(1970- )

Adriana Lisboa é uma das vozes mais distintas e prolíficas de uma geração de escritores brasileiros que atingiu a maturidade no limiar do novo milénio. O seu primeiro romance, Os fios da memória, publicado em 1999, foi finalista do Prémio José Saramago que viria a vencer, em 2001, com o seu segundo e amplamente aclamado romance, Sinfonia em branco, traduzido e publicado em várias línguas e países. Desde então, publicou mais seis romances, duas coletâneas de contos e o ensaio longo dedicado à memória, mortalidade e luto, Todo o tempo que existe (2022), selecionado pela Folha de São Paulo para a sua lista de livros do ano. Em 2014, fez a sua estreia pública como poeta com a publicação da coletânea Parte da paisagem, à qual se seguiram mais três livros de poesia, incluindo Deriva (2019), semifinalista dos prémios Jabuti e Oceanos. Publicou também livros para crianças e jovens, e trabalha ainda como tradutora literária a partir do francês, inglês e espanhol, tendo traduzido obras de Cormac McCarthy, Marguerite Duras, Maurice Blanchot, Emily Brontë e José Lezama Lima, entre outros.
Lisboa nasceu no Rio de Janeiro, em 1970. Fez estudos superiores de música e trabalhou como cantora em França, professora de flauta e de formação musical no Rio, antes de se dedicar à escrita e à tradução. Concluiu os graus de mestrado e doutoramento em literatura comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi investigadora convidada no Centro Internacional de Estudos Japoneses – Nichibunken e na Universidade do Novo México, e escritora residente na Universidade de Califórnia, Berkeley e na Universidade do Texas, Austin. Desde 2007 vive nos Estados Unidos, primeiro no Colorado e posteriormente no Texas.
A sua obra é ampla e diversa nos temas e questões, simultaneamente oportunos e intemporais, que aborda: os legados da ditadura e da violência patriarcal, os direitos dos animais, a memória e o luto, a filosofia budista, o ambiente e as alterações climáticas, as relações intergeracionais e interculturais, entre outros. Talvez seja mais consistentemente caracterizada pelo modo como trata experiências de diáspora e de deslocação transnacional, seja sob a forma de exílio, migração ou viagem. Este tem sido um traço constante de toda a sua produção, incluindo romances e poesia, desde a publicação de Rakushisha, em 2007. Este romance imagina o encontro e a relação entre uma jovem mulher, em luto, desorientada após a morte do filho e a dissolução do casamento, e um ilustrador nipo-brasileiro de segunda geração que, ao ser convidado para ilustrar uma edição brasileira da obra de Bashō, se vê confrontado, de forma ambivalente, com o seu conhecimento muito limitado do Japão e com a necessidade de interrogar a sua identidade hifenizada enquanto brasileiro de ascendência japonesa. Num momento de curiosidade radical e de abertura ao outro — outro tema estruturante de grande parte da obra de Lisboa — ambos aceitam viajar juntos do Brasil até ao Japão, em busca de consolo e de autocompreensão através dos textos de poesia e de viagem do escritor do século XVII.
A partir de Azul-corvo, publicado em 2010, os Estados Unidos passam a constituir, juntamente com o Brasil, um dos vetores identitários e espaciais da obra de Lisboa. Este romance narra a viagem da protagonista adolescente luso-americana do Rio de Janeiro para o Colorado e o Novo México, após a morte da mãe. A jovem é confiada aos cuidados do ex-marido desta, um imigrante e exilado brasileiro, um dos poucos combatentes que sobreviveram à fracassada resistência guerrilheira do Araguaia contra a ditadura militar, e torna-se amiga de um rapaz, filho de imigrantes salvadorenhos indocumentados, que acaba por assumir um papel semelhante ao de um irmão mais novo.
Juntos, viajam em busca de informações sobre o pai biológico da rapariga, reconstruindo ou reinventando laços familiares, identidade e formas de pertença no rescaldo de uma constelação de deslocamentos. Esta história de imigração, e as geografias sociais e físicas que abrange, desenrola-se, em grande medida, através de registos subjetivos de memória, perceção e conhecimento – bem como das lacunas entre eles – e da exploração introspetiva das respostas emocionais e cognitivas ao real. Sobre esta característica, Renata Ribeiro lê o romance como um exemplo do que o crítico Karl Erik Schollhammer denomina realismo afetivo, uma abordagem narrativa que reafirma a exploração da vida interior das personagens como parte integrante da relação entre realidade e representação.
De igual modo, Hanói, publicado em 2013, narra uma história de imigração, ou uma confluência de histórias de imigração, que abrange tipos e geografias diversas. Desta vez, as personagens e os cenários centram-se em Chicago, sendo que o deslocamento físico até à cidade que dá título ao romance ocorre apenas no final, como uma espécie de peregrinação e desfecho. Ainda assim, as identidades e vidas interiores das duas protagonistas, enquanto americanas de terceira cultura, são moldadas e fragmentadas pelas origens, experiências e histórias dos seus pais — do México e do Brasil, dos Estados Unidos e do Vietname, respetivamente — bem como pelas forças sociais e acontecimentos históricos, destacando-se as intervenções militares americanas no Sudeste Asiático, mas também os primórdios, na década de 1990, da migração em larga escala de brasileiros para os Estados Unidos. Marguerite Harrison analisa o romance e as suas personagens através do conceito de map-bending, ou o acto de dobrar um mapa para estabelecer “um ponto de encontro dentro de pontos que não se cruzam” (102), criando, como refere Lisboa, um “estalo de proximidade” (citado em Harrison, 102). Através destas personagens, e do encontro fortuito e da relação transformadora, ainda que tragicamente breve, que se desenvolve entre elas, um bairro de Chicago cruzado por Hanói encontra Chicago cruzado com Governador Valadares. Enquanto as personagens encarnam o transnacional, este também se evidencia através da música, um dos temas do romance, com referências e reflexões sobre o universo musical habitado e cultivado por uma delas, o brasileiro-mexicano-americano que é também trompetista de jazz.
Os dois romances mais recentes de Lisboa continuam a desenvolver esta exploração das variações das conexões e deslocamentos transnacionais, partilhando uma reflexão tanto temática como filosófica sobre as distâncias, proximidades e interconexões entre os seres humanos e os seus outros não-humanos, entre mundos humanos e mais-que-humanos. Em Todos os santos (2019), narrativa que transita entre o Rio de Janeiro e a Oceânia, o Antropoceno é abordado, quer através da investigação da protagonista sobre a migração transpacífica das aves, quer em cenas de águas turbulentas, de mau presságio que ligam a Baía de Guanabara ao rio Manawatū, na Nova Zelândia. Os grandes carnívoros (2024) narra a história de uma mulher que regressa ao Brasil após cumprir uma pena de prisão nos Estados Unidos dado o seu envolvimento com um grupo de ativistas radicais pelos direitos dos animais e com a destruição de um laboratório de investigação. Nesta narrativa, os vetores e fatores de deslocamento são múltiplos, abrangendo trajetórias pelos Estados Unidos, Brasil e México, mas também pelos mundos sociais da família, da comunidade, das amizades e das redes de ativismo, em contraste com o isolamento relativo da prisão e o local escolhido para o regresso e recuperação da protagonista: uma casa alugada nos arredores de uma pequena vila nas montanhas do estado do Rio de Janeiro. À medida que a protagonista recorda as experiências e decisões que a conduziram até ali e estabelece ligações incertas neste novo mundo, o romance interroga as formas e os sentidos da destrutividade e da violência — entre humanos, contra os animais, em defesa das vidas não-humanas e contra si própria.
A trajetória da obra de Lisboa enquanto romancista constitui talvez a manifestação mais consistente e consolidada do transnacional como uma tendência distintiva na literatura brasileira desde finais da década de 1990, período marcado tanto pela intensificação da circulação global de produtos culturais e de brasileiros enquanto viajantes, turistas e imigrantes, como pela projeção do Brasil enquanto presença global, particularmente visível durante os anos de expansão económica, diplomática e de soft power que coincidiram com os dois primeiros mandatos do governo Lula. A confiança e a amplitude instável — temática, geográfica e filosófica — da sua escrita expandem-se ainda mais através da poesia. Ao longo de quatro coletâneas publicadas desde 2014, o cosmopolitismo de Lisboa enquanto escritora e pensadora manifesta-se plenamente, em poemas que dialogam com outros escritores, artistas e pensadores (Pessoa, Goethe, Ailton Krenak, Derrida, John Cage, Taizan Maizumi, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira, Hugo Mujica, Karen Solie, Mariana Ianelli, Jim Harrison, Adília Lopes, entre outros), assim como com temas, seres, imagens, lugares e sentimentos dispersos pelo tempo e pelo espaço, reunidos em constelações por uma voz lírica delicada e incisiva, que interroga, com espanto e maravilha, os factos e as experiências de estar neste mundo, entre os seus horrores quotidianos e a sua beleza hipnotizante. É uma poesia, entre outras coisas, das múltiplas partidas de casa, do avanço pelo mundo e pelos mundos do eu, que habita o universo e os universos de criação própria, consciente ou inconsciente, mas também assombrada pelo que se perdeu ou ficou para trás, por escolha ou pelas inexoráveis forças do tempo e da transformação. Como Lisboa conclui no poema Macedônia, que encerra a coletânea Pequena música (2018), até Alexandre, o Grande, deveria ter sido perseguido pelo pensamento, ou pela incapacidade de pensar, de que talvez a sua casa tivesse sido suficiente: “por isso as lágrimas / não pela Arábia que ficou faltando / Alexandre / mas pela Macedônia / que nem suspeitavas ser bastante” (85). Trata-se de uma sensação e de um sentimento persistentes, dotados de significado cosmopolítico em “Solastalgia”, o poema longo que encerra a coletânea de 2021, O vivo, contemplando a Terra como casa e sentindo as suas perdas, presentes e iminentes, perante um inventário de sinais de alterações climáticas e ecocídio: “vivo no mesmo lugar mas / tudo mudou tanto tudo / ao meu redor está tão diferente / que sinto saudades de casa / mesmo ainda estando aqui” (70).
Citações
O que fica para trás
O que fica para trás
não é um hábito um círculo
de amizades não é a música
do amolador de facas
nem o cheiro do mar em dia de ressaca
nem o guincho amoroso
do último bonde
fica um tempo
o que existimos nesse tempo
descontínuo
e não se trata de querer voltar
ou de nunca ter saído
trata-se do esforço
de recordar dia
após dia que a vida
se faz do improviso
e que partir sempre
é outra maneira
de ficar.
(Deriva: 52)
Migrantes
Y el extranjero es siempre um sospechoso.
Octavio Paz
Deixam a casa
levam na mala o idioma natal
por necessidade ou hábito
como um documento de identidade
a comprovar
que são aquilo que deixam
e por inferência que deixam
aquilo que são
mas agora desancorados já não sabem
em idioma algum o que deixam
nem o que são
nem o que somam
nesta viagem que é um longo
e lento aprender a flexionar
sinais de subtração.
(Idem: 53)
Num saquinho de papel se embaralham nomes e palavras: Albuquerque, Copacabana, Londres, Araguaia, LIFE. IS. GOOD. Amazônia Colorado Guerrilha. Texas. Namorado Americano Lugar Nenhum. Algumas das palavras dizem respeito ao presente, outras vêm do passado, outras podem pertencer a algum futuro. Estão ali, confundidas. É um saquinho de papel que Vanja vai levar, sem saber, na mala com as coisas importantes, quando fizer sua viagem de volta ao país onde nasceu e onde o grito de ordem a-vida-é-boa se escreve assim: life is good.
(Azul-corvo: 52)
Fernando já tinha dado tantas voltas depois de sair de casa que já não lembrava mais qual o caminho. Claro: a casa já não estava mais lá, portanto o caminho não podia estar. E não é que a casa estivesse, agora, em toda parte – não, isso é para os cidadãos do mundo, para os que viajam por esporte. Para os que nunca se arrastaram sobre a lama congelada na China e nunca correram o risco de ser devorados pelos ursos na Alasca. Não é que a casa estivesse em toda parte: a casa não estava em parte alguma. (Idem: 73)
Uma expatriada desde o berço, uma expatriada para sempre. Um resto de qualquer coisa, jornal, sacola de plástico, que vai sendo levado por aí com o vento, sem muito propósito.
Duas gerações depois, o que é que Alex tinha a ver com isso?
Uma lua de distância da história de Linh e Huong e Trung, o que David tinha a ver com isso?
Guerras em países distantes, e ainda por cima em décadas passadas, eram para os livros de história. Eram para alguém fazer um documentário de tempos em tempos. Eram para os pesquisadores dos departamentos apropriados nas universidades.
Não eram para deixar nosso corpo desassossegado, como se fosse conosco, Alex pensou. Não era conosco. Certo? (Hanói: 181)
Voltei à nossa casa na rua Te Awe Awe após aquele longuíssimo voo, do Rio a Buenos Aires, de Buenos Aires a Auckland, de Auckland a Palmerston North. Tanto tempo que a alma teria de recuperar. E o trecho mais longo de todo o trajeto foi o de carro do pequenino aeroporto de Palmy até a nossa casa. Dez minutos, se tanto. Você ao volante e eu mordendo os lábios por dentro até tirar sangue.
Era um dia da chuva forte. O rio estava gordo. O Manawat¬ū, belo e triste, a poluição invisível, inchado feito um bicho que estivesse engolindo a presa. Você foi até a janela. Apesar da chuva e do frio, forçou a tranca meio emperrada, abriu a vidraça. As águas de Iansã despencando do céu. O céu despencando, sei lá. Isabel tinha me contado, em algum momento, que para os ianomâmis era isso que aconteceria quando os xamãs todos morressem. Não haveria mais ninguém capaz de sustentar o céu. (Todos os santos: 135)
Bibliografia Ativa Selecionada
Lisboa, Adriana (2010), Azul-corvo. Rio de Janeiro, Rocco.
— (2019), Deriva. Belo Horizonte, Relicário.
— (2013), Hanói. Rio de Janeiro, Alfaguara.
— (1999), O fio da memória. Rio de Janeiro, Rocco.
— (2024), Os grandes carnívoros. Rio de Janeiro, Alfaguara.
— (2021), O vivo. Belo Horizonte, Relicário.
— (2014), Parte da paisagem. São Paulo, Iluminuras.
— (2018), Pequena música. São Paulo, Iluminuras.
— (2007), Rakushisha. Rio de Janeiro, Rocco.
— (2001), Sinfonia em branco. Rio de Janeiro, Rocco.
— (2022), Todo o tempo que existe. Belo Horizonte, Relicário.
— (2019), Todos os santos. Rio de Janeiro, Alfaguara.
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Bibliografia Crítica Selecionada
Harrison, Marguerite Itamar (2019), “Spheres of Simultaneity in Adriana Lisboa’s Novel Hanói”. Brasil/Brazil, v. 32(60): 99-112.
Martins, Analice de Oliveira (2021), “Geografias do afeto e do desterro”. Téssera, Edição Especial (fev./jul.): 154-158. Consultável em: https://seer.ufu.br/index.php/tessera/article/view/59831/32322
McNee, Malcolm K. (2016), “Adriana Lisboa and the Delicate Task of Mourning”. Metamorphoses, v. 24(1-2): 181-187.
Neves, Júlia Braga (2015), “Um sentido para o fim: espaços migratórios e melancolia em Hanói, de Adriana Lisboa”. Estudos da Literatura Brasileira Contemporânea, v. 45: 139-157. Consultável em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/10010/8843
Nielson, Rex P. (2014), “Patriarchy’s Tramautic Afterlives: Adriana Lisboa’s Poetics of Silence in Sinfonia em branco”. Chasqui, v. 43(2): 48-61.
Ribeiro, Renata Rocha (2019), “A realidade obedecia a uma outra escala: realismo afetivo em Azul-corvo, de Adriana Lisboa”. Alea: Estudos Neolatinos, v. 21(1). Consultável em: https://doi.org/10.1590/1517-106X/211111133
Schøllhammer, Karl E. (2013), “Realismo afetivo: evocar realidade além da representação”. In: Schøllhammer, Karl E. Cena do crime: violência e realismo no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013: 155-185.
Silva, Mirian Cardoso da, e Lúcia Osana Zolin (2018), “Entre fragmentos identitários e estruturais: o romance contemporâneo de Adriana Lisboa”. Veredas, v. 30: 147-160. Consultável em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/557/445
Silva, Sandro Adriano da (2024), “Para o presente e para o futuro: entrevista com Adriana Lisboa”. Acta Scientiarum: Language and Culture, v. 46(2): 1-6. Consultável em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciLangCult/article/view/72008/751375157841
Autor(a): Malcolm K. McNee | Personal page |
Tradução: Marta Correia