(1979 - )

Nascido em Salvador, Bahia, Brasil, em 6 de agosto de 1979, Itamar Rangel Vieira Júnior é reconhecido como uma das vozes mais expressivas da literatura brasileira contemporânea. O autor constrói uma obra que entrelaça ancestralidade, memória e território, projetando na língua portuguesa as reverberações da diáspora africana e afro-brasileira. Desde abril de 2021, Itamar é colunista do jornal Folha de São Paulo, e publica, mensalmente, textos em que discute temas sobre acontecimentos da atualidade.
Graduou-se em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituição na qual também concluiu o mestrado e o doutorado, com pesquisas voltadas às comunidades quilombolas e à relação entre territorialidade, trabalho e identidade. A formação acadêmica e a experiência profissional como servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), órgão responsável por políticas agrárias e regularização de territórios quilombolas, constituem um substrato essencial de sua literatura, na qual a terra não é apenas cenário, mas corpo, memória e destino coletivo.
A trajetória de Itamar é marcada pela convergência entre ciência e arte, entre o compromisso político e a sensibilidade estética. Seu percurso literário tem início com o livro Paraíso (2003), publicado de forma independente. Essa obra inaugural antecipa o tom ético e poético de sua escrita posterior. Em seguida, publica o livro de contos Dias (2012), pela editora Caramurê, em que aprofunda a reflexão sobre desigualdade estrutural, racismo e espiritualidade afro-brasileira, temas que se consolidam em sua literatura madura.
Em A oração do carrasco (2017), coletânea de contos lançada pela editora Mondrongo, Itamar aprofunda o olhar sobre os sujeitos marginalizados, deslocando a narrativa do centro urbano para as margens rurais, onde a experiência do Brasil profundo se revela em sua dimensão de resistência. As vozes silenciadas de camponeses, mulheres negras, trabalhadores explorados, comunidades tradicionais, ganham densidade simbólica e força poética.
É com Torto Arado (2019) que Itamar Vieira Júnior se consagra nacional e internacionalmente, tornando-se uma referência incontornável da literatura de língua portuguesa. Vencedor dos prêmios LeYa (2018), Jabuti (2020), Oceanos (2020) e Prêmio Biblioteca Nacional (2020), o romance se inscreve na linhagem das narrativas da diáspora afro-brasileira ao recontar, pela ficção, as continuidades do cativeiro no sertão baiano contemporâneo. A história das irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores rurais descendentes de escravizados, expõe as tramas de poder, misticismo e desigualdade que configuram a vida em uma fazenda no interior da Chapada Diamantina.
Em Torto Arado, a terra assume papel central, é signo de sobrevivência, mas também de aprisionamento e disputa. O romance resgata a memória de uma luta secular pela posse e pela permanência no território, evidenciando a forma como o Brasil mantém, em suas estruturas agrárias, os legados do sistema escravista. Essa dimensão territorial se articula à espiritualidade afro-brasileira, ao encantamento, aos rituais de cura, como expressão de uma ancestralidade que resiste ao apagamento. Ao fazê-lo, Itamar reinscreve na literatura o gesto de narrar como forma de restituição da voz e da terra, como exercício de resistência diante da herança do colonialismo.
Com Torto Arado, o autor não apenas consolida sua projeção literária, mas também inaugura a trilogia que se completa com Salvar o fogo (2023) e Coração sem medo (2025). Essa trilogia articula um mesmo universo simbólico e narrativo em torno da ancestralidade, da espiritualidade afro-brasileira e das lutas pela terra, compondo um amplo painel sobre o Brasil profundo e as heranças da diáspora africana. Em Salvar o fogo, o autor amplia o alcance de sua reflexão, abordando as continuidades da violência e da exploração nas relações de poder, enquanto em Coração sem medo a escrita se torna gesto de cura e reconciliação, encerrando o ciclo com um tom de esperança e permanência.
A escrita de Itamar emerge como um lugar de enunciação da ancestralidade negra, herdeira das cosmovisões africanas que estruturaram as comunidades formadas a partir da diáspora. Seu projeto literário se ancora na oralidade e na transmissão de saberes, elementos que transformam suas narrativas em uma espécie de arquivo espiritual e coletivo. O autor faz da palavra um veículo de memória, um espaço em que as vozes de antepassados escravizados continuam a vibrar, sustentando a sobrevivência simbólica de um povo que se recusa a ser esquecido.
A ficção de Itamar mobiliza o que Paul Gilroy (1993) chamou de “Atlântico Negro”: uma rede de trocas e resistências em que a identidade negra se forja na travessia e na dispersão. Em seus textos, as marcas da diáspora não são apenas históricas, mas espirituais, elas se manifestam nos corpos, nos gestos, nas narrativas orais e nas práticas religiosas. Torto Arado é, nesse sentido, uma alegoria da diáspora africana no Brasil porque representa, no presente, a continuidade histórica das violências produzidas pela escravidão e pelo deslocamento forçado de populações africanas para o território brasileiro.
Embora a narrativa se situe no sertão baiano contemporâneo, a vida das personagens revela permanências estruturais do sistema colonial: trabalhadores negros descendentes de escravizados continuam submetidos à exploração da terra, à ausência de direitos e à marginalização social. A fazenda em que vivem funciona como metáfora das antigas estruturas escravistas, uma vez que os personagens permanecem vinculados ao trabalho compulsório e à dependência dos grandes proprietários rurais, mesmo após a abolição formal da escravidão no Brasil, ocorrida em 1888.
A diáspora manifesta-se, ainda, na preservação de práticas espirituais, memórias ancestrais e formas de organização coletiva herdadas das culturas africanas, elementos que resistem ao apagamento promovido pelo colonialismo e que atravessam diferentes obras do autor, reaparecendo em narrativas nas quais a ancestralidade, a experiência do deslocamento e a permanência da memória coletiva continuam organizando a vida de sujeitos negros marginalizados.
Essa dimensão diaspórica continua em Doramar ou a odisseia (2021), coletânea de contos que reafirma a potência política da voz feminina negra e a transversalidade entre o sagrado e o cotidiano. As personagens de Doramar são herdeiras do mesmo universo simbólico que atravessa Torto Arado: mulheres que resistem à pobreza e à solidão, que caminham guiadas pela memória ancestral e que reconfiguram o território como lugar de afeto e permanência. A escrita de Itamar, ao revisitar a experiência da diáspora, transforma o sofrimento em potência estética e política.
Sua literatura é atravessada por uma consciência histórica profunda: a de que o Brasil contemporâneo ainda é o resultado de um projeto colonial inacabado. Nesse sentido, o autor articula, de modo sensível e contundente, o que Achille Mbembe (2018) denomina “necropolítica”, o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, demonstrando como a violência sobre os corpos negros e pobres continua a ser administrada pelo Estado e pelas elites fundiárias. Ao situar o campo como espaço de exclusão, mas também de resistência, Itamar reinscreve o lugar do negro e do camponês na narrativa nacional.
Um dos eixos mais consistentes da obra de Itamar é a problematização do territorialismo e das disputas de terra. Seus personagens vivem em territórios tensionados, lugares onde o direito ancestral à terra colide com a lógica capitalista e latifundiária. Essa tensão está presente desde seus primeiros contos e alcança densidade máxima em Torto Arado, no qual a terra é o elo entre passado e presente, entre o cativeiro e a liberdade.
A experiência de Itamar como servidor do INCRA e pesquisador de comunidades quilombolas imprime à sua ficção um olhar geográfico e político singular. A paisagem em seus textos é viva: ela fala, sente, protege e pune. A terra é, ao mesmo tempo, espaço de opressão e território de pertencimento, e sua posse é uma metáfora para a busca de autonomia e reconhecimento. Ao recuperar o vínculo sagrado entre corpo e chão, o autor desafia o paradigma colonial que transformou a terra em mercadoria e o trabalhador rural em força descartável.
A representação das lutas pela terra na obra de Itamar dialoga com o imaginário das comunidades quilombolas, herdeiras diretas da diáspora africana. Em suas narrativas, a quilombagem é mais do que resistência política, é uma forma de organização simbólica e afetiva, um modo de existir que reatualiza os valores da coletividade, da oralidade e da partilha. Essa dimensão quilombola da escrita é também o que aproxima Itamar de autores como Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, que, a seu modo, também escrevem a partir das encruzilhadas da diáspora.
Itamar faz de sua literatura um território de reexistência, termo que combina resistência e reinvenção. Sua obra propõe uma escrita que devolve humanidade aos sujeitos destituídos de representação e reinscreve o negro no centro da história nacional. A força de sua ficção está em unir o realismo social a uma profunda dimensão espiritual, afirmando que a ancestralidade é uma forma de conhecimento e que a memória é, ela mesma, um ato político.
Ao narrar o Brasil a partir de seus subterrâneos, das senzalas reconfiguradas em casas de fazenda, dos currais e roçados, das vozes que a história oficial tentou apagar, Itamar produz uma poética do invisível. Sua escrita é herdeira da diáspora, mas também é invenção de um novo tempo: um tempo em que as vozes da terra, do encantamento e da memória voltam a ter centralidade.
Em diálogo com o pensamento de Stuart Hall, sua obra pode ser compreendida como uma prática de identidade em movimento, que recusa essencialismos e reconhece a mestiçagem como fundamento da cultura brasileira. Assim, Itamar Vieira Júnior figura como um dos principais narradores do Brasil diaspórico, um escritor que faz da língua portuguesa um espaço de reparação e de futuro.
Citações
E cores, algumas, sabia o que representava – presumíveis representações dos deuses da África, daquela terra separada pelo oceano profundo, pelas montanhas imersas, os monstros do mar, as florestas, os ouros negros no fundo do seu fundo, nas camadas mais íntimas da Terra. Ou daquela pequena África, que há do lado de cá e de onde brotara, como um ramo de guiné anos antes, e que, desde então, vivia a busca da solidão e do recolhimento, forçando-se a um inexplicável exílio pelo interior de si mesma. A terra era um pequeno continente de hábitos, histórias e costumes, dentro de um outro continente que era seu país, que, por sua vez, era parte da extensa América-latina. Estava agora ali, sentada diante do pai, oráculo dos ancestrais, homem de sabedoria e guardador dos costumes de um povo. Era um pouco retornar à terra idílica de sua infância, perdida nas lembranças de algo que sabia fazer parte , mas que só agora encontrava, definitivamente, irremediavelmente, no espaço ao norte do seu mundo, em meio a conflitos de terra, do homem e da história. Em meio ao exílio de si mesma”. (Dias: 70)
[…] nenhum fidalgo da irmandade comprou a minha liberdade, então tive que lutar, inventar, enganar, eu tive muito que sonhar, até que um dia falei para mim mesma que da próxima lua não passava, lembrei das histórias de guerra que minha avó contava, sonhei com o dia em que voltaria para onde nunca fui, mas era o lugar que não saía do meu pensamento, eu tomaria o primeiro navio e voltaria para o outro lado, o lado em que o sol nasce, de onde minha avó veio, voltaria para lá e colocaria minha própria roça de inhame, teria outros filhos, teria marido, minha avó me disse que na aldeia dela os homens tinham muitas mulheres, eu não me importaria, pagaria o dote e teria um marido, teria filhos, alimentaria todos, brigaria com as outras mulheres deles, mas tudo era um sonho, eu não segui para o porto porque não tinha nem conto, nem mil-réis, e tinha medo que me prendessem, então fui para o lado do sol.” […] (A Oração do Carrasco: 27)
O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre. Era o medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir a travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir. Medo de que não gostassem de você, do que fazia, que não gostassem do seu cheiro, do seu cabelo, de sua cor. Que não gostassem de seus filhos, das cantigas, da nossa irmandade. Aonde quer que fôssemos, encontrávamos um parente, nunca estávamos sós.” (Torto Arado: 178)
“[…] ela não gostava da minha pele preta, e minha avó disse que do outro lado do mar, na sua aldeia, não havia brancos, e eu não queria ser branca e perversa como minha senhora, que não salvou Inácio da maldade do senhor, essa senhora muito branca com pó de arroz no rosto para ficar mais branca, essa senhora tinha muitos deuses no seu oratório, tinha muitas cruzes espalhadas pela casa, tinha cruz no peito, tinha contas e cruzes nos punhos, adorava um deus branco como os que arrancaram minha avó da roça de inhame, do outro lado do mar, um deus branco que veio jogando corpos pretos pelo mar, um deus branco que não achava que também tínhamos alma, não nos contava como almas, éramos coisas, ele nos castigava com chibatas e o sangue descia como riachos das nossas costas, esse deus branco deles não fazia justiça, talvez não gostasse do nosso povo, então eu só podia pedir ao deus dos meus antepassados, a Sàngó, que louvamos nas matas longe da casa-grande […].” (Doramar ou a Odisséia: 53)
Bibliografia Ativa Selecionada
Vieira Júnior, Itamar (2003), Paraíso. Salvador, Câmara Brasileira do Jovem Escritor.
— (2012), Dias. Salvador, Caramurê.
— (2017), A oração do carrasco. Ilhéus, Mondrongo.
— (2018), Torto Arado. Lisboa, LeYa.
— (2021), Doramar ou a odisséia. São Paulo, Todavia.
— (2023), Salvar o fogo. São Paulo, Todavia.
— (2024), Chupim. São Paulo, Baião.
— (2025), Coração sem medo. São Paulo, Todavia.
Bibliografia Crítica Selecionada
Mbembe, Achille (2018), Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo, n-1 Edições.
Gilroy, Paul (1993), The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness. Londres, Verso.
Hall, Stuart (2003), Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, Editora UFMG.
Evaristo, Conceição (2014), Olhos d’água. Rio de Janeiro, Pallas.
Gonçalves, Ana Maria (2006), Um defeito de cor. Rio de Janeiro, Record.
Nascimento, Abdias (1978), O genocídio do negro brasileiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
Vieira Júnior, Itamar (2017), Trabalhar é tá na luta: vida, morada e movimento entre o povo de luna, Chapada Diamantina. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia.
Autor(a): Bruma Ilarráz | ORCID