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Rodrigo Leal de Carvalho

Passagens:

(1932-2026)

Nascido na Praia da Vitória (Açores), a 20 de novembro de 1932, Rodrigo Leal de Carvalho licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, em 1956. Exerceu funções em São Tomé e Príncipe.  Posteriormente, rumou a Macau em 1959, onde residiu até 1963, ano em que foi promovido a juiz e foi destacado para a Guiné-Bissau. Regressou a Macau em 1966, para depois, em 1971, partir para Angola e depois para Moçambique. Voltou a Lisboa e, em 1976, regressa a Macau, onde se fixa até 1999. Neste Território foi Procurador da República, tendo sido nomeado Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça em 1995. Foi Presidente do Tribunal de Contas de Macau entre 1996 e 1999.

Requiem por Irina Ostrakoff, o seu primeiro romance, foi distinguido com o Prémio Camilo Pessanha (atribuído pelo Instituto Português do Oriente). Editado em 1993, com uma 2ª edição em 1995 e uma terceira em 2015, foi traduzido para chinês e búlgaro. A narrativa inicia-se com a morte de Irina Ostrakoff, ocorrida durante uma cerimónia no Consulado de Inglaterra, para depois recuar aos anos da sua adolescência e formação, cruzando tempos e espaços que se estendem desde a Rússia czarista, passando por Xangai, para culminar numa “descida aos infernos” com o drama dos refugiados em Macau.

Com efeito, os oito romances de Rodrigo Leal de Carvalho, publicados pela editora Livros do Oriente, contêm ambientes e personagens macaenses. Seguem-se assim, a este primeiro os seguintes: Os Construtores do Império (1994); A IV Cruzada (1996); Ao Serviço de Sua Majestade (1996); O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres – 1999; A Mãe – 2000; O Romance de Yolanda (2005) Além disso, em 2007, Leal de Carvalho publicou As Rosas Brancas de Surrey, enquadrada na iniciativa do jornal Ponto Final, de Macau “Cinco anos – cinco livros”, lançada em 2004, em parceria com a Editora Livros do Oriente. Consistia na publicação semanal de capítulos de cinco obras inéditas de temática macaense de cinco autores portugueses, a editar integralmente pela Livros de Oriente, após a sua publicação em folhetim.

Num mundo atravessado por questões referentes à imigração e à problemática dos refugiados, a obra de  Rodrigo Leal de Carvalho permite-nos conhecer outras crises migratórias com alguns contornos semelhantes, ocorridas em Macau, lugar privilegiado de cruzamento de povos e de culturas, ou, como refere o autor em Requiem por Irina Ostrakoff:  “Fadado (ou condenado), pela sorte ou pela geopolítica, a cadinho de culturas e etnias, o minúsculo enclave acabou por ser um porto de abrigo para gentes de mundos vários que aqui vieram parar por desvairadas razões [ …]”.(19). Estas palavras espelham a importância de Macau como espaço de convergência de povos deslocados. É precisamente o deslocamento a força motriz de Requiem por Irina Ostrakoff (1993) e de A Mãe (2001). Duas obras que dialogam entre si, por terem como protagonistas refugiados russos apátridas – que, inclusive, se entrecruzam em A Mãe, aquando do exílio em Xangai – e pelo contexto histórico-social que abordam.

O romance A Mãe inspira-se em factos ocorridos em Macau no pós-guerra do Pacífico, narrando a saga de Natasha Korbachenko. Nascida na Sibéria, exilada para a Manchúria devido à Revolução bolchevista, Natasha parte depois para Xangai onde sobrevive, dedicando-se à prostituição. Acaba por conhecer um estudante russo judeu (Vassili Yakovitch) com quem casa e tem cinco filhos. No momento em que Vassili se torna professor numa instituição de ensino superior em Xangai e a família atingira alguma estabilidade, eclode a guerra do Pacífico. Xangai é ocupada pelos japoneses, que iniciam uma dura perseguição contra os judeus. A família Yakovitch foge para Macau, onde sobrevive muito precariamente, enquanto aguarda a chegada de um visto de entrada nos Estados Unidos da América.

Esta transição e encontro das personagens de uns romances para os outros é uma marca da escrita de Leal de Carvalho, com intenção de, na linha de Balzac, criar uma “comédia humana” localizada em Macau. Nestes dois romances (e noutros) há personagens que servirão como adjuvantes nas ações, assumindo-se como conetores dos destinos das protagonistas. Assim, em Requiem por Irina e a A Mãe, temos, por exemplo:  Big Bertha, uma refugiada russa que se dedica à prostituição em Macau e que tentará apoiar, na medida das suas possibilidades, tanto Irina, como Natasha; Monsieur Dêdé, ou seja, Monsieur Desirée Dieudonné, proprietário dos hotéis onde Igor trabalha e que, como refere Seabra Pereira “aproxima-se da figura pícara e como tal contribui para a comédia humana do romance (321). Esta personagem confere comicidade ao discurso – aliás, a ironia e o sentido de humor transparecem na escrita de Leal de Carvalho. Um exemplo disso é a referência ao facto de Desirée, que vive entre Oriente e o Ocidente, se sentir incomodado com a guerra porque “o obrigara a interromper as suas visitas regulares a Paris, onde vinha a banhos de civilização e cura das águas […] na ronda assídua dos bistros e brasseries da capital (140). Outra personagem comum é Cynthia Salles, de nacionalidade portuguesa, mas funcionária do Consulado Britânico, companheira de viagem na travessia de Natasha e da família para Macau e que em Requiem apoia Irina, na fase final, dando-lhe acesso ao Consulado Britânico, no intuito de ajudá-la a recuperar o estatuto social perdido na desventurada existência de refugiada apátrida. Também ela é descrita como dotada de peculiaridades que a destacam e lhe atribuem um tom cómico: “a estatura atarracada, o carão feio e simpático, […] a gargalhada rouca um tanto máscula e […] o mesmo charuto fumado com visível prazer e gostoso deleite” (285). Outros elementos relevantes no apoio aos refugiados são: o Padre Percival homem generoso que trabalha na Assistência (e que, nos dois casos, incentiva as protagonistas a pedirem o visto de entrada nos Estados Unidos, alimentando-lhes o sonho americano, como modo de escapar à miséria) e a Irmã Benvinda, freira hospitalar, que trabalha no hospital onde Irina é internada e onde ficará também Ivan, o filho de Natasha. Embora distante das dimensões da “comédia humana” de Balzac, a presença destas personagens reforça a verosimilhança dos romances e a configuração de Macau como um local marcado pela coexistência de mundos e de culturas, transparecendo o objetivo “de compor um painel polifacetado de humanidade característica” (Pereira, 2015: 321). Neste âmbito, será pertinente salientar que Leal de Carvalho revelou que a intenção subjacente aos encontros e reencontros de personagens, ao longo das diversas obras, seria a representação mais realista da sociedade de Macau. (Blayer e Gago, 2016: 119).

Em suma, Rodrigo Leal de Carvalho constrói romances cujas personagens parecem feitas de carne e osso, com uma consistência que comunga de alguns dos procedimentos comuns ao romance realista, intercaladas com reflexões irónicas, críticas e impregnadas de um subtil sentido de humor. Nestas obras, através de um discurso dinâmico, conciso, é representada a saga das personagens e o caleidoscópio social e histórico no seio do qual se vão forjando as identidades. Neste contexto, se o reaparecimento de personagens de umas obras para as outras, visa uma recriação da dinâmica social, o recurso a expressões noutras línguas pretende reproduzir a diversidade linguística existente em Macau, esse porto de abrigo, quixotescamente aberto aos povos que tudo perderam, desde à pátria à dignidade. Embora o tempo histórico se localize na primeira metade do século XX, as obras revestem-se de atualidade no mundo de hoje, transmitindo exemplos de humanismo, solidariedade e de resistência, nas condições mais adversas.

 

Citações

Cegos em Xangai!
Tão cegos como em Paris, tão cegos como em Odessa.
Encerrados no seu pequeno mundo, artificial e brilhante, absorvidos num quotidiano de lucros fáceis, compromissos sociais e pequenos escândalos, os privilegiados daquela sociedade fechada cerram os olhos e parecem ignorar a tempestade que lavra à sua volta, no país imenso, e  mais perto, já portas a meias, naquele outro mundo da cidade chinesa de bairros fétidos onde reinam as tríades, a corrupção, a prostituição, a droga, a miséria. (Requiem: 155)

Esquecem-se barreiras sociais do passado – é largo e espectro social dos refugiados sem pátria – e vivem como podem; ajudam-se guerreiam-se, amam-se, odeiam-se.
Mas quando, mais tarde, nas noites frias do curto Inverno macaense ou nas quentes e húmidas do longo período estival, Igor agarrava na balalaika que salvara e cantara canções russas no seu quente barítono, ainda envolvente, os outros refugiados juntavam-se-lhe, faziam coro espontaneamente e recreavam por uns breves momentos, naquela little Rússia de gheto, uma saudade da Pátria tão distante, tão presente, tão viva, tão perdida… (Requiem: 170-171)

[…] os Yakovitch podiam conversar na língua-mãe e até, de longe, em longe, naquela Little Russia, de gheto e de miséria, ouvir alguém cantar ao som de uma guitarra ou de uma balalaika uma Occhy Choernya , nostálgica, magoada e trágica, um hino de saudade às searas da Ucrânia, às neves da estepe, à pátria perdida e sempre presente. E isso era, no meio da mais desoladora pobreza, ainda um laço ao passado, à grande-mãe Rússia e à identidade nacional de que os burocratas do Kremlin os tinham arbitrariamente espoliado. (A Mãe: 161-162)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Carvalho, Rodrigo Leal (2001), A Mãe. Macau, Livros do Oriente.

—  (2015), Requiem para Irina Ostrakoff. (3ª ed), Macau, Livros do Oriente.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Blayer, Irene M. F e Gago, Dora Nunes (2016), “Diálogos com Rodrigo Leal de Carvalho: travessias transatlânticas”, InterDisciplinary Journal of Portuguese Diaspora Studies, 5.

Freitas, Anabela e Gago, Dora (2026), Rodrigo Leal de Carvalho: Dois Olhares sobre a sua obra, Ponta Delgada, Letras Lavadas.

Gago, Dora Nunes (2020), Uma cartografia do Olhar. Exílios, imagens do estrangeiro e intertextualidades na Literatura Portuguesa, Ed. Húmus,

Pereira, José Carlos Seabra (2013), O Delta Literário de Macau, Macau, IPM.

Sena, Maria Teresa (2010), Carvalho, Rodrigo Leal de. In M. A. Espadinha (Ed.), Ditema, Dicionário Temático de Macau (pp. 276-277), Vol I. Macau, Universidade de Macau.

Autor(a): Dora Nunes Gago | Ciência Vitae


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Dora Nunes Gago, "Rodrigo Leal de Carvalho", Diásporas em Português, ISBN 978-989-35462-0-8, 25 de Setembro, 2026, https://diasporasemportugues.ilcml.com/glossary/rodrigo-leal-de-carvalho/

Verbetes de Dora Nunes Gago: Rodrigo Leal de Carvalho, Deolinda da Conceição, Fernanda Dias, Maria Ondina Braga,