(1914-2011)

Abdias Nascimento é uma das personalidades mais expressivas da luta antirracista do Brasil. Economista de formação, Abdias teve uma atuação plural, sendo escritor, poeta, dramaturgo, artista plástico, ativista pan-africanista, professor universitário e político. Destacando-se como uma voz importante do povo negro no país, Abdias é um representante da cultura afro-diaspórica no Brasil, sendo sua atuação fundamental para a reflexão sobre as consequências da diáspora africana para a identidade cultural afro-brasileira e para a valorização da herança africana no país. Com uma produção escrita profícua durante período de exílio nos Estados Unidos e na Nigéria, foi responsável, ainda, por levantar questões centrais para a discussão sobre a estrutura do racismo no Brasil, como o mito da democracia racial, o esfacelamento da identidade afro-brasileira e a estereotipação da imagem do negro. Atuando para promover o protagonismo negro, Abdias ocupou espaços culturais, acadêmicos e políticos importantes, onde suas ações refletiam seu firme posicionamento em prol de uma sociedade antirracista e mais igualitária.
Por sua incisiva e incansável luta antirracista, sua história traduz aspectos imprescindíveis da realidade do movimento negro no Brasil. Abdias integrou a Frente Negra Brasileira na década de 1930, organização pioneira do ativismo negro no país e, percebendo a integração do negro à sociedade brasileira como uma questão central para o pensamento antirracista na época, dentre outras iniciativas, ajudou a organizar o I Congresso Afro-Campineiro em 1938 para discutir a discriminação racial na cidade de Campinas em São Paulo.
Em 1944, fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), que buscou a afirmação da identidade dos negros no Brasil pelo resgate da ancestralidade africana e pelo protagonismo do negro na cultura, oferecendo ainda aulas de teatro, alfabetização e cultura geral. O TEN influenciou o pensamento estético sobre a cultura negra e fez duras críticas à realidade socialmente excludente com a criação do jornal Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro — publicado em dez edições até o ano de 1950 — e a realização do 1º Congresso do Negro Brasileiro, responsável por lançar as bases para a criação do Museu de Arte Negra (MAN).
Como um pensador multifacetado da questão negra, Abdias publicou mais de vinte livros, entre publicações científicas, poesias, ensaios e peças de teatro. Em 1968, por exemplo, Abdias publica o livro O negro revoltado, com ensaios de temas discutidos por autores diversos no congresso realizado em 1950, em que aborda, em prefácio para a segunda edição de 1982, as transformações sociais de então movidas pela descolonização africana, o surgimento de países negro-africanos pelo mundo e a necessidade de estabelecer um diálogo entre os povos africanos e seus descendentes dispersos em função da diáspora das Américas. Nesse prefácio, Abdias relata, ainda, sua vivência nos Estados Unidos — motivada pelo que ele chamou de um “exílio voluntário” em decorrência da perseguição sofrida no contexto da ditatura militar no Brasil — e a consequente internacionalização da luta antirracista afro-brasileira.
As peças encenadas pelo TEN também foram publicadas na antologia Dramas para negros e prólogo para brancos, organizada por Abdias, que reuniu textos sobre os conflitos raciais e a experiência negra no país. A primeira peça escrita por Abdias, “Sortilégio: Mistério negro de Zumbi”, também está presente nesse livro. A peça tem como tema central as angústias de um homem afro-brasileiro que, com sua identidade cultural apagada pelo preconceito, se vê em conflito entre a cultura africana e a europeia. Encenada pela primeira vez em 1957, foi publicada em 1979 após a visita de Abdias a Nigéria na década de 1970 e a consequente influência sofrida pela cultura Iorubá, que o fez ampliar a quantidade de personagens e incorporar a temática do quilombo.
Abdias passou treze anos em autoexílio nos Estados Unidos, entre os anos de 1968 e 1981, sendo um ano desse período, entre 1976 e 1977, vivido na Nigéria. Durante esses anos longe do Brasil, Abdias dedica-se, ainda, às artes plásticas, pintando e expondo quadros que traziam representações diversas da identidade afro-brasileira, com o intuito de exaltar a simbologia da herança cultural africana, embora não pretendesse evocá-la por uma esperança de retorno ao passado, mas sim recorrer “a ela para enriquecer sua experiência da história contemporânea” (Ramos 1995: 95).
É nesse período também que Abdias passa a atuar como professor acadêmico, exercendo o cargo de Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York em Buffalo; professor visitante na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale de 1969 a 1970; Visiting Fellow no Centro para as Humanidades da Universidade Wesleyan de 1970 a 1971; professor visitante do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade Temple, Filadélfia de 1990 a 1991; e professor visitante no Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade Obafemi Awolowo em Ilé-Ifé na Nigéria de 1976 a 1977.
Do período de exílio, é importante ressaltar o impacto que a ida para a Nigéria teve em Abdias, refletindo em seu pensamento sobre a cultura negra e em muitas de suas produções escritas a partir de então por sua aproximação mais intensa com uma “visão sobre cultura negra como parte de um legado transnacional da diáspora” e por seu autorreconhecimento enquanto “estrangeiro”, tanto pela situação de autoexílio quanto por sua “identidade diaspórica” na condição de uma pessoa negra que não vive no continente africano (Custódio 2011: 76).
Em seus anos de exílio, Abdias participou de diversos eventos científicos nos Estados Unidos e na África, em que pôde tornar público o racismo sofrido pelos afro-brasileiros no Brasil, além de conhecer intelectuais e ativistas de vários países que representavam diferentes abordagens do pan-africanismo. A presença em congressos internacionais contribuiu para intensificar a produção escrita de Abdias, sendo seus artigos compilados posteriormente em dois livros: Brazil, Mixture or Massacre?, publicado em 1979, e O quilombismo, publicado em 1980. É nesse contexto científico que são produzidos, ainda, os livros Racial Democracy in Brazil: Mith or Reality? (1977), O genocídio do negro brasileiro (1978) e Sitiado em Lagos: autodefesa de um negro acossado pelo racismo (1981), segundo Custódio (2011).
Neto de africanos escravizados, Abdias se aproximou das ideias pan-africanistas, denunciando, como lembra Dantas (2019: 141), as bases eurocêntricas e limitantes que intermediavam a relação dos povos da diáspora com a cultura africana. Criticando com veemência a questão negra no Brasil, Abdias defendia a valorização da identidade afro-brasileira e contestava, inclusive, a noção de democracia racial no Brasil. No livro O genocídio do negro brasileiro, por exemplo, denuncia a falácia da harmonia social entre brancos e negros no Brasil e o processo de apagamento do povo negro pela tentativa de esvaziamento do conflito e das violências culturais impostas cotidianamente.
Contrapondo-se, então, à opressão de um sistema colonialista fundamentado em bases europeias, Abdias propõe o conceito de “quilombismo” para proclamar um sistema coletivo, criativo, igualitário e libertário de organização social quilombola. Em O quilombismo, livro publicado pela primeira vez em 1980 e reeditado em 2002 pela Fundação Palmares, Abdias apresenta sua proposta para o conceito, ressaltando que os problemas vivenciados pelos descendentes africanos no Brasil não se resolveriam com modificações pontuais, mas antes necessitariam “de uma mudança estrutural básica da sociedade e do sistema econômico e político vigente” (2002: 55).
As raízes africanas são ainda rememoradas em sua poesia e, em 1983, Abdias publica Axés do Sangue e da Esperança: Orikis, livro em que escreve sobre suas vivências entrelaçadas às experiências diaspóricas do povo negro e sua cultura ancestral pulsante, resgatando elementos afrodiaspóricos, como a força dos orixás e o modo de vida em território brasileiro. No poema “Escalando a Serra da Barriga”, por exemplo, Abdias parece evocar para o afro-brasileiro, pela imagem da Serra da Barriga (local que abrigou o Quilombo do Palmares), a memória de liberdade e pertencimento associados à África ancestral.
Em seu retorno ao Brasil, na década de 1980, Abdias funda o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros em 1981, divulgando pesquisas afro-brasileiras e promovendo iniciativas como a revista Afrodiáspora e encontros científicos diversos. Abdias participou ainda da fundação do Movimento Negro Unificado e ocupou importantes espaços políticos, sendo eleito deputado federal pelo PDT no processo de redemocratização do país no início da década de 1980, senador na década de 1990 e secretário de direitos humanos e de cidadania do governo do estado do Rio de Janeiro. Como político, colocou em pauta ideias como a criminalização do racismo, o dia da Consciência Negra, as políticas afirmativas. Por sua extensa e sólida trajetória em defesa dos direitos civis e da igualdade racial, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2010.
Citações
Caracteriza-se o racismo brasileiro por uma aparência mutável, polivalente, que o torna único; entretanto, para enfrentá-lo, faz-se necessário travar a luta característica de todo e qualquer embate antirracista e anti-genocida. Porque sua unicidade está só na superfície; seu objetivo último é a obliteração dos negros como entidade física e cultural.” (O genocídio negro brasileiro: 136)
Na América Latina se pratica a discriminação racial de maneira mascarada, sutil, aberta ou encoberta. Tal discriminação utiliza as diferentes tonalidades de cor epidérmica do negro como mecanismo para conseguir que o homem negro desapareça através da ideologia do branqueamento, como a busca do homem ideal para obter melhores condições de vida, e com este mecanismo se destrói a solidariedade política, econômica, religiosa e familiar dos grupos negros. (O quilombismo: 53)
Entre os mecanismos executores do linchamento social do afro-brasileiro, o supremacismo branco maneja várias ferramentas de controle social do povo negro, inclusive uma constante lavagem cerebral visando entorpecer ou castrar sua capacidade de raciocínio. Esta tarefa quase não encontra obstáculos à sua frente, devido à manutenção da população afro-brasileira em situação de permanente penúria, fome, degradação física e moral. (O quilombismo: 40)
Invocando estas leis
imploro-te Exu
plantares na minha boca
o teu axé verbal
restituindo-me a língua
que era minha
e ma roubaram
sopre Exu teu hálito
no fundo da minha garganta (Axés do Sangue e da Esperança: 32)
Invocam Obatalá… para eles o maior dos Orixás. Depois vem Xangô… Oya-Inhansan… Omulu… Yemanjá… É Deus demais para uma única eternidade. À meia-noite desce Exu. O pessoal vem cumprir obrigação aí no pegi… Então eu aproveito o caminho livre […] Imaginem… eu falando como se também acreditasse nessas bobagens… Eu, o doutor Emanuel, negro formado… que aprendeu o catecismo… e em criança fez até a primeira comunhão! (Sortilégio II: 61)
Bibliografia Ativa Selecionada
Nascimento, Abdias (1961), Dramas para negros e prólogo para brancos. Rio de Janeiro, Teatro Experimental do Negro (organização e coautoria).
— (1977), Racial Democracy in Brazil: Myth or Reality, (2ª edição), Ibadan, Sketch Publishers.
— (1978), O genocídio do negro brasileiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
— (1979), Brazil: Mixture or Massacre. Essays in the Genocide of a Black People. Dover, MA, The Majority Press.
— (1979), Sortilégio II: mistério negro de Zumbi redivivo. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
— (1980), O Negro Revoltado, (2ª edição), Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
— (1981), Sitiado em Lagos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
— (1983), Axés do Sangue e da Esperança: Orikis. Rio de Janeiro, Achiamé e RioArte.
— (2002), O quilombismo, (2ª edição), Brasília/Rio de Janeiro, Fundação Palmares.
Bibliografia Crítica Selecionada
Freire Dantas, L. T. (2020), O pan-africanismo em Abdias Nascimento e a proposta de descolonização. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/As (ABPN), 12(31). Disponível em: https://abpnrevista.org.br/site/article/view/832
Custódio, Túlio Augusto Samuel (2011), Construindo o (auto) exílio: trajetória de Abdias do Nascimento nos Estados Unidos, 1968-1981. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo.
Ramos, G. (1995), O mundo tribal de Abdias Nascimento. In: Nascimento, A. do. Orixás: os deuses vivos da África. Rio de Janeiro, Teatro Experimental do Negro.
Autor(a): Ticiane Flavia Martins da Cruz | ORCID | Lattes