pdf

Maria Valéria Rezende

Passagens:

(1942-2026)

Maria Valéria Rezende nasceu no dia 8 de dezembro de 1942 em Santos, São Paulo, onde morou até os 18 anos. Mudou-se para a Paraíba em 1976, onde vive até hoje. Mesmo tendo vivido em vários países, Rezende se sente em casa na Paraíba. Como militante da Juventude Estudantil Católica e integrante da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho –, Rezende percorreu vários países do mundo e mesmo dentro do Brasil sempre fez trabalhos humanitários voltados para os mais carentes. Foi em João Pessoa, Paraíba, que em 2018 ela se uniu a outras mulheres para fundar o Mulherio das Letras, um coletivo de mulheres artistas, escritoras, críticas e pesquisadoras que visa a facilitar a edição e divulgação da Literatura.

É formada em Pedagogia, pela PUC-SP, e em Língua e Literatura Francesa, pela Universidade de Nancy; é mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba. Tem formação religiosa e como freira fez inúmeros trabalhos sociais ao redor do mundo. Cuba, México e Uruguai são os principais países por onde ela passou, praticando ações de ajuda humanitária. Publicou mais de 20 obras, entre as quais O voo da guará vermelha (2005) e Quarenta Dias (2014), vencedora do prêmio Jabuti no mesmo ano. Outros cantos (2016) foi vencedor do prêmio Casa de Las Américas em 2017, do prêmio São Paulo de Literatura no mesmo ano e terceiro colocado no prêmio Jabuti. Em 2020, o romance Carta à rainha louca ficou em 3º lugar no prêmio Oceanos. Nos últimos anos publicou, em 2021, a novela Rio de sonhos, e em 2023, o infanto-juvenil Vovó também sabe voar e o livro de haikais A voz dos ares, escrito com Marilia Kubota.

Sua obra é marcada por narrativas de mulheres fortes e contestadoras. Também se destaca em sua escrita a presença forte do sertão nordestino e seus regionalismos. Rezende se preocupa em tornar protagonistas os invisibilizados da sociedade brasileira: professoras, prostitutas, trabalhadores braçais, mulheres velhas e à margem na vida. Assim é o caso do pedreiro Rosálio e da prostituta Irene em O voo da guará vermelha, que são unidos pelo afeto e pelo poder da palavra; ou de Maria, professora militante de Outros cantos, que ao decidir deixar a metrópole e se embrenhar no sertão para ensinar no MOBRAL, acaba praticando educação popular e política; ou ainda Alice, de Quarenta dias, que, ao perceber-se alvo de chantagens e mentiras da única filha, empreende um verdadeiro percurso de libertação e resistência; por último, pensemos em seu romance Carta à rainha louca, de 2019, que parte das experiências diaspóricas da narradora Isabel das Santas Virgens para tratar do patriarcado colonial no Brasil, trazendo um importante aparato baseado em pesquisa histórica.

A diáspora em Carta à rainha louca aparece como um dos eixos fundamentais do romance, articulada à condição das mulheres na Colônia, à violência patriarcal e às estruturas de poder do período. Nesse livro, uma mulher de nome Isabel das Santas Virgens, encarcerada no Convento do Recolhimento da Conceição, escreve à rainha Maria I, narrando os infortúnios e humilhações a que as mulheres pobres, sem família e escravizadas eram submetidas. Desde ações violentas à falta de comida e exploração sexual, Isabel expõe a sua Majestade a realidade da colonização brasileira praticada pelos homens da coroa. Ambientada em Olinda, cidade do estado de Pernambuco, nos anos de 1789 a 1792, essa narrativa denuncia a situação de mulheres que precisam se defender e lutar para continuarem vivas. Rezende parte de uma pesquisa documental para escrever a missiva da personagem à rainha e denunciar a situação em que se encontravam não apenas as mulheres, mas também os povos originários e africanos que viviam no Brasil. A autora usa a linguagem de Setecentos para trazer o relato de uma personagem que denuncia os abusos impetrados pela Coroa às prisioneiras deste lado de cá do oceano. Para manter-se viva, a personagem precisa fugir, empreender uma escalada de deslocamento e até fingir-se de homem.

O romance retrata o dilema de uma mulher para levar o leitor a refletir a situação de toda uma minoria alijada da sociedade. Em sua missiva, Isabel denuncia a situação de parte importante da sociedade daquela época. Estando primeiramente reclusa num convento na Bahia para acompanhar sua senhorinha Blandina – encarcerada contra sua vontade por determinação paterna –, a protagonista narra a sua história desde o nascimento, explicando, por exemplo, como o pai, que era português, veio para o Brasil.  O romance retrata de forma verossímil essas empreitadas penosas e violentas, que duravam meses causando adoecimento e  mortes, principalmente aos escravizados. Essa passagem remete à diáspora africana, pois os pais da protagonista vieram para o Brasil num navio negreiro. O navio negreiro no romance é apresentado não apenas pela difícil viagem, a violência imposta e as muitas mortes. O enredo destaca a capacidade de resistir.  O escravo Gregório, que fora dado como morto e jogado ao mar, foi salvo pelo pai de Isabel. Esse personagem representa a valorização da memória e impede o apagamento de sua cultura. Assim, é possível depreender o diálogo entre o romance e a crítica decolonial, pois a obra encontra meios de valorização da memória coletiva, da ressignificação da cultura diaspórica e de novos modos de pensar, problematizando a lógica colonialista que ainda existe.

O dilema dos sujeitos diaspóricos que vivem entre o desejo de retornar à terra de origem e a necessidade de permanecer na terra de destino é relatado nessa obra. A sensação de não-pertencimento é retratada logo no início da narrativa com a lembrança de Isabel sobre seus pais. Eles eram portugueses e vieram para o Brasil atrás de melhores condições de vida com o desejo de um dia voltarem à sua aldeia. De origem pobre, o pai da protagonista desposara sua mãe para ter filhos legítimos e cobrar terras que foram usurpadas de sua família. A mãe de Isabel sofreu muito com a viagem e ao desembarcar na Bahia ficou ainda mais doente. Já grávida, não  resistiu ao parto, morrendo pouco tempo depois. Isabel cresceu sem a presença materna, sendo criada na senzala para ser amamentada pelas escravas. O parto, tido por milagre, aconteceu no dia da Festa da Visitação, recebendo a protagonista, por esse motivo, o nome de Isabel Maria das Virgens. Mesmo tendo crescido com pouco contato paterno, Isabel atribui ao pai características como lealdade, força e dedicação. Características que causaram a sua ruína, pois se ele e sua mãe tivessem ficado em Portugal, vivendo na pobreza, em vez de acompanhar Dom Afonso para cobrar uma sesmaria na Bahia, poderiam ter tido  melhor vida.

De maneira análoga à travessia do Atlântico feita pelos pais, Isabel também precisou deslocar-se para escapar da morte. Esse é um aspecto importante para a classificação da obra como metaficção historiográfica (Hutcheon, 1991), pois se trata de uma  leitura crítica do passado que apresenta ao leitor uma nova possibilidade de ler a história a contrapelo. Quando já adolescente e sendo entretanto dama de companhia da senhoria Blandina, mudou-se com ela para um convento na Bahia. Blandina havia dado à luz a  um filho bastardo e, para cessar a vergonha da família, foi encarcerada no mosteiro como monja de véu preto, uma espécie de reclusa que não pode mais se casar. Isabel era pobre e sem dote, seu pai havia desaparecido numa de suas empreitadas a mando do patrão. Blandina morreu de tristeza algum tempo depois de ver-se encarcerada contra sua vontade. Isabel deixou então o convento e passou algum tempo nas ruas da Bahia disfarçada de homem. Como era alfabetizada e gostava de escrever, dedicou-se a trabalhar clandestinamente na escrita de cartas e documentos, permanecendo mais um ano na cidade de São Salvador. Quando soube que muitos avançavam para as terras de Minas Gerais, decidiu segui-los. Trajada de homem e dizendo chamar-se Joaquim, pouco falava, viajando no lombo de uma mula que havia recebido como pagamento dos seus préstimos de escriturária. Em Minas Gerais, a protagonista vive alguns anos como Joaquim na cidade de Vila Rica, até ser descoberta e precisar fugir. Desta vez vestida de beata, ela se desloca junto com uma comunidade de fiéis religiosos para o norte do estado. Juntos, eles fundam uma comunidade e vivem alguns anos à custa da própria plantação e divisão do trabalho. Denunciada e acusada por um padre, mesmo não tendo cometido crime algum, Isabel é definitivamente presa e passa a residir no convento de Olinda até a sua morte.

Isabel vive uma realidade diferente daquela de muitas mulheres e grupos silenciados no Brasil Colônia. A ideia do romance surgiu em 1982, quando, ao visitar o Arquivo Histórico Ultramarino em Portugal, a autora se deparou com a carta de uma senhora que escreveu à rainha para se defender da acusação de manter na região de Minas Gerais uma comunidade para acolher mulheres rejeitadas pelo sistema. Essa história ficou guardada em sua cabeça muitos anos e só em 2019 ela publicou o romance. Importa aqui realçar que, ao longo da sua vida, Isabel não se sentia pertencente a nenhum lugar. Essa consciência da protagonista será ressaltada sobretudo nas últimas páginas do romance, quando já velha e presa definitivamente, anseia que alguém (principalmente o leitor) possa ler a sua carta e entender que suas lutas e seu incessante deslocamento foram não somente importantes para sua sobrevivência, mas também um legado para as mulheres e para os povos invisibilizados.

Há ainda outros dois importantes romances de Rezende em que o deslocamento das personagens é o fator constitutivo do enredo: Outros cantos e Quarenta dias. No primeiro, uma mulher de nome Maria se embrenha no sertão do país para praticar educação popular, infiltrada como professora do MOBRAL. Ela busca esclarecer trabalhadores explorados (homens, mulheres e crianças) para uma possível revolução. Maria não consegue alcançar a sonhada revolução, pois é descoberta antes disso como uma socialista infiltrada, mas suas sementes de conscientização social e política são claramente plantadas. Em Quarenta Dias, Alice, a protagonista, é uma professora recém-aposentada que vive na Paraíba. Ela recebe, inesperadamente, o chamamento de sua única filha para se mudar para Porto Alegre, a fim de a ajudar a criar o filho e a prosseguir os estudos. Já nesta cidade, Alice sente como podem ser inóspitos não só a referida capital, mas também a filha e o genro que sequer foram recebê-la. Sem trabalho ou companhia, numa cidade em que as diferenças vão muito além da temperatura, Alice faz questionamentos, sente a dor da solidão e do deslocamento, antes de passar quarenta dias na rua fugindo de todos e de quem ela pensava ser.

As mobilidades geográficas aqui referidas compõem as próprias personagens, ou como afirma Regina Dalcastagnè: “o espaço, hoje mais do que nunca, é constitutivo da personagem, seja ela nômade ou não. Só convém lembrar que personagens efetivamente fixas na sua comunidade estão quase ausentes da narrativa brasileira contemporânea (era muito mais fácil encontrá-las nos romances regionalistas).” (2003: 34) Assim sendo, com sua literatura em constante movimento e fortemente marcada pelo deslocamento das personagens, Maria Valéria Rezende se destaca na produção contemporânea em língua portuguesa também por seu olhar potente sobre os espaços, os deslocamentos e as diásporas, abordando o sertão e a cidade, tanto na atualidade, como durante o período de  Brasil como colônia.

 

 

Citações

Assim são, de fato, Senhora, quase todos os homens aos quais Vós pensais ter entregue a salvação das almas dos indígenas e dos africanos, mas antes lhes causam horror por sua religião que não lhes esconde a impiedade de fazerem de suas tristes vidas cativas um verdadeiro inferno, apesar das igrejas e capelas erigidas por suas confrarias, revestidas de ouro e perfumada de incensos raros. (Carta à rainha louca: 83)

Minha mãe, que o infeliz do meu pai foi buscar à sua aldeia natal para gerar-lhe filhos legítimos, capazes de lá voltar, quando o bafejasse a fortuna – acreditava nela, o meu pai – a reclamar as terras boas usurpadas pela ganância de um senhor daqueles montes, do outro lado do oceano, onde dizem haver mais pedras do que terra”. (Carta à rainha louca: 56)

Segundo dizem os demais homens desse fidalgo, não fossem a coragem e a inteligência de meu pai, teriam todos perecido, levados pelas imensas vagas, mais perigosas do que quaisquer monstros ou sereias que nesse mar oceano houvesse, a varrerem o convés e inundar cabines e porões do barco, durante uma longa tempestade. (idem: 57)

Cedo demais perdi minha mãe e salvei-me apenas pela astúcia de Gregório que me entregou à bondade das negras para criar-me nos desvãos da senzala e da cozinha da casa grande, até meus quatro ou cinco anos, quando já não podiam mais manter-me quieta e escondida das vistas dos senhores. (idem: 58)

Assim permaneci ainda um ano na cidade de São Salvador, abrigando-me por um punhado de réis na água-furtada da casa de uns comerciantes, que me tomavam por um estudante tímido e calado, a preparar-me para ir à Coimbra, mentira que me veio à boca logo que me perguntaram de onde vinha e para onde ia. Por uma escada externa à casa subia-se e descia-se desse sótão e, não faziam nenhum caso de mim se o aluguer lhes fosse pago no dia certo, coisa fácil para o discreto e bom forjador de documentos falsos e bem pagos que me tornei. (idem: 114)

Eu, muitos meses atrás, tão confiante e quase serena, Vos vinha narrando de maneira bem mais ordenada a minha história até o caminho das Minas Gerais, para vos testemunhar de que modo, por nenhum crime, vim eu aqui parar, quando então senti embaralhar-se de novo, minhas ideias e palavras, meus sentimentos e ânsias, sem saber ainda de uma epidemia de febres como as muitas a espalharem-se frequentemente nesses rincões. Temia outra vez perder o siso como quando aqui cheguei e já Vos contei e podeis vê-lo na forma abatalhoada das minhas muitas páginas há anos iniciadas. (idem: 12)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Rezende, Maria Valéria (2018), A face serena. São Paulo, Penalux.

— (2019), Carta à rainha louca. Rio de Janeiro, Alfaguara.

— (2014), O voo da guará vermelha. Rio de Janeiro, Alfaguara.

— (2016), Outros cantos. Rio de Janeiro, Alfaguara.

— (2014), Quarenta dias.  Rio de Janeiro, Alfaguara.

— (2014), Uma aventura muito louca. DSOP, São Paulo.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Dalcastagnè, Regina. “Sombras da cidade: o espaço na narrativa brasileira contemporânea”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, v. 21, p. 33-53, 2003.

Fanon, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1961.

Gilroy, Paul. O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência, trad. de Cid Knipel Moreira. São Paulo: Editora 34, 2001.

Gonzalez, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Flavia Rios e Márcia Lima (Org.). Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

Hutcheon, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção, trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

Walsh, Catherine. “Entretejiendo lo pedagógico y lo decolonial: luchas, caminos y siembras de reflexión-acción para resistir, (re)existir y (re)vivir”. Alternativas, 2017. Disponível em: https://alternativas.osu.edu/en/ebooks/catalog/new-ebook.html

Maciel, Nahima. Maria Valéria Rezende lança ‘Carta à rainha louca’. Correio brasiliense, 2019. Disponível em: Maria Valéria Rezende lança ‘Carta à rainha louca’. Acesso em 16 de dezembro de 2025.

Mignolo, Walter D. “Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política”. Cadernos de Letras da UFF, n. 34, p. 287-324, 2008.

Xavier, Elódia. Que corpo é esse? O corpo no imaginário feminino. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2021.

Pries, Ludger (2001), “The approach of transnational social spaces. Responding to new configurations of the social and the spatial”. New Transnational Social Spaces. International Migration and Transnational Companies in the Early Twenty-First Century. London, Routledge.

Quintana, Cécile (2020), Sujetos y escrituras de la errancia en América Latina. Paris, Éditions des archives contemporaines.

Sorj, Bernardo Sorj (1997), “Sociabilidade Brasileira e Identidade Judaica”, Identidades Judaicas no Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro, Imago Editora.

Viart, Dominique (2009),“Le silence des pères au principe du “récit de filiation”. Études françaises, v. 45(3): 95–112.

Autor(a): Adriana Aleixo Neto | ORCID


Citar
Adriana Aleixo Neto, "Maria Valéria Rezende", Diásporas em Português, ISBN 978-989-35462-0-8, 9 de Outubro, 2026, https://diasporasemportugues.ilcml.com/glossary/maria-valeria-rezende/

Verbetes de Adriana Aleixo Neto: Maria Valéria Rezende,