anterior. Apesar de a narrativa de A gorda ser desenvolvida a partir da cirurgia bari\u00e1trica da personagem Maria Lu\u00edsa, o fato de a narradora-personagem ser tamb\u00e9m uma retornada, al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o estabelecida com os pais, mant\u00e9m o universo liter\u00e1rio da autora no \u00e2mbito das quest\u00f5es diasp\u00f3ricas que envolvem o fim da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa na \u00c1frica. <\/p>\n<p>Se <em>Caderno<\/em> tinha sido dedicado ao pai, <em>A gorda<\/em> \u00e9 dedicado \u00e0 m\u00e3e. A rela\u00e7\u00e3o entre Maria Lu\u00edsa e a m\u00e3e \u00e9 conturbada em muitos aspectos, h\u00e1 novamente uma admira\u00e7\u00e3o pela figura paterna que, tempos depois do regresso de Mo\u00e7ambique, adoece e morre, deixando a esposa e a filha a dividir um apartamento cheio de mem\u00f3rias daquela outra terra. Dos embates geracionais, atravessados tamb\u00e9m pelas divergentes perspectivas sobre o Imp\u00e9rio j\u00e1 evidentes em <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em>, dos julgamentos maternos sobre o corpo da filha, das dificuldades de conviv\u00eancia, sobressai o reconhecimento de Maria Lu\u00edsa de que era a m\u00e3e a verdadeira for\u00e7a da fam\u00edlia. <\/p>\n<p>Dentre as dificuldades da rela\u00e7\u00e3o familiar \u00e9 evidente que os diferentes momentos de \u201cretorno\u201d criaram um distanciamento entre os pais e a filha. Maria Lu\u00edsa, assim como a narradora do <em>Caderno<\/em>, \u00e9 enviada para Portugal ap\u00f3s a independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique, onde seus pais ainda permanecem. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel perceber as dificuldades da adolescente que chega a um Portugal desconhecido, onde \u00e9 tratada como retornada e, consequentemente, aproximada daqueles que teriam uma origem comum \u00e0 sua, como \u00e9 o caso da colega de escola Tony, vinda de Angola pouco tempo depois, tamb\u00e9m sem os pais que por l\u00e1 ficaram. Ambas comungam o sentimento de desterro, apesar de diferen\u00e7as significativas. Com o retorno dos pais, o espa\u00e7o da casa \u00e9 preenchido pelas mem\u00f3rias da outra terra, um mobili\u00e1rio que para Maria Lu\u00edsa possui um ar tropical, completamente destoante de Portugal e da realidade atual da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> a quest\u00e3o dos retornados s\u00f3 aparecer\u00e1 mais ao final do livro, uma vez  que acompanhamos as mem\u00f3rias da narradora desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 o momento da prepara\u00e7\u00e3o da viagem e a sua chegada a Portugal. J\u00e1 em <em>A gorda<\/em>, que come\u00e7a a partir da vida adulta e da cirurgia bari\u00e1trica de Maria Lu\u00edsa e apresenta recuos ao in\u00edcio da sua adolesc\u00eancia, vemos a condi\u00e7\u00e3o de retornada de forma mais expl\u00edcita, sobretudo na experi\u00eancia escolar. No entanto, entre alguns elementos comuns nas duas narrativas, h\u00e1 um espa\u00e7o nas resid\u00eancias portuguesas que chama a aten\u00e7\u00e3o: a exist\u00eancia de um s\u00f3t\u00e3o onde s\u00e3o guardados os resqu\u00edcios da vida em Mo\u00e7ambique. O s\u00f3t\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o ao qual a narradora do <em>Caderno<\/em> recorre para escrever e onde Maria Lu\u00edsa encontra recorda\u00e7\u00f5es de um tempo findo. <\/p>\n<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o dos dois romances, a aus\u00eancia no mercado editorial criou a expectativa acerca do caminho a ser seguido pela escritora em um pr\u00f3ximo livro. Permaneceria trabalhando uma perspectiva autobiogr\u00e1fica\/autoficcional voltada para o contexto em torno da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos e da descoloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica? <\/p>\n<p>Em 2022, ap\u00f3s sete anos de hiato, Isabela Figueiredo publicou <em>Um c\u00e3o no meio do caminho<\/em>. Embora, de forma muito evidente, o romance se afaste dos temas tratados nas obras anteriores, especialmente dado o significativo distanciamento de aspectos autobiogr\u00e1ficos\/autoficcionais, alguns elementos da sociedade portuguesa p\u00f3s-25 de abril t\u00eam o seu lugar. As hist\u00f3rias de solid\u00e3o de dois vizinhos, Jos\u00e9 Viriato e Beatriz, cruzam-se em 2018 e a perspectiva em primeira pessoa, conduzida pela voz do primeiro, \u00e9 respons\u00e1vel por dar a conhecer sobretudo a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m a do encontro entre os dois. Jos\u00e9 Viriato vive com seus dois c\u00e3es, Revolu\u00e7\u00e3o e Nossa Senhora, e trabalha garimpando lixo e vendendo os objetos recolhidos na Feira da Ladra. Beatriz vive s\u00f3, cercada por um incont\u00e1vel n\u00famero de caixas que guardam todos os tipos de coisas, pequenas heran\u00e7as da m\u00e3e, fotografias que fez ao longo da vida, retalhos de tecidos etc.  <\/p>\n<p>Grande parte do livro \u00e9 formada pelas retrospectivas da inf\u00e2ncia de Jos\u00e9 Viriato, que mostram um Portugal logo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, mas sem grandes enfoques em epis\u00f3dios hist\u00f3ricos. No entanto, o recorte temporal p\u00f3s-74 traz inevitavelmente a imagem dos retornados, que atravessa a vizinhan\u00e7a e a escola do ent\u00e3o garoto com 11\/12 anos. Tratados exclusivamente como grupo, os retornados n\u00e3o possuem qualquer individualidade ou subjetividade no romance, s\u00e3o sobretudo as crian\u00e7as da escola de Jos\u00e9 Viriato, que tiram notas ruins e t\u00eam p\u00e9ssimo comportamento, descritos como agressivos, mas de quem o menino se aproxima na tentativa de resgatar um c\u00e3o machucado. O \u00f3dio aos retornados surge nas considera\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Viriato, sobretudo a partir das palavras do seu pai, revisor de textos em um jornal, membro do PCP, personagem respons\u00e1vel pelas refer\u00eancias mais pol\u00edticas do romance, que considerava os retornados uns fascistas que exploraram os africanos. <\/p>\n<p>No entanto, para al\u00e9m da refer\u00eancia direta aos retornados e \u00e0 forma como a sociedade portuguesa enxergava neles a origem dos males contempor\u00e2neos, <em>Um c\u00e3o no meio do caminho<\/em> tamb\u00e9m aborda as fragmenta\u00e7\u00f5es familiares resultantes da migra\u00e7\u00e3o de portugueses para outros espa\u00e7os. O pai de Beatriz abandonou a fam\u00edlia e migrou para a Fran\u00e7a, voltando somente para assinar o div\u00f3rcio; o pai de Jos\u00e9 Viriato, ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o e a morte da ex-esposa, deixa o filho com a av\u00f3 materna e vai para Angola, onde morre pouco depois; j\u00e1 a filha de Florinda, vizinha da av\u00f3 de Jos\u00e9 Viriato, havia migrado para a Su\u00ed\u00e7a, deixando a filha C\u00e1tia aos cuidados tamb\u00e9m da av\u00f3. Hist\u00f3rias de tentativas de mudan\u00e7a de vida, todas com o peso de deixar algu\u00e9m, marcadas por abandonos e, sobretudo, que resultam em uma lacuna geracional em Portugal, filhos que cresceram longe dos pais, criados pelos av\u00f3s. <\/p>\n<p>Com a publica\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo livro, a escrita de Isabela Figueiredo n\u00e3o se afasta do recorte temporal p\u00f3s-25 de abril que marcou as obras anteriores. No entanto, ao distanciar-se de mem\u00f3rias espec\u00edficas que envolviam o movimento Mo\u00e7ambique-Portugal e evidenciavam din\u00e2micas familiares extremamente afetadas pelo contexto do \u201cretorno\u201d, Isabela Figueiredo destaca a solid\u00e3o de uma sociedade ainda bastante fechada. A desestrutura\u00e7\u00e3o familiar consequ\u00eancia, dentre v\u00e1rios motivos, tamb\u00e9m pela migra\u00e7\u00e3o, permanece como um tema e, se n\u00e3o podemos olhar Portugal e a literatura portuguesa contempor\u00e2nea apenas pelo recorte da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos e do contexto mais amplo que o envolve, tampouco \u00e9 poss\u00edvel ignorar os v\u00e1rios segmentos da sociedade portuguesa afetados por essa hist\u00f3ria recente. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>Quando o avi\u00e3o tomou altura houve dentro da cabina um sil\u00eancio fundo sobre a ba\u00eda de Louren\u00e7o Marques, os sub\u00farbios, as palhotas, as terras de cultivo, o mato que vi enquanto sub\u00edamos.<br \/>\n\tEm sil\u00eancio, mas num sil\u00eancio ainda mais fundo, porque afinal j\u00e1 era uma mulher, voltei a chorar o que perdia e haveria de pagar. A d\u00edvida alheia que me caberia.<br \/>\n\tNunca entreguei a mensagem de que fui portadora. (<em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em>: 105-111)<\/p>\n<p>Maputo\/Lisboa, voo TAP, via Senegal.<br \/>\n\tLembro a data em que desembarquei sozinha no aeroporto de Lisboa, pelas seis da manh\u00e3 de um dia no final de novembro de 1975. Estava muito frio, e eu gelava. Mas esse n\u00e3o foi o dia mais frio do inverno de 75; se bem me recordo, essa esta\u00e7\u00e3o foi especialmente rigorosa.<br \/>\n\tPassada a alf\u00e2ndega, bem agasalhada no meu casado de l\u00e3 verde-alface, que pertencera \u00e0 minha tia nos anos 50, e fora \u00e0 pressa adaptado ao meu corpo, desci uma passadeira longa e curva que me levaria at\u00e9 pessoas que desconhecia, mas que me esperavam \u2013 a fam\u00edlia dos meus pais.<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\nEm Portugal, habitei-me cedo a ser alvo de tro\u00e7a ou de rid\u00edculo, por ser retornada ou por me vestir de vermelho ou lil\u00e1s. [&#8230;] (<em>idem<\/em>: 119)<\/p>\n<p>Quando regressaram, os pap\u00e1s n\u00e3o conceberam a ideia de voltar \u00e0s terras onde tinham nascido, porque haviam conhecido demasiado mundo para conseguir estabelecer-se na prov\u00edncia. Isto nunca se disse, mas estava impl\u00edcito. Tinham-me mandado para Portugal em 1975, imediatamente ap\u00f3s a independ\u00eancia, e, como eu fora acabar a minha solit\u00e1ria excurs\u00e3o na Cova da Piedade, em casa da tia Maria da Luz, n\u00e3o foram mais longe. A Outra Banda era o bra\u00e7o direito da capital, descontra\u00edda e multicultural como a Louren\u00e7o Marques dos remediados, donde vieram. Por isso compraram aqui a casa onde acabaram os seus dias, e na qual vivo. Foi o Destino, ao qual ningu\u00e9m foge, nem os pr\u00f3prios deuses. (<em>A gorda<\/em>: 25)<\/p>\n<p>A selva da mam\u00e3 transcendia a minha escassa toler\u00e2ncia est\u00e9tica. Considerava-a uma pessoa de prolixo mau gosto, antiquada e assaloia. Tinha vergonha do tropicalismo e desdenhava a casa, destilando a minha raiva em sugest\u00f5es desagrad\u00e1veis sobre o seu aspeto, com secura e amargor. N\u00e3o se podia negar que eu tinha nascido em Mo\u00e7ambique, que estava impregnada desses coloridos ares do sul, mas todos os meus amigos eram portugueses, e entre n\u00f3s n\u00e3o se falava de \u00c1frica, que tinha ficado para tr\u00e1s. Odiava os pap\u00e1s acabados de chegar de Mo\u00e7ambique. [&#8230;] Parecia-me tudo gente congelada no tempo e na ideologia, incapaz de se adaptar, esquecer, permanecer e avan\u00e7ar. (<em>A gorda<\/em>: 60)<\/p>\n<p>Os retornados da minha turma vinham mais atr\u00e1s, no carreiro, na algazarra do costume. Evitava-os. Andavam em grupo e s\u00f3 arranjavam sarilhos. Achavam-se melhores do que toda a gente. Chamavam-nos saloios. Diziam que j\u00e1 tinham isto tudo e que at\u00e9 sabiam matar. [&#8230;] Se alguma coisa desaparecia, se uma l\u00e2mpada aparecia partida tinham sido os sacanas dos retornados. Os adultos diziam que eles andavam de barriga cheia e n\u00e3o tinham respeito por nada. Tinham vindo para Portugal roubar trabalho e oportunidades. O Estado dava-lhes alojamento e subs\u00eddios a que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos direito. Tudo para quem j\u00e1 vinha do bem-bom das \u00c1fricas. O meu pai n\u00e3o gostava deles. (<em>A gorda<\/em>: 121)<\/p>\n<p>A minha opini\u00e3o sobre os retornados era f\u00e1cil de explicar: eram portugueses que tinham vindo para Portugal, mas que na verdade eram africanos. Falavam um belo portugu\u00eas pejado de palavras que tinham trazido de \u00c1frica, e comiam a mesma comida, mas n\u00e3o eram como n\u00f3s. Tinham camisas feitas com tecidos em fantasia, \u00e9tnicos, gostavam de comida picante e passavam a vida a falar de uma bebida que se chamava coca-cola. Detestavam Portugal e os portugueses, dos quais diziam mal a torto e a direito. Os portugueses eram fracos, cobardes e encolhidos. Eles eram decididos, confiantes e orgulhosos, apesar das dificuldades tempor\u00e1rias em que se encontravam. (<em>A gorda<\/em>: 158)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Figueiredo, Isabela (2011), <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em>. Coimbra, Angelus Novus.<\/p>\n<p>&#8212; (2015), <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> (edi\u00e7\u00e3o revista e aumentada). Alfragide, Editorial Caminho.<\/p>\n<p>&#8212; (2016), <em>A gorda<\/em>. Alfragide, Editorial Caminho.<\/p>\n<p>&#8212; (2022), <em>Um c\u00e3o no meio do caminho<\/em>. Alfragide, Editorial Caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Amaral, Ana Lu\u00edsa (2017). \u201cA Gorda\u201d. <em>Revista Col\u00f3quio\/Letras<\/em>. Recens\u00f5es Cr\u00edticas, no. 196: 241-244.<\/p>\n<p>Franco, Roberta Guimar\u00e3es (2021), \u201cDo corpo-escrita ao corpo-casa: o Quarto-Imp\u00e9rio e o S\u00f3t\u00e3o-Mem\u00f3ria em Isabela Figueiredo\u201d, in Roberta Guimar\u00e3es Franco e Angelo Adriano Faria de Assis (org.),<em> Narrativas em tempos de crise<\/em>. Vi\u00e7osa, UFV, Divis\u00e3o Gr\u00e1fica Universit\u00e1ria: 162-175.<\/p>\n<p>Franco, Roberta Guimar\u00e3es (2018), \u201cPortugalidade e p\u00f3s-mem\u00f3ria: configura\u00e7\u00f5es e desconstru\u00e7\u00e3o da identidade portuguesa no s\u00e9culo XXI\u201d, in Laura Barbosa Campos, Silvina Carrizo e Pedro Armando Magalh\u00e3es (org.), <em>(P\u00f3s-)Mem\u00f3ria e transmiss\u00e3o na literatura contempor\u00e2nea<\/em>. Rio de Janeiro: ABRALIC: 153-166.<\/p>\n<p>Chiziane, Paulina (2015), \u201cSobre Caderno de mem\u00f3rias coloniais\u201d, in Isabela Figueiredo, <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> (edi\u00e7\u00e3o revista e aumentada). Alfragide, Editorial Caminho.<\/p>\n<p>Gil, Jos\u00e9 (2015). \u201cSobre Caderno de mem\u00f3rias coloniais\u201d in Isabela Figueiredo, <em>Caderno de mem\u00f3rias coloniais<\/em> (edi\u00e7\u00e3o revista e aumentada). Alfragide, Editorial Caminho.<\/p>\n<p>Jorge, S\u00edlvio Renato (2015). \u201cAs fotografias de um caderno: passeio pelas mem\u00f3rias coloniais de Isabela Figueiredo\u201d. <em>Metamorfoses \u2013 Revista de Estudos Liter\u00e1rios Luso-Afro-Brasileiros<\/em>. Rio de Janeiro, Vol. 13, n. 2: 54-64.<\/p>\n<p>Ribeiro, Margarida Calafate (2004), <em>Uma hist\u00f3ria de regressos \u2013 Imp\u00e9rio, Guerra Colonial, P\u00f3s-colonialismo<\/em>. Porto: Afrontamento. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabela Figueiredo nasceu na cidade de Louren\u00e7o Marques, atual Maputo, capital de Mo\u00e7ambique, em 1963. Filha de portugueses, migrou para Portugal aos 12 anos, em 1975, ano da independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique. Licenciada em L\u00ednguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses), na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, foi professora de portugu\u00eas&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/isabela-figueiredo\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1062,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1060"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1056,"date":"2025-04-07T23:34:08","date_gmt":"2025-04-07T23:34:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1056"},"modified":"2025-04-10T13:34:10","modified_gmt":"2025-04-10T13:34:10","slug":"luciana-fina","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/luciana-fina\/","title":{"rendered":"Luciana Fina"},"content":{"rendered":"<p>Luciana Fina \u00e9 italiana (nasceu em Bari), mas vive e trabalha em Lisboa desde 1991. Ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o em Literaturas Rom\u00e2nicas, foi programadora independente na Cinemateca a partir de 1993 e durante duas d\u00e9cadas. Fina \u00e9 uma documentarista e v\u00eddeo-artista que cruza a arte cinematogr\u00e1fica com as artes visuais, encontrando na migra\u00e7\u00e3o o fulcro do sua labor. Foi professora convidada na Ar.co, onde lecionou Hist\u00f3ria(s) do Cinema e atualmente \u00e9 investigadora de doutoramento na \u00e1rea das Artes da Imagem em Movimento, no Centro de Investiga\u00e7\u00e3o e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA) da Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa.<\/p>\n<p>Desde o seu primeiro document\u00e1rio <em>A audi\u00eancia<\/em> (1998), a realizadora enfocou a sua aten\u00e7\u00e3o, nas tem\u00e1ticas da margem para lembrar uma express\u00e3o de Strippoli (2023). A primeira santifica\u00e7\u00e3o de um cigano no Vaticano \u00e9, de facto, o pretexto para filmar uma fam\u00edlia cigana em Castelo Branco expondo, assim, uma dupla margem, geogr\u00e1fica e cultural. <\/p>\n<p>A primeira experi\u00eancia de instala\u00e7\u00e3o para o palco \u00e9 de 1993 com um trabalho em Super 8 denominado <em>Branco sujo<\/em> e coreografado por Jo\u00e3o Fiadeiro, mas \u00e9 s\u00f3 entre 2002 e 2004 com <em>CCM<\/em> na Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian e o tr\u00edptico <em>CHANTportraits<\/em> no Museu do Chiado que Lucina Fina inicia um percurso paralelo em exposi\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>A ideia central desenvolvida ao longo dos anos na obra de Fina \u00e9 a de fazer retratos filmados, no cinema, nas artes visuais e nas instala\u00e7\u00f5es de v\u00eddeo, onde quem filma, a cineasta, consegue conectar-se diretamente com a pessoa filmada, retratada, a partir do rosto e das suas linhas e atrav\u00e9s do trabalho e dos movimentos da c\u00e2mara. <em>CCM<\/em> (sigla de Centro Comercial da Mouraria) e <em>Chant portrait \u2013 Retrato cantado<\/em> s\u00e3o centrados, respetivamente, nos temas das migra\u00e7\u00f5es e do retrato. <\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o <em>CCM<\/em>, em colabora\u00e7\u00e3o com Moritz Elbert, foi apresentada na Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian como uma obra de <em>mixed media<\/em> que combinava 4 DVDs e uma s\u00e9rie de fotografias em formato de postais, organizadas em composi\u00e7\u00e3o mural. Aqui as numerosas comunidades que habitam a cidade de Lisboa foram capturadas, em plena atividade laboral, comercializando produtos vindos da \u00c1frica, da \u00c1sia e da Am\u00e9rica Latina. Ainda, em 2010, na varia\u00e7\u00e3o com o nome <em>CCM posto 7 \u2013 A m\u00e1quina do medo<\/em>, atrav\u00e9s das imagens em movimento das c\u00e2maras de videovigil\u00e2ncia, a artista integrou frames provenientes do mercado onde \u201ctodos os outros\u201d de Lisboa vivem o seu dia a dia, enquanto os visitantes da exposi\u00e7\u00e3o povoavam o outro ecr\u00e3, numa dualidade construtora de significados. <\/p>\n<p>Quanto ao tr\u00edptico de 2004, <em>CHANTportraits<\/em>,tratou-se de uma instala\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo em tr\u00eas canais na qual Fina retratou filmicamente tr\u00eas artistas portuguesas de diferentes gera\u00e7\u00f5es. Em tr\u00eas planos sequencias de 60 minutos, Carla Bolito (atriz de teatro), Vera Mantero (bailarina) e Isabel Ruth (atriz de cinema) cantam tr\u00eas distintas can\u00e7\u00f5es sobre o tempo. A instala\u00e7\u00e3o transformou-se em uma experi\u00eancia sobre o retrato onde se captura o olhar e a perce\u00e7\u00e3o do tempo dessas tr\u00eas mulheres.<\/p>\n<p>Em 2016, constr\u00f3i o d\u00edptico <em>Terceiro andar<\/em>, composto por um document\u00e1rio de 62 minutos e uma v\u00eddeo-instala\u00e7\u00e3o de 27 minutos onde os rostos, os espa\u00e7os e as culturas se cruzam numa ideia de movimento que atravessa um pr\u00e9dio, v\u00e1rias hist\u00f3rias de vidas e uma subtil linha de liga\u00e7\u00e3o entre a Europa, Portugal e a \u00c1frica (Guin\u00e9 Bissau). \u00c9 nesta obra de mistura, entre cinema e v\u00eddeo-instala\u00e7\u00e3o que a artista une a metodologia do retrato, j\u00e1 utilizada em <em>CHANT Portraits<\/em> com as tem\u00e1ticas da multiculturalidade e da migra\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m atravessam <em>CCM<\/em>, desta vez mostrando os rostos de duas mulheres mu\u00e7ulmanas, m\u00e3e e filha, em detalhe, acentuando com naturalidade os pormenores sociais e culturais, como maquilhagem, brincos, turbantes e vestu\u00e1rio colorido. Este d\u00edptico faz fluir no interior de um pr\u00e9dio no centro de Lisboa, no Bairro das Col\u00f3nias, n\u00e3o s\u00f3 os di\u00e1logos entre m\u00e3e e filha, mas tamb\u00e9m os ru\u00eddos de fundo, as mudan\u00e7as de luz das escadas do condom\u00ednio, pondo em evid\u00eancia alguns conceitos como comunidades diasp\u00f3ricas em cruzamento, mas tamb\u00e9m materialidades da di\u00e1spora em portugu\u00eas. Neste contexto, \u00e9 importante o movimento vertical bidirecional, de cima para baixo e vice-versa, por colocar em primeiro plano as ra\u00edzes n\u00e3o comuns. Estas experi\u00eancias marginalizadas revelam uma forte dimens\u00e3o reflexiva sobre a sociedade lisboeta em cont\u00ednua mudan\u00e7a e em cont\u00ednuo movimento, e sobretudo tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o autobiogr\u00e1fica porque estas margens tamb\u00e9m desvelam a pr\u00f3pria experi\u00eancia de Fina como italiana transplantada em Portugal.<\/p>\n<p>A perce\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o do pr\u00e9dio \u00e9 mediada por uma pluralidade de l\u00ednguas e dialetos, como o fula da Guin\u00e9-Bissau e o portugu\u00eas, que coexistem e resistem \u00e0 multitude de significados no linguajar quotidiano de Lisboa. Essa conviv\u00eancia lingu\u00edstica n\u00e3o implica uma incurs\u00e3o no mundo do outro, mas sim a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de intera\u00e7\u00e3o. O cinema surge, ent\u00e3o, como um meio que estabelece esse espa\u00e7o de di\u00e1logo entre mim e o outro, evitando qualquer invas\u00e3o. O pr\u00e9dio e as suas escadas tornam-se uma met\u00e1fora desse espa\u00e7o de interse\u00e7\u00e3o, onde os sons \u2014 como o ru\u00eddo de um pil\u00e3o e as transmiss\u00f5es de r\u00e1dio \u2014 simbolizam a comunica\u00e7\u00e3o entre realidades distintas. Aqui, a educa\u00e7\u00e3o sentimental e a transmiss\u00e3o de conhecimento acontecem por meio da tradu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas das palavras, mas das viv\u00eancias e experi\u00eancias. A experi\u00eancia de viver entre v\u00e1rias l\u00ednguas e formas de express\u00e3o reflete-se na pr\u00f3pria arquitetura sonora e cultural da cidade, representada pela riqueza dos sons e dos gestos quotidianos que se entrela\u00e7am com a quest\u00e3o, central no filme, <em>Em qual l\u00edngua \u00e9 que vamos contar as hist\u00f3rias que nos foram contadas?<\/em> <\/p>\n<p>Migrante que migra atrav\u00e9s das palavras e atrav\u00e9s das imagens, esta artista acompanha Portugal, tocando territ\u00f3rios imagin\u00e1rios atrav\u00e9s de corpos que materializam o ideal da independ\u00eancia, da luta pela liberdade e sobretudo da luta pela sobreviv\u00eancia. Fina consegue retratar m\u00faltiplos movimentos: a di\u00e1spora, neste sentido, \u00e9 o movimento de migrantes, mas tamb\u00e9m o permanecer e o mudar das l\u00ednguas e dos dialetos.<br \/>\nIndistintamente, nos seus trabalhos de arte e de cinema, Fina elabora constantemente uma constru\u00e7\u00e3o visual de fora para dentro, com a inclus\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o, da di\u00e1spora e da geografia pol\u00edtica como eventos externos que moldam as exist\u00eancias e que podem ser capturados pela c\u00e2mara atrav\u00e9s da metodologia f\u00edlmica do gesto de \u201cfilmar rostos\u201d com a t\u00e9cnica do close-up. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m s\u00e3o not\u00e1veis os trabalhos sobre os arquivos dos media. Estes trabalhos destacam-se pela forma como exploram e reinterpretam imagens hist\u00f3ricas, tanto em It\u00e1lia quanto em Portugal. Em 2021, apresentou a instala\u00e7\u00e3o <em>Andromeda<\/em> para mergulhar no universo da televis\u00e3o italiana dos anos 1960 e 1970, investigando n\u00e3o apenas o conte\u00fado dessas emiss\u00f5es, mas tamb\u00e9m o impacto cultural e social que essas imagens tiveram sobre o p\u00fablico e a sociedade da \u00e9poca. Atrav\u00e9s de uma abordagem cr\u00edtica e visualmente envolvente, <em>Andromeda<\/em> prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre a mem\u00f3ria coletiva e o papel dos media na forma\u00e7\u00e3o das identidades culturais italianas. J\u00e1 em 2024, com o document\u00e1rio <em>Sempre<\/em> exibido no Festival de Veneza, se\u00e7\u00e3o <em>Giornate degli autori<\/em>, Fina volta-se para o contexto portugu\u00eas, explorando as imagens do pa\u00eds logo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos de 1974. O filme oferece uma reflex\u00e3o profunda sobre a transi\u00e7\u00e3o de Portugal para a democracia, utilizando arquivos audiovisuais da \u00e9poca para recontar a hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de imagens carregadas de simbolismo. <\/p>\n<p>Ao tra\u00e7ar este percurso atrav\u00e9s da an\u00e1lise de algumas das obras de Luciana Fina, sublinha-se uma coer\u00eancia estrutural que sempre inclui a \u00edntima experi\u00eancia da realizadora como ponto de partida para um olhar expandido que n\u00e3o pode ficar expressado s\u00f3 numa tipologia concreta de arte (o v\u00eddeo-ensaio, o document\u00e1rio e a v\u00eddeo instala\u00e7\u00e3o). A sua obra frequentemente dialoga com temas de deslocamento e perten\u00e7a, refletindo sobre a di\u00e1spora e os fluxos migrat\u00f3rios que moldam identidades individuais e coletivas.<\/p>\n<p>Desde os primeiros anos de atividade, a obra art\u00edstica de Luciana Fina tem vindo a ser considerada a n\u00edvel internacional como olhar propulsor de uma liga\u00e7\u00e3o estreita entre o cinema e as outras artes. Atrav\u00e9s do seu olhar cinematogr\u00e1fico, a artista interroga as fronteiras entre culturas e geografias, dando visibilidade a hist\u00f3rias de migra\u00e7\u00e3o, encontros interculturais e transforma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias que emergem desses deslocamentos. A sua abordagem est\u00e9tica e narrativa n\u00e3o apenas capta a po\u00e9tica da mobilidade humana, mas tamb\u00e9m enfatiza a riqueza dos encontros entre diferentes tradi\u00e7\u00f5es e modos de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p>Com este filme queria mesmo negar narrativas que pudessem exotizar estas minhas vizinhas, amigas e mulheres com que tocava este di\u00e1logo. Depurei o filme de tudo aquilo que pudesse ser narrativo nesse sentido de descrever a vida. Achei muito mais importante imaginar o cheiro das vacas e esta mi\u00fada todo o tempo a tentar afastar as moscas enquanto decide autodeterminar-se e dizer \u201cAv\u00f3, nada disso me fascina para o meu futuro. Quero outra vida e vou imagina-la noutro lugar\u201d. (2017; 12m 00s.)<\/p>\n<p>Decidi que elas (as ra\u00edzes) poderiam ser um elemento org\u00e2nico biologicamente forte para atravessar este pr\u00e9dio com os sons, as palavras e as tradu\u00e7\u00f5es; que esse elemento org\u00e2nico tamb\u00e9m podia atirar pelo pr\u00e9dio algo de importante que, se calhar, significa \u201ceu sou migrante tamb\u00e9m\u201d, embora n\u00e3o sejam chamados assim os cineastas europeus que mexem pela Europa, mas eu tamb\u00e9m tento enraizar-me aqui e estou a enraizar-me aqui h\u00e1 muito tempo tal como elas. Digamos que eram ra\u00edzes a\u00e9reas, mas ra\u00edzes que dizem respeito \u00e0s nossas vidas, todas nossas. (2017; 13m 14s. )<\/p>\n<p>H\u00e1 um fluxo no filme que fala sobre l\u00ednguas e linguagens. Para mim, \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que talvez proponha algo contra a deriva da linguagem, ou seja, a aten\u00e7\u00e3o que damos \u00e0 coexist\u00eancia de diferentes l\u00ednguas e linguagens na nossa vida quotidiana. Numa cidade como Lisboa, isso acontece num edif\u00edcio. Num apartamento, como o terceiro andar do meu pr\u00e9dio, acontece que uma m\u00e3e de origem da Guin\u00e9-Bissau tenha um dialeto que \u00e9 a \u00fanica l\u00edngua que usa porque est\u00e1 sempre em casa, enquanto a filha j\u00e1 fala portugu\u00eas. Existe essa l\u00edngua de media\u00e7\u00e3o com o mundo exterior e tamb\u00e9m comigo. (2016; 5m 18s.) Tradu\u00e7\u00e3o da autora<br \/>\n[C\u2019\u00e8 un flusso nel film che parla di lingue e linguaggi. \u00c9 per me un\u2019operazione che forse propone qualcosa contro la deriva del linguaggio che \u00e8 l\u2019attenzione che abbiamo alla coesistenza di lingue e linguaggi diversi nella vita del nostro quotidiano. In una citt\u00e0 come Lisbona succede in un palazzo. In un appartamento come il terzo piano del mio palazzo succede che una madre di origine della Guin\u00e9 Bissau abbia un dialetto che \u00e8 l\u2019unica lingua che usa perch\u00e9 \u00e8 sempre in casa e la figlia gi\u00e0 parla portoghese. C\u2019\u00e8 questa lingua di mediazione con il mondo esterno e anche con me.]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliowebgrafia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Filmografia<br \/>\n2024 <em>Sempre<\/em><br \/>\n2020 <em>Questo \u00e8 il piano<\/em><br \/>\n2016 <em>Terceiro Andar<\/em><br \/>\n2013 <em>In Medias Res<\/em><br \/>\n2009\/2012 <em>Portraire<\/em><br \/>\n2006 <em>Le R\u00e9seau<\/em><br \/>\n2004 <em>O Encontro<\/em><br \/>\n2003 <em>Taraf, tr\u00eas contos e uma balada<\/em><br \/>\n2001 <em>24h e Outra Terra<\/em><br \/>\n1999 <em>J\u00e9r\u00f4me Bel, le film<\/em><br \/>\n1998 <em>A Audi\u00eancia<\/em><\/p>\n<p>Instala\u00e7\u00f5es<br \/>\n2021 <em>Andr\u00f3meda<\/em> (d\u00edptico, mixed media)<br \/>\n2019 <em>A estrada<\/em> (site specific)<br \/>\n2016 <em>Terceiro Andar<\/em> (d\u00edptico)<br \/>\n2014 <em>\u00catre Ici<\/em> (site specific)<br \/>\n2014 <em>A Casa e o Tempo<\/em> (site specific)<br \/>\n2001\/2010 <em>CCM<\/em> (CCTV posto 1 \/7)<br \/>\n2009<em> HORS SUJET portrait<\/em> (d\u00edptico)<br \/>\n2009 <em>VUE portraits<\/em> (tr\u00edptico)<br \/>\n2005<em> REFLECTION portrait<\/em> (d\u00edptico)<br \/>\n2004 <em>MOUVEMENT portrait<\/em> (d\u00edptico)<br \/>\n2003 <em>CHANT portraits<\/em> (tr\u00edptico)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>2016 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=F0ZeGQ0VnOU\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=F0ZeGQ0VnOU<\/a><\/p>\n<p>2017 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gjbjQ88Ac08\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gjbjQ88Ac08 <\/a><\/p>\n<p>Santos, D. (2021). Di\u00e1logos entre Italo Calvino e Luciana Fina. <em>Contempor\u00e2nea<\/em>, n\u00ba 7, (edi\u00e7\u00e3o: Eduarda Neves), Lisboa, Making Art Happen<\/p>\n<p>Strippoli, G. (2023). Deshacer el margen. La obra de Luciana Fina a traves del analisi de Portraire \u2013 Notas a margem de um retrato. Em Ram\u00e9, Cucinotta (coord.) <em>Cine: feminino del plural. Mujeres y pr\u00e1ticas creativas en el ambito ib\u00e9rico<\/em>. Editorial Sinderesis. 187 \u2013 202<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciana Fina \u00e9 italiana (nasceu em Bari), mas vive e trabalha em Lisboa desde 1991. Ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o em Literaturas Rom\u00e2nicas, foi programadora independente na Cinemateca a partir de 1993 e durante duas d\u00e9cadas. Fina \u00e9 uma documentarista e v\u00eddeo-artista que cruza a arte cinematogr\u00e1fica com as artes visuais, encontrando na migra\u00e7\u00e3o o fulcro do&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/luciana-fina\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1057,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1056"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1056"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":1037,"date":"2025-01-08T15:53:57","date_gmt":"2025-01-08T15:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/?post_type=glossary&#038;p=1037"},"modified":"2025-07-03T11:00:51","modified_gmt":"2025-07-03T11:00:51","slug":"mario-pinto-de-andrade","status":"publish","type":"glossary","link":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/mario-pinto-de-andrade\/","title":{"rendered":"M\u00e1rio Pinto de Andrade"},"content":{"rendered":"<p>Ensa\u00edsta, soci\u00f3logo, cr\u00edtico liter\u00e1rio, poeta e editor de poesia, tradutor e fil\u00f3logo, M\u00e1rio Pinto de Andrade foi um intelectual angolano que desempenhou um papel fundamental na divulga\u00e7\u00e3o da cultura africana no s\u00e9culo XX. Profundamente cosmopolita, o seu percurso foi marcado por tr\u00e2nsitos entre culturas, espa\u00e7os e geografias diversas, assim como por diversas l\u00ednguas. Ao mesmo tempo, a sua trajet\u00f3ria intelectual \u00e9 indissoci\u00e1vel do seu empenho pol\u00edtico. Promotor de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es anticoloniais de car\u00e1cter transnacional e um dos fundadores do Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), do qual foi tamb\u00e9m o primeiro presidente, colocou a sua vida ao servi\u00e7o da luta contra o colonialismo e o neo-colonialismo em \u00c1frica.<\/p>\n<p>Nasceu em 1928 em Angola, no seio de uma fam\u00edlia que fazia parte daquela que ele mesmo definiria de \u201clumpen aristocracia\u201d angolana (Laban 1997: 35), ou seja, uma pequena minoria de n\u00e3o brancos que, historicamente, gozara de uma posi\u00e7\u00e3o relativamente confort\u00e1vel na sociedade colonial. Embora ao longo do s\u00e9culo XX essa camada de assimilados tenha progressivamente perdido o seu prest\u00edgio e os seus privil\u00e9gios, M\u00e1rio Pinto de Andrade teve a oportunidade de crescer numa casa onde se dava grande valor \u00e0 cultura letrada e, por isso, recebeu uma boa educa\u00e7\u00e3o formal. Conclu\u00eddos os estudos secund\u00e1rios, foi um dos poucos angolanos que conseguiu prosseguir os estudos universit\u00e1rios na metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Se o seu pensamento deve muito \u00e0 sua hist\u00f3ria familiar, \u00e0s leituras feitas durante a adolesc\u00eancia e a juventude bem como aos aos encontros com outros jovens interessados em valorizar e renovar a cultura angolana, a experi\u00eancia lisboeta entre os anos 1948 e 1954 foi, contudo, um ponto de viragem na sua vida. Foi em Lisboa que M\u00e1rio Pinto de Andrade tomou plena consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o colonial e da sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de assimilado, sobretudo gra\u00e7as ao conv\u00edvio com um grupo de estudantes vindos de Angola e de outras col\u00f3nias portuguesas &#8211; como Am\u00edlcar Cabral, Alda do Esp\u00edrito Santo, No\u00e9mia de Sousa, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Eduardo Mondlane, entre muitos outros. Com eles empreendeu um percurso de \u201creafricaniza\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos\u201d (Andrade 1976), participando nas atividades culturais da <em>Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio<\/em> e, em 1951, fundando o <em>Centro de Estudos Africanos<\/em> (CEA), centro de estudos clandestino onde se discutiam temas relacionados com a geografia, a literatura, a lingu\u00edstica, a sociologia e a pol\u00edtica africana. No \u00e2mbito das atividades do CEA, junto com o s\u00e3o-tomense Francisco Jos\u00e9 Tenreiro, editou em 1953 o <em>Caderno de Poesia Negra de Express\u00e3o Portuguesa<\/em>, uma pequena antologia que marcava a original ades\u00e3o \u00e0 Negritude de um grupo de poetas africanos das col\u00f3nias portuguesas.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes, M\u00e1rio Pinto de Andrade publicaria outras antologias, em diferentes pa\u00edses e em diferentes l\u00ednguas, entre as quais: <em>Antologia da poesia negra de express\u00e3o portuguesa<\/em> (Paris, 1958); <em>Letteratura negra. I poeti<\/em> (Roma 1961); <em>Poesia. Antologia tem\u00e1tica<\/em> (Argel, 1967); <em>La po\u00e9sie africaine d&#8217;expression portugaise<\/em> (Paris, 1969). Na segunda metade dos anos setenta, ainda publicou dois volumes da <em>Antologia tem\u00e1tica de poesia africana, Na noite gr\u00e1vida de punhais<\/em> (1975) e <em>O canto armado<\/em> (1979), pela editora S\u00e1 da Costa.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio um poeta, embora com uma produ\u00e7\u00e3o reduzida, da qual o exemplo mais significativo \u00e9 o poema em kimbundu <em>Muimbu ua Sabalu<\/em> (1953), como muitos outros intelectuais do seu tempo, M\u00e1rio Pinto de Andrade acreditava que a poesia era um meio privilegiado para mostrar os colonizados n\u00e3o s\u00f3 como consumidores da cultura que lhes tinha sido imposta pelo colonizador, mas tamb\u00e9m como portadores de uma cultura pr\u00f3pria, aut\u00f3noma. Esta era uma mensagem poderosa, e at\u00e9 subversiva, pois a autonomia cultural se constitu\u00eda como pressuposto indispens\u00e1vel para a independ\u00eancia pol\u00edtica. Subvertendo a l\u00edngua do colonizador, e introduzindo na poesia ambienta\u00e7\u00f5es e temas africanos alheios ao exotismo ao qual os tinha condenado a literatura colonial, os novos poetas expressavam ambi\u00e7\u00f5es e anseios pr\u00f3prios da sua cultura e chamavam o povo \u00e0 revolta contra o colonialismo (Mateus 1999: 153). A reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre cultura e nacionalismo \u00e9 uma constante na produ\u00e7\u00e3o intelectual de M\u00e1rio Pinto de Andrade e configura-se como uma das suas maiores contribui\u00e7\u00f5es ao pensamento cr\u00edtico contempor\u00e2neo sobre coloniza\u00e7\u00e3o e descoloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1954, pressentindo uma iminente pris\u00e3o por parte da PIDE, M\u00e1rio Pinto de Andrade fugiu para Paris, onde come\u00e7ou logo a colaborar com a c\u00e9lebre revista <em>Pr\u00e9sence Africaine<\/em>. Conseguiu assim expandir a sua rede de contatos e criar la\u00e7os duradouros com intelectuais europeus e africanos, o que lhe permitiu, por um lado, alargar os pr\u00f3prios horizontes culturais e, pelo outro, ampliar o alcance do seu trabalho. Teve a possibilidade de participar, na qualidade de organizador e orador, em numerosos encontros culturais, incluindo o Primeiro Congresso de Escritores e Artistas Negros (1956), ainda hoje considerado um marco no panorama cultural do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Bem integrado no cora\u00e7\u00e3o da <em>intelligentsia<\/em> africana na di\u00e1spora, usou a sua posi\u00e7\u00e3o privilegiada para promover a obra de autores africanos de l\u00edngua portuguesa e para publicar artigos que visavam sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica internacional sobre a situa\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias portuguesas. O artigo mais conhecido desta \u00e9poca, e talvez o mais significativo, \u00e9 \u201cQu&#8217;est ce le luso-tropicalismo\u201d, um ensaio em que contrariava a ideologia elaborada pelo brasileiro Gilberto Freyre, expondo claramente a coloniza\u00e7\u00e3o como uma \u201cempresa de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica dirigida por um poder pol\u00edtico\u201d (Andrade 1955: 27) que aniquilava as culturas locais, desmentindo assim a imagem de uma sociedade harmoniosa e n\u00e3o racista com que o regime procurava legitimar a continua\u00e7\u00e3o da sua presen\u00e7a em \u00c1frica.<\/p>\n<p>A partir da segunda metade dos anos 50, M\u00e1rio Pinto de Andrade intensificou a sua atividade pol\u00edtica e come\u00e7ou a atender numerosas confer\u00eancias internacionais, o que o levou a diversos pa\u00edses europeus e asi\u00e1ticos, incluindo pa\u00edses do outro lado da cortina de ferro, como Uzbekistan, R\u00fassia e China. Enquanto expandia a sua proje\u00e7\u00e3o internacional, tamb\u00e9m mantinha contatos estreitos com alguns intelectuais angolanos, como Viriato da Cruz e Ant\u00f3nio Jacinto, assim como com o grupo de africanos que tinha conhecido em Lisboa. Foi justamente com alguns dos membros deste grupo que, em 1957, fundou o Movimento Anti-Colonial (MAC) em Paris, antecessor de organiza\u00e7\u00f5es transnacionais que surgiram nos anos a seguir, como a FRAIN (Frente Revolucion\u00e1ria Africana pela Independ\u00eancia Nacional, fundada em Tunis em 1960), e a CONCP (Confer\u00eancia das Organiza\u00e7\u00f5es Nacionalistas das Col\u00f3nias Portuguesas, fundada em Casablanca em 1961). A sua atividade em prol de associa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que transcendiam os limites nacionais, demonstra a profunda voca\u00e7\u00e3o panafricanista e a cren\u00e7a na \u201csolidariedade libert\u00e1ria\u201d (Mata e Padilha 2000: 13) entre os povos para a realiza\u00e7\u00e3o de um objetivo comum: a liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo.<\/p>\n<p>Em 1960, M\u00e1rio Pinto de Andrade participou na funda\u00e7\u00e3o do MPLA e assumiu as fun\u00e7\u00f5es de presidente e de respons\u00e1vel pelas rela\u00e7\u00f5es exteriores do Movimento. Ambas as fun\u00e7\u00f5es beneficiavam das suas reconhecidas capacidades diplom\u00e1ticas e da vasta rede de contatos que entretanto tinha tecido. No mesmo ano, deixou Paris e estabeleceu-se em \u00c1frica, antes em Conakry, depois em Rabat e Argel. Sem se fixar definitivamente em nenhum desses lugares, continuou a viajar incansavelmente para participar em encontros, confer\u00eancias e reuni\u00f5es em que advogava a causa dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias portuguesas.<\/p>\n<p>Em 1962, deixou a presid\u00eancia do MPLA a Agostinho Neto, que entretanto tinha conseguido fugir da pris\u00e3o em Portugal e tinha se juntado ao Movimento no Marrocos. Na sequ\u00eancia de uma crise interna ao MPLA, em meados de 1963, M\u00e1rio Pinto de Andrade afastou-se do Movimento, voltando a integr\u00e1-lo s\u00f3 em agosto do ano seguinte. At\u00e9 ao fim da guerra de liberta\u00e7\u00e3o, continuou a trabalhar para a CONCP e a promover as atividades do MPLA atrav\u00e9s de artigos, ensaios, e livros, entre os quais <em>La guerre en Angola<\/em> (1971), estudo sociol\u00f3gico escrito com a colabora\u00e7\u00e3o de Marc Ollivier e sucessivamente traduzido para ingl\u00eas e portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Intimamente ligado \u00e0 luta de liberta\u00e7\u00e3o na Guin\u00e9 Bissau pelo seu papel na CONCP e pela sua amizade fraterna com Am\u00edlcar Cabral, ap\u00f3s o 25 de abril publicou em Lisboa o livro <em>Guerra do povo na Guin\u00e9 Bissau<\/em> (1974), cujo texto se baseia numa comunica\u00e7\u00e3o apresentada em mar\u00e7o desse mesmo ano no Congresso Internacional de Sociologia realizado em Argel. Al\u00e9m disso, foi o primeiro editor da obra de Am\u00edlcar Cabral, sobre o qual tamb\u00e9m escreveu um \u201censaio de biografia pol\u00edtica\u201d que saiu originariamente em franc\u00eas pelas edi\u00e7\u00f5es Maspero em 1980.<\/p>\n<p>Intelectual poli\u00e9drico, al\u00e9m da escrita ensa\u00edstica e da poesia, M\u00e1rio Pinto de Andrade fez incurs\u00f5es em outros meios art\u00edsticos, como o cinema. A partir da adapta\u00e7\u00e3o de dois contos de Jos\u00e9 Luandino Vieira, escreveu o roteiro da curta-metragem <em>Monangamb\u00e9<\/em> (1968) e do filme <em>Sambizanga<\/em> (1972), ambos dirigidos pela cineasta francesa de origem antilhana Sarah Maldoror, sua companheira de longa data e m\u00e3e das suas filhas, Annouchka e Henda. Os filmes foram apresentados e premiados em v\u00e1rios festivais, contribuindo assim para ampliar a plateia internacional que podia garantir apoio e legitima\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional (Moorman 2001: 111).<\/p>\n<p>Aos vinte anos, ao embarcar no navio <em>P\u00e1tria<\/em> que o levava de Angola a Portugal, M\u00e1rio Pinto de Andrade pensava que, conclu\u00eddo o curso de filologia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, voltaria para Luanda para assumir o seu lugar na sociedade colonial, talvez para se tornar professor no liceu (Laban 1997: 51). N\u00e3o poderia imaginar que, por causa do seu envolvimento na luta anticolonial, s\u00f3 conseguiria voltar a pisar o solo angolano mais de duas d\u00e9cadas depois, ap\u00f3s ter morado em diversos pa\u00edses europeus e africanos, ter viajado por quatro continentes e ter publicado extensivamente, seja na imprensa peri\u00f3dica internacional seja com editoras em Portugal, Fran\u00e7a e It\u00e1lia, entre outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Apesar de ser um intelectual que se sentia \u201cem casa\u201d tanto em Paris e Lisboa quanto em Conakry ou Argel, nunca deixou de carregar o peso da sua condi\u00e7\u00e3o de exilado. De facto, viveu em ex\u00edlio durante a maior parte da vida, mesmo ap\u00f3s a queda do regime colonial, tendo sido obrigado a deixar Angola pouco antes da proclama\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia em 1975 por causa da sua ades\u00e3o \u00e0 Revolta Activa, fac\u00e7\u00e3o dissidente do MPLA que pedia uma democratiza\u00e7\u00e3o do Movimento. Entre 1975 e 1980 foi Ministro da Informa\u00e7\u00e3o e da Cultura na Guin\u00e9 Bissau, at\u00e9 que um golpe de estado o obrigou a mais um ex\u00edlio. Durante os anos 80, colaborou com o Centro de Estudos Africanos da Universidade de Maputo e com a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica de Cabo Verde, assim como com a UNESCO. Paralelamente, continuou a escrever na imprensa, a dar palestras, a organizar antologias de poesia, e trabalhou numa investiga\u00e7\u00e3o sobre as origens do nacionalismo africano que, embora inacabada, \u00e9 ainda hoje uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel sobre o tema (Andrade 1997). Morreu em 1990 num hospital de Londres, sem nunca ter adquirido a nacionalidade angolana. Como escreveu o soci\u00f3logo guineense e seu amigo Carlos Lopes \u201ccomo eterno dissidente era natural que se tornasse um eterno exilado\u201d (Lopes 2008: 35).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Cita\u00e7\u00f5es<\/h6>\n<p><em>Muimbu ua Sabalu <\/em>(1953)<\/p>\n<p>Mon&#8217;etu ua kasule<br \/>\nA mu tumisa ku S. Tom\u00e9<br \/>\nKexiri\u00e9 ni madukumentu<br \/>\nAiu\u00e9!<\/p>\n<p>Mon&#8217;etu uaririle<br \/>\nMama uasalukile<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nA mu tumisa ku S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Mon&#8217;etu uai ki\u00e1<br \/>\nUai mu pur\u00e1 i\u00e1<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nA mu tumisa ku S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Mon&#8217;etu uolo banza<br \/>\nO\u2019xi \u00e9 o\u2019nzo i\u00e9<br \/>\nA mu tuma kukalakala<br \/>\nOlo mu tala, olo mu tala<\/p>\n<p>&#8211; Mama, muene uono vukuta<br \/>\nAh! Ngongo ietu iondo biluka<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nA mu tumisa ku S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Mon\u2019etu k\u2019avutuk\u00e9<br \/>\nKalunga ua mu ri\u00e9<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nA mu tumisa ku S. Tom\u00e9<\/p>\n<p><em>Can\u00e7\u00e3o de Sabalu<\/em><\/p>\n<p>Nosso filho ca\u00e7ula<br \/>\nMandaram-no p\u2019ra S. Tom\u00e9<br \/>\nN\u00e3o tinha documentos<br \/>\nAiu\u00e9!<\/p>\n<p>Nosso filho chorou<br \/>\nMam\u00e3 enlouqueceu<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nMandaram-no p\u2019ra S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Nosso filho j\u00e1 partiu<br \/>\nPartiu no por\u00e3o deles<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nMandaram-no p\u2019ra S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Cortaram-lhe os cabelos<br \/>\nN\u00e3o puderam amarr\u00e1-lo<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nMandaram-no p\u2019ra S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Nosso filho est\u00e1 a pensar<br \/>\nNa sua terra, na sua casa<br \/>\nMandaram-no trabalhar<br \/>\nEst\u00e3o a mir\u00e1-lo, a mir\u00e1-lo<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3, ele h\u00e1-de voltar<br \/>\nAh! A nossa sorte h\u00e1 de virar<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nMandaram-no p\u2019ra S. Tom\u00e9<\/p>\n<p>Nosso filho n\u00e3o voltou<br \/>\nA morte levou-o<br \/>\nAiu\u00e9!<br \/>\nMandaram-no p\u2019ra S. Tom\u00e9<\/p>\n<p><em>Da entrevista concedida a Michel Laban<\/em>:<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] \u00c9 interessante ver como toda a forma\u00e7\u00e3o cultural africana n\u00e3o se pode separar da Am\u00e9rica negra, \u00e9 uma presen\u00e7a obrigat\u00f3ria. Primeiro porque \u00e9 a maior comunidade, uma comunidade oprimida mas que luta pela sua afirma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o estes dois p\u00f3los\u2014 a afirma\u00e7\u00e3o do negro na vida social atrav\u00e9s da sua luta, e tamb\u00e9m as formas de opress\u00e3o mais brutais&#8230; Porque se faziam analogias entre os enforcamentos na Am\u00e9rica e os enforcamentos na AEF, antiga \u00c1frica Equatorial Francesa; e n\u00f3s tamb\u00e9m, em Lisboa, est\u00e1vamos \u00e0 escuta de tudo o que se passava nos Estados Unidos. Isto reflectia-se na literatura. [\u2026] Este capital de conhecimentos que t\u00ednhamos era um pouco o nosso patrim\u00f3nio \u2014 os negros americanos ou de \u00c1frica&#8230;\u2014 e n\u00e3o podia ser inocente, n\u00e3o era puramente cultural: as ideias veiculadas neste patrim\u00f3nio tinham um impacto pol\u00edtico muito claro&#8230; Um editorial de Alioune Diop na <em>Pr\u00e9sence Africa\u00edne<\/em>, ou um poema de C\u00e9saire ou de Jacques Roumain, eram verdadeiros apelos \u00e0 luta. E depois quando nos interess\u00e1vamos pelos acontecimentos da \u00c1frica do Sul ou pela guerra dos Mau-Mau, evidentemente tudo isto se imbricava. Finalmente a nossa busca cultural estava atravessada pela pol\u00edtica.\u201d (Laban 1997: 95\u20136)<\/p>\n<p>Da entrevista concedida a Christine Messiant:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Foi em Paris que me senti verdadeiramente ao ritmo de \u00c1frica, o que n\u00e3o conseguia em Lisboa. Ao ritmo de \u00c1frica no seu todo, a \u00c1frica entendida na sua totalidade, j\u00e1 que todas as lutas, a todos os n\u00edveis, sobretudo culturais e pol\u00edticos, tinham eco, e algumas eram mesmo vividas em Paris, j\u00e1 que havia deputados africanos na altura e um movimento cultural. [&#8230;] Antes de mais, \u00e9 preciso diz\u00ea-lo: foi um privil\u00e9gio pessoal ter sido secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o da <em>Pr\u00e9sence Africaine<\/em>. [&#8230;] O facto de estar associado a uma revista, na qual podia escrever [&#8230;] de ter de ler todos os manuscritos, de ter recebido realmente uma contribui\u00e7\u00e3o de \u00c1frica, dos Negros \u2013 porque era \u201ca revista do mundo negro\u201d \u2013 e de ter podido estabelecer um neg\u00f3cio, no velho sentido da palavra, com escritores, intelectuais, pol\u00edticos e, digamos, as pessoas que interessavam a \u00c1frica na altura [&#8230;] Mas n\u00e3o havia apenas <em>Pr\u00e9sence Africaine<\/em>. Havia tamb\u00e9m o envolvimento nos movimentos pol\u00edticos africanos. [&#8230;] E foi Paris que tornou tudo isso poss\u00edvel. Para n\u00f3s, Paris era verdadeiramente uma capital africana.\u201d (Messiant 1999: 203\u20135).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Ativa Selecionada<\/h6>\n<p>Andrade, M\u00e1rio Pinto de (1953) em colabora\u00e7\u00e3o com Tenreiro, Francisco Jos\u00e9. <em>Caderno de poesia negra de express\u00e3o portuguesa<\/em>. Lisboa<\/p>\n<p>\u2014 (1953), \u201cMuimbu ua Sabalu\u201d, Lisboa. Consult\u00e1vel em <a href=\"http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=04326.001.002#!2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=04326.001.002#!2<\/a><\/p>\n<p>\u2014 (1955), \u201cQu\u2019est ce que le luso-tropicalismo\u201d, Pr\u00e9sence Africaine, II S\u00e9rie, n. 4. Consult\u00e1vel em: <a href=\"http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=04330.008.006#!1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=04330.008.006#!1<\/a><\/p>\n<p>\u2014 (1958), <em>Antologia da poesia negra de express\u00e3o portuguesa<\/em>. <em>Precedida de \u201cCultura negro-africana e assimila\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Paris, Jean-Pierre Oswald<\/p>\n<p>\u2014 (1961), <em>Letteratura negra. I poeti<\/em>. Editori Riuniti, Roma<\/p>\n<p>\u2014 (1967), <em>Poesia. Antologia tem\u00e1tica<\/em>. Argel.<\/p>\n<p>\u2014 (1968), \u201cCulture et lutte arm\u00e9e\u201d. Comunica\u00e7\u00e3o apresentada no Congresso Cultural de La Havana. Consult\u00e1val em <a href=\"http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=04336.003.009\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=04336.003.009<\/a><\/p>\n<p>\u2014 (1969), <em>La po\u00e9sie africaine d&#8217;expression portugaise : anthologie. Pr\u00e9c\u00e9d\u00e9e de \u00c9volution et tendances actuelles<\/em>. Paris, Jean-Pierre Oswald.<\/p>\n<p>\u2014 (1971) em colabora\u00e7\u00e3o com e Ollivier, Marc, La guerre en Angola. \u00c9tude socio-\u00e9conomique. Paris, Fran\u00e7ois Maspero.<\/p>\n<p>\u2014 (1974), <em>A guerra do povo na Guin\u00e9 Bissau<\/em>. Lisboa, S\u00e1 da Costa.<\/p>\n<p>\u2014 (1975), <em>Antologia tem\u00e1tica de poesia africana: I. Na noite gr\u00e1vida de punhais<\/em>. Lisboa, S\u00e1 da Costa Editora.<\/p>\n<p>\u2014 (1976), \u201cAm\u00edlcar Cabral e a Reafricaniza\u00e7\u00e3o dos Esp\u00edritos\u201d. <em>N\u00f4 Pintcha &#8211; \u00d3rg\u00e3o do Comissariado de Informa\u00e7\u00e3o e Cultura<\/em>. Bissau, 12 de setembro, pp. 8-9. Consult\u00e1vel em <a href=\"http:\/\/casacomum.org\/cc\/pesqArquivo.php?termo=04336.003.007\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/casacomum.org\/cc\/pesqArquivo.php?termo=04336.003.007<\/a><\/p>\n<p>\u2014 (1979),<em> Antologia tem\u00e1tica de poesia africana: II. O canto armado<\/em>. Lisboa, S\u00e1 da Costa Editora. Consult\u00e1vel em <a href=\"http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=012090#!1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=012090#!1<\/a><\/p>\n<p>\u2014 (1980), <em>Amilcar Cabral, Essai de biographie politique<\/em>. Paris, Fran\u00e7ois Maspero.<\/p>\n<p>\u2014 (1997), <em>Origens do nacionalismo africano. Continuidade e ruptura nos movimentos unit\u00e1rios emergentes da luta contra a domina\u00e7\u00e3o colonial portuguesa<\/em>, 1911-1961. Lisboa, Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Bibliografia Cr\u00edtica Selecionada<\/h6>\n<p>Laban, Michel (1997). <em>M\u00e1rio Pinto Andrade: uma entrevista<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Jo\u00e3o S\u00e1 da Costa.<\/p>\n<p>Lopes, Carlos (2008). \u201cAfrica e os desafios da cidadania e inclus\u00e3o: o legado de M\u00e1rio Pinto de Andrade\u201d. <em>CLIO, Revista de pesquisa hist\u00f3rica<\/em>, v.26, n.1: Jan-Jun, Dossi\u00ea: 1968, pp. 34-58. Consult\u00e1vel em <a href=\"https:\/\/periodicos.ufpe.br\/revistas\/index.php\/revistaclio\/article\/view\/24193\/29058\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/periodicos.ufpe.br\/revistas\/index.php\/revistaclio\/article\/view\/24193\/29058<\/a><\/p>\n<p>Mata, Inoc\u00eancia e Padilha, Laura (org.) (2000). <em>M\u00e1rio Pinto de Andrade, um intelectual na pol\u00edtica<\/em>. Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es Colibri.<\/p>\n<p>Mateus, D\u00e1lila Cabrita (1999). <em>A luta pela independe\u0302ncia : a formac\u0327a\u0303o das elites fundadoras da FRELIMO, MPLA e PAIGC<\/em>. Mem Martis, Editorial Inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>Messiant, Christine (1999). \u201cSur la premi\u00e8re g\u00e9n\u00e9ration du MPLA: 1948-1960. M\u00e1rio de Andrade, entretiens avec Christine Messiant (1982)\u201d. <em>Lusotopie<\/em>, n\u00b06, 1999, pp. 185-221. Consult\u00e1vel em<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.persee.fr\/doc\/luso_1257-0273_1999_num_6_1_1259\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.persee.fr\/doc\/luso_1257-0273_1999_num_6_1_1259<\/a><\/p>\n<p>Moorman, Marissa (2001). \u201cOf Westerns, Women, and War: Re-Situating Angolan Cinema and the Nation\u201d. <em>Research in African Literatures<\/em>, v. 32, n.3, pp. 103-122. Consult\u00e1vel em <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/pdf\/3820427.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.jstor.org\/stable\/pdf\/3820427.pdf<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a9<\/strong> cr\u00e9dito imagem<\/p>\n<p>Funda\u00e7\u00e3o M\u00e1rio Soares e Maria Barroso \/ Arquivo M\u00e1rio Pinto de Andrade<br \/>\nCortesia das herdeiras de M\u00e1rio Pinto de Andrade<br \/>\n<a href=\"http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=07223.002.135\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">http:\/\/casacomum.org\/cc\/visualizador?pasta=07223.002.135<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensa\u00edsta, soci\u00f3logo, cr\u00edtico liter\u00e1rio, poeta e editor de poesia, tradutor e fil\u00f3logo, M\u00e1rio Pinto de Andrade foi um intelectual angolano que desempenhou um papel fundamental na divulga\u00e7\u00e3o da cultura africana no s\u00e9culo XX. Profundamente cosmopolita, o seu percurso foi marcado por tr\u00e2nsitos entre culturas, espa\u00e7os e geografias diversas, assim como por diversas l\u00ednguas. Ao mesmo&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/glossary\/mario-pinto-de-andrade\/\" class=\"gdlr-info-font excerpt-read-more\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1041,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary\/1037"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/glossary"}],"about":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/glossary"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1037"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diasporasemportugues.ilcml.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}]